15 de janeiro de 2014

Crítica: Her

A CAMINHO DOS ÓSCARES 2014 
Realizador: Spike Jonze
Argumento: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde 
Classificação IMDb: 8.0 | Metascore: 90 | RottenTomatoes: 95%
Classificação Barba Por Fazer: 85


    Spike Jonze é um homem com uma boa cabeça. Frequentemente no mundo das curtas-metragens, tinha realizado até hoje 'Being John Malkovich', 'Adaptation' e 'Where the Wild Things Are' e ao 4.º filme conseguiu a sua obra-prima, num argumento de génese totalmente escrito por si. 'Her' é muito provavelmente o Melhor Argumento Original do ano. Ganhou o Globo de Ouro nessa categoria e é pertinente, sensível e inteligente.
    Num futuro não muito distante do mundo actual, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) acabou uma relação recentemente com Catherine (Rooney Mara) e é responsável, numa empresa, por escrever cartas de amor pessoais para pessoas com dificuldades em expressar os seus sentimentos. Theodore é um homem solitário, fechado no seu mundo até ao dia em que compra um sistema operativo com inteligência artificial, projectado com base nas sua personalidade e com a capacidade de evoluir como um ser humano. "Samantha" (voz de Scarlett Johansson) e Theodore desenvolvem uma relação, acabando o OS por aprender progressivamente como são as relações humanas, embora sem nunca ter um corpo que permita que a relação dê um passo determinante. Tudo o resto é cinema, bom cinema, é uma evolução bem pensada, futurista mas tangível. São sentimentos sem toque e ensinamentos metaforizados.
    O intelecto de Spike Jonze permitiu que 'Her' seja tudo: drama, ficção científica, romance e até comédia. É um filme sobre relações humanas e sobre o amor, com Samantha a funcionar na perfeição como a redoma individualizada que a tecnologia nos permite hoje em dia. Pode um homem apaixonar-se por uma máquina? Claro que a esta pergunta de normalmente fácil resposta, importa acrescentar que a máquina tem a voz da Scarlett Johansson.

    'Her' é claramente candidato a vencer o óscar de Melhor Argumento Original e seria interessante constar da lista de nomeados a Melhor Filme. Joaquin Phoenix está muitos furos acima do seu papel em 'The Master', que lhe valeu uma injusta nomeação a Melhor Actor no ano passado e este deve ser mesmo o melhor papel em que já o vi (o seu azar é que este é um ano bastante rico a nível de interpretações). Mais difícil mas não impossíveis serão as nomeações de Spike Jonze para realizador e a dupla Scarlett Johansson/ Amy Adams para actrizes secundárias, embora fique a questão: pode uma voz ser nomeada para um óscar de melhor actriz secundária?
    Vendo 'Her' é inevitável pensarmos em outros bons filmes como 'Lars and the Real Girl' ou 'Bicentennial Man' que juntos dariam em linhas gerais este filme. Spike Jonze teve a ideia de 'Her' quando leu um artigo sobre troca de mensagens instantâneas com estruturas com AI - ao início há um fase de excitação e curiosidade, mas que depois se gasta, embora o sistema se torne cada vez mais inteligente ao falar com um número cada vez maior de pessoas. Scarlett substituiu a actriz Samantha Morton - e ainda bem - e a banda sonora de 'Her' é também excelente com os Arcade Fire a trabalharem para o filme e Karen O (das Yeah Yeah Yeahs) a dar uma mãozinha. 'Her' é um bom e diferenciador filme, e preenche também as expectativas de quem já quis ouvir uma espécie de orgasmo das actrizes Scarlett Johansson e Kristen Wigg. Sim, eu sei que escrever "orgasmo" e "Scarlett Johansson" no mesmo artigo irá potenciar as hipóteses de muita gente chegar a ele em motores de busca. Já agora, há um momento bastante bom e intimista quando Scarlett canta The Moon Song acompanhada pelo ukelele de Joaquin Phoenix. Ah, e aquele boneco cabeçudo e cómico (quem vir o filme reconhecê-lo-á facilmente por esta descrição) merecia um filme só para ele. A voz foi-lhe dada curiosamente pelo realizador Spike Jonze (que, já agora, a título de curiosidade entrou em 'The Wolf of Wall Street' embora o seu papel não entre nos créditos).
    São as relações 2.0 e todo um conjunto - um bom conceito, um bom realizador, bons papéis e boa música - que fazem de 'Her' um dos filmes interessantes deste ano. Já dá para afirmar que este ano foi superior ao ano passado do Cinema, a nível de filmes e de actores/ actrizes.
    Tem um bom fim, outro bom momento com a carta de Theodore para Catherine e o bom papel de Samantha só se torna real graças a Theodore, pois é nas reacções de Joaquin Phoenix que se espelham as palavras e emoções da voz de Scarlett. É sensitivo, é físico sem o ser, é futuro ao ser presente, é o amor contado por Spike Jonze em 'Her'.

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