Revisão: The Leftovers (3ª Temporada)

No seu adeus, a série da HBO manteve a brutal sensibilidade a colocar e tratar emoções no ecrã, e a inteligência de saber pisar a fé e o cepticismo, o bizarro e o profundo. Com um storytelling maduro, ambicioso e refinado, Lindelof e Perrotta deixam um derradeiro desafio aos espectadores: conseguiremos nós, desta vez nós, lidar com uma perda (de uma série) assim?

Revisão: Master of None (2ª Temporada)

É uma das peças televisivas com mais personalidade, liberdade, ousadia e autenticidade dos últimos anos, e a grande surpresa de 2017 pelo seu brutal amadurecimento. Aziz Ansari faz um ensaio sobre relações para sobre Solidão, e será difícil não se apaixonarem por Alessandra Mastronardi.

Balanço Final - Liga NOS 2016/ 17

O primeiro tetra da História do Benfica, o 36 dos encarnados, ficou marcado por um Porto incapaz de aproveitar deslizes e por um Sporting muito abaixo da época anterior. Cresceu o Vit. Guimarães, desiludiu o Braga, surpreendeu o Feirense.

Balanço Final - Premier League 2016/ 17

Depois do ano do milagre e do Impossível, a normalidade regressou. Os favoritos voltaram ao topo, e entre Guardiola e Mourinho quem ganhou foi... Antonio Conte.

Prémios BPF Liga NOS 2016/ 17

Vejam quem foram os melhores do ano para o Barba Por Fazer. O organizador de jogo do Benfica, um guarda-redes que deu pontos, um holandês que rivalizou com Messi e um Treinador do Ano inesperado estão entre as escolhas.

30 de maio de 2016

100 Melhores Personagens de Séries - Nº 22



Série: The Wire
Actor: Andre Royo


por Miguel Pontares

    'The Wire', uma daquelas séries que toda a gente devia ver pelo menos uma vez na vida, tinha de tudo: o mundo da droga desconstruído nos seus vários níveis, pondo os narcóticos a escutar drug dealers, e envolvendo nesta rede outras unidades da polícia, políticos e inclusive crianças. Reginald "Bubbles" Cousins foi a alma e coração da série, mostrando a realidade e a vida dum drogado.
    No mundo cinzento da série de David Simon, Bubbles é o elemento mais neutro e um dos mais genuínos. É impossível não nos preocuparmos com ele, e torcermos para que fique bem, ele que acaba por funcionar como símbolo de esperança, flutuando entre a cor e a escuridão à medida que recupera e tem recaídas no seu consumo de heroína.
    Quando o conhecemos, é um sem-abrigo que se multiplica em esquemas (a escada é talvez o momento mais famoso) juntamente com o seu amigo Johnny Weeks para conseguirem dinheiro para comprar droga. O conhecimento profundo que tem das ruas de Baltimore torna-o informador (genial a técnica dos chapéus para diferenciar os vários papéis dos visados no tráfico) dos detectives McNulty e Kima, que acabam por usá-lo ignorando parcialmente a necessidade dele se curar. Ao longo das várias temporadas, passeia com o seu carrinho de compras a tentar fazer negócio, e se no domínio do vício demorou muito a fugir ao crónico "É só mais esta...", o mesmo se pode dizer em relação às tragédias que marcaram o seu trajecto - o seu amigo Johnny morre de overdose; é roubado e agredido; e Sherrod, o jovem que ele acolhe debaixo da sua asa frágil mas dedicada, acaba por se tornar um dano colateral. Aquilo que Bubbles foi quase sempre durante a série.
    No interior do vasto universo de personagens incríveis e verosímeis de 'The Wire', Bubbles é presença obrigatória em qualquer Top-3. O actor Andre Royo é o principal destaque da série em termos de interpretação (transitava nesta personagem entre o drama e a comédia num estalar de dedos), mergulhado a 100% no mundo da droga, convencendo-nos com os seus maneirismos; ele que chegou a ser abordado na rua e confundido com um drogado a ressacar, momento que Royo considerou o seu "óscar de rua". É um dos principais crimes da História dos Emmys a forma como Royo nunca ganhou com este Bubbles, embora a série como um todo tenha sido sempre subvalorizada, recebendo só com o passar do tempo o merecido reconhecimento.
    Do homem que agradeceu sempre com um much obliged, e cujo percurso inclui várias semelhanças com o que Jesse Pinkman teve mais tarde em 'Breaking Bad', ficam na retina alguns momentos-chave do seu sofrimento: quando se (e nos) desmancha em silêncio ao receber a visita de Walon, a sua tentativa de suicídio na sala de interrogatório depois da morte de Sherrod, e o seu discurso ao fim de 1 ano "limpo". 
    O final de Bubbles é uma das mensagens de esperança mais simples e profundas da História da Televisão. Revela finalmente capacidade de seguir em frente, completando o processo de luto dos que perdeu (Ain't no shame in holding on to grief, as long as you make room for other things too) e depois de muito tempo a viver na cave de casa da irmã, ela vê-o finalmente em condições de subir as escadas e sentar-se à mesa com ela. Em família, aceite, e em paz.         
                      
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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Lorena Wildering, Nuno Cunha, Cê e SWP.
Foram tidos em consideração séries com pelo menos 1 temporada, concluída a 1 de Outubro de 2015. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou às séries que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

29 de maio de 2016

100 Melhores Personagens de Séries - Nº 23



Série: Breaking Bad
Actor: Dean Norris


por Tiago Moreira

    Assim que penso num polícia americano, penso em Hank Schrader. É inevitável. O nosso tio careca de Breaking Bad tem praticamente tudo o que o estereótipo dum polícia norte-americano tem. Com a excepção de que não é tolo nenhum, embora o faça transparecer um pouco.
    Se pensarmos bem a fundo, Hank, um agente da DEA que combate o mundo das drogas em Albuquerque e extremamente competente, acaba por dar a conhecer o mundo da metanfetamina ao seu cunhado Walter White. Walter fica a saber quanto dinheiro é que este negócio envolve ao ter ido com Hank a uma operação anti-drogas e acabou por avistar Jesse Pinkman, seu antigo aluno e envolvido neste mesmo negócio.
    Hank acabou, no fundo, por ser o introdutor do negócio do diamante azul a Walter White que haveria de ser o seu maior alvo no futuro. O nosso polícia era obcecado pelo seu trabalho e pela perfeição com que o praticava. Era líder de grandes operações e sempre se gabou de todos os seus feitos e do impacto que tiveram para a redução da sinistralidade em Albuquerque.
    Porém, tudo muda quando Hank descobre da existência de Heisenberg, que na verdade era o seu cunhado Walter... Hank começou a sentir-se frustrado e com o orgulho ferido até porque começou a temer pela sua vida, a dada altura. A captura de Heisenberg tornou-se uma obsessão e isso acabou por se reflectir na sua vida pessoal. Onde Hank já nem conseguia ter momentos de lazer com a sua família. Esteve desligado do mundo e com a sua presa tão perto de si...
    Até ao dia em que juntou "1+1" e o resultado foi "W.W."... Uma reflexão que obteve sentado em sua retrete e que despoletou um final de série extremamente emotivo.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Lorena Wildering, Nuno Cunha, Cê e SWP.
Foram tidos em consideração séries com pelo menos 1 temporada, concluída a 1 de Outubro de 2015. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou às séries que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

28 de maio de 2016

Barba no Euro: Os Nossos 23 (Inglaterra)

    Depois de Portugal, 'Os Nossos 23' viram-se para terras de Sua Majestade. A Inglaterra, selecção que guarda más memórias de Portugal entre 2004 e 2006, está há muito afastada dos grandes palcos e dos grandes momentos a nível internacional. É preciso recuar ao Euro 96 (quando os ingleses foram anfitriões) para encontrar uma geração inglesa que tenha alcançado umas meias-finais; o histórico recente não é famoso (em 2008 nem se qualificaram para o Euro, no Mundial 2010 ficaram-se pelos oitavos, em 2012 caíram nos quartos, e finalmente no Mundial 2014 ficaram em último no grupo da morte, atrás de Itália, Uruguai e da surpreendente Costa Rica). Roy Hodgson, seleccionador de 68 anos, orienta a equipa desde Maio de 2012, mas nunca encheu as medidas - o britânico já promoveu inúmeras estreias, chamando nomalmente quem merece, mas em termos qualitativos ilustra o momento do futebol inglês em termos de treinadores (Alan Pardew e Eddie Howe são provavelmente os melhores, um deles um treinador de nível médio, e o segundo ainda muito jovem).
    Certo é que a Inglaterra chega à fase final com 10 vitórias em 10 jogos (31 golos marcados e apenas 3 sofridos) num grupo que continha a Suiça e a Eslovénia como principais adversários. Em França, Rooney e companhia partem como favoritos num grupo bastante homogéneo - País de Gales, Rússia e Eslováquia - e dos mais difíceis de prever. Sem contar com os lesionados Welbeck, Butland (o primeiro teria lugar pela importância na qualificação, e o 2.º pelo nível apresentado seria uma séria ameaça para Hart) e ainda Oxlade-Chamberlain, Hodgson convocou 26 jogadores, já perdeu Delph, tendo ainda que retirar 2 (o mais lógico será a dupla sair do trio Townsend, Wilshere e Rashford, sem afastar a hipótese Sturridge, que tem deixado os ingleses em alerta com a sua condição física).
    Nos nossos 23 há poucas diferenças relativamente à realidade - o que reforça a justiça da maioria dos eleitos -, e é no onze inicial que cometemos a nossa maior ousadia, uma que não acreditamos que Hodgson seja capaz. Embora Inglaterra tenha normalmente pouco "estofo" nas fases finais, desta vez a possibilidade de aproveitar dinâmicas desenvolvidas ao longo de toda a época, apostando em alguns elementos do Tottenham e do Liverpool (curiosamente duas equipas muito intensas, ou não fossem orientadas por Pochettino e Klopp), pode ser um factor benéfico.


A Convocatória



  • Guarda-Redes: Joe Hart (Manchester City), Ben Foster (West Brom), Fraser Forster (Southampton)
  • Defesas: Kyle Walker (Tottenham), Nathaniel Clyne (Liverpool), Chris Smalling (Manchester United), Gary Cahill (Chelsea), John Stones (Everton), Danny Rose (Tottenham), Aaron Cresswell (West Ham)
  • Médios: Eric Dier (Tottenham), Jordan Henderson (Liverpool), Danny Drinkwater (Leicester City), James Milner (Liverpool), Ross Barkley (Everton), Dele Alli (Tottenham)
  • Extremos: Adam Lallana (Liverpool), Raheem Sterling (Manchester City), Michail Antonio (West Ham)
  • Avançados: Wayne Rooney (Manchester United), Jamie Vardy (Leicester City), Harry Kane (Tottenham), Daniel Sturridge (Liverpool)
Lista de Contenção: Tom Heaton (Burnley), Ryan Bertrand (Southampton), Phil Jagielka (Everton), Mark Noble (West Ham), Jesse Lingard (Manchester United), Theo Walcott (Arsenal), Troy Deeney (Watford)


    Entre os postes, praticamente tudo igual. Impossibilitados de levar Jack Butland, que caso não se tivesse lesionado seria o nosso titular, apostamos em Joe Hart, Fraser Forster, demarcando-nos de Hodgson na chamada de Ben Foster, do West Brom, em vez de Heaton, o melhor guardião do Championship esta temporada. Embora Butland tenha sido o melhor GR inglês este ano, importa recordar os grandes jogos que Hart fez na Champions, e o impacto que o regresso de Forster teve na confiança e nos resultados do Southampton.
    Para o sector defensivo, imitámos o modus operandi do seleccionador e escolhemos apenas 7 jogadores, algo que se torna possível graças à polivalência do ex-leão Eric Dier. Para a direita as chamadas de Kyle Walker e Nathaniel Clyne são inquestionáveis, enquanto que do lado oposto a concorrência é muito mais apertada - Danny Rose e Aaron Cresswell estiveram acima de quaisquer outros em 2015/ 16, batendo Ryan Bertrand e jogadores com poucos jogos como Leighton Baines e Luke Shaw. No coração da defesa, o melhor central inglês esta temporada, Chris Smalling, acompanhado por Gary Cahill, cuja época esteve longe de ser brilhante, embora enquadrado neste elenco pode voltar ao seu melhor nível, sendo ainda um elemento importante nas bolas paradas ofensivas. Entre Jagielka e o colega toffee John Stones, damos prioridade ao central de 21 anos, pela qualidade que oferece na construção e porque o futuro passa por ele.
    Apostando num 4-4-2 losango (o melhor esquema para conciliar os principais talentos ingleses), é crucial ter várias soluções para o corredor central do meio-campo, elementos tacticamente maduros e que saibam sempre o que fazer à bola. Para o vértice mais recuado, Eric Dier e Jordan Henderson oferecem ao jogo abordagens bastante distintas - o médio defensivo do Tottenham é sobretudo um "tampão", cortando linhas de passe e fazendo a equipa respirar, enquanto que Henderson (viveu uma época instável em termos físicos) acrescenta maior qualidade como lançador, organizando a equipa a partir de trás. A fantástica época do campeão Danny Drinkwater torna-o uma presença obrigatória, ele que embora não deva ter muitos minutos, ganha importância em momentos de contenção, funcionando como segundo médio num duplo pivot. O faz-tudo James Milner seria sempre um dos primeiros jogadores a incluir na convocatória, por poder actuar em praticamente todas as posições do miolo, e neste meio-campo as despesas mais ofensivas, com capacidade de aceleração e uma meia distância de qualidade, estão entregues a Dele Alli e Ross Barkley. Alli (20 anos) é um daqueles jovens que tem tudo para marcar a próxima década, e parte na pole position para ser titular, relegando Barkley para o banco uma vez que ambos têm bastante em comum.
    O losango permitiria aos ingleses fugir ao seu tradicional 4-4-2 clássico com extremos muito verticais e pouco jogo interior, pelo que só levamos 3 jogadores para o corredor, e os três bastante diferentes. Adam Lallana, dos 3 o único que lançaríamos a titular, é o mais maduro, aquele que melhor sabe guardar a bola e que melhor sabe decidir (quer em transição, quer em ataque organizado). Raheem Sterling é do nosso lote de 23 o jogador que menos merecia aqui constar atendendo à fraca época - esperávamos muitíssimo mais dele no seu ano de estreia no Manchester City -, mas um jogador com a sua qualidade técnica, velocidade e vertigem a desequilibrar teria sempre que ser incluído. Por fim, e embora Hodgson o tenha ignorado (fica a ideia que Hodgson não viu os jogos do West Ham, porque Cresswell e Antonio mereciam estar nos 23, e numa lista de 26 Mark Noble também cabia), Michail Antonio é o nosso wildcard, pela confiança, pelos números (8 golos e 7 assistências), pela pujança e por ser um daqueles jogadores que qualquer treinador gosta (cresceu imenso com Bilic e, destes 3 extremos, seria aquele que levaria mais a sério as suas tarefas defensivas, ele que chegou a jogar várias vezes a lateral).
    Por fim, não havia outra hipótese senão levar este quarteto de luxo: Wayne Rooney, Jamie Vardy, Harry Kane e Daniel Sturridge. Roy Hodgson tem uma boa dor de cabeça, com o capitão e melhor marcador de sempre (52 golos) de Inglaterra, Rooney, a poder ser utilizado inclusive no meio-campo, e Sturridge (cuja condição física ainda não nos convenceu, embora o seu virtuosismo técnico e eficácia o façam brilhar mesmo sem os rasgos de outrora) a poder servir de agitador do jogo, ele que não costuma perdoar quando tem uma oportunidade. Seja como for, a dupla Vardy-Kane connosco seria sempre a titular, quer pelos golos que representam - Vardy marcou 24, Kane 25 -, quer pela confiança que têm apresentado, juntando a tudo isto o facto de terem tudo para "casar" na perfeição.

O Onze

        É provável que Hodgson aposte, pelo menos na estreia diante da Rússia (e dependendo também das experiências que forem feitas nos amigáveis), num 11 bastante semelhante ao nosso. No entanto, se nós deixamos o capitão Wayne Rooney no banco, é quase impossível que o seleccionador inglês faça o mesmo.
    Para a baliza é Hart. Com Butland disponível, a nossa escolha seria o guarda-redes do Stoke, mas atendendo às opções existentes, caberá a Joe Hart dar sequência às grandes exibições que fez na Champions League, em jogos de altíssimo nível e responsabilidade. Na defesa, a dupla Smalling-Cahill parece-nos ser a mais sólida para o centro, e nos laterais o mais inteligente é apostar nos dois spurs, Kyle Walker e Danny Rose. Sobretudo na 2.ª metade da época foram duas autênticas locomotivas, e já estão habituados a servir Kane no ataque.
    Seguindo para o ataque, nas 6 posições restantes, temos um trio de elementos do Liverpool, uma dupla do Tottenham que se entende de olhos fechados, e claro, Jamie Vardy, cuja electricidade, capacidade de pressionar, velocidade e dom de explorar as costas das defesas adversárias, fazem dele um jogador de fácil convívio em campo, funcionando como verdadeiro exemplo e ponto de contágio e concentração por nunca se desligar do jogo. Pelo menos contra Rússia, País de Gales e Eslováquia (diante de selecções como Alemanha, França ou Espanha seria difícil a Inglaterra surgir sem Dier), a melhor fórmula seria Henderson (se no estágio e nos amigáveis não parecer a 100%, Dier deve avançar) mais recuado, com Lallana e Milner mais abertos - Lallana com maior liberdade e influência no último terço, e Milner como elemento de equilíbrio constante. Estes 3 pupilos de Klopp serveriam de cortina para soltar a juventude de Dele Alli, ele que tão bem se entende com o colega de equipa Harry Kane. Embora haja várias alternativas, é muito difícil pensar num modelo de jogo funcional e relativamente equilibrado, capaz de ter em campo Alli, Vardy e Kane, um trio que deixaria a Inglaterra sempre mais perto do golo e de criar jogadas de perigo constantemente.
    Este é o nosso 11, embora reconheçamos que a experiência de Rooney será determinante para o grupo, podendo inclusive ocupar uma das posições do losango, enquanto que para agitar e mexer com o jogo teríamos sempre Sturridge, Barkley, Sterling ou Antonio.


25 de maio de 2016

Prémios BPF Premier League 2015/ 16

    Ano após ano a Barclays Premier League é considerada a liga mais vibrante, mais equilibrada e imprevisível. Todos os anos é assim. Mas nesta temporada de 2015/ 16 a palavra "imprevisível" ganhou outros contornos. Podemos estar gratos por ter assistido a uma época histórica para o futebol inglês, europeu e mundial. O Leicester City provou que não há impossíveis, e que a entrega e o espírito de sacrifício conjugados com uma crença e profissionalismo descomunais podem bater quaisquer super-orçamentos. Chamem-lhe conto de fadas, chamem-lhe história para contar aos netos. Pareceu um filme, um sonho. Mas foi a realidade, com um final feliz.
    Depois de Gareth Bale, Luis Suárez e Eden Hazard, o melhor jogador de 2015/ 16 foi o primeiro jogador africano a ser considerado Jogador do Ano pelos futebolistas em terras de Sua Majestade. A electricidade e garra do Leicester City contagiam e muito as escolhas do nosso 11 do ano, com 5 raposas azuis no onze inicial, acompanhadas por 2 representantes do Tottenham, 2 do Arsenal e 1 jogador de West Ham e Manchester United. Numa época que pode ser vista como um verdadeiro milagre, houve um enorme rebranding comparativamente com 2014/ 15 - só há um repetente no 11 do ano, e o nosso Jovem Jogador do Ano é o mesmo de 2015, mas tudo o resto ilustra bem quão surpreendente foi este campeonato, marcado pelo Leicester, mas também pelo excelente futebol do Tottenham de Pochettino, pelo papa-grandes West Ham, e por mais uma excelente época do Southampton. Em sentido inverso, City, United e Liverpool apresentaram todos um rendimento abaixo do esperado, mas foi o Chelsea, último campeão, a maior desilusão. São os jogadores que nos trazem aqui, portanto é chegada a altura de indicarmos as nossas preferências: o nosso 11 do Ano, o Jogador do Ano e Jovem Jogador do Ano, o Treinador do Ano e algumas categorias acessórias.
    Vamos lá a isto.


Guarda-Redes: O único jogador que repete a presença em 2014/ 15 e 2015/ 16. De Gea, guarda-redes do Manchester United, foi dado como certo no Real Madrid, mas a transferência falhou por minutos. Louis van Gaal bem pode agradecer. Não nos atrevemos a imaginar o lugar que o United ocuparia na tabela sem o espanhol, um coleccionador de defesas impossíveis e um jogador que dá pontos. É um dos 3 melhores guarda-redes da actualidade, e entre os 5 que escolhemos, aquele que foi mais determinante no trajecto da sua equipa. No último minuto da competição um auto-golo tirou-lhe a hipótese de ganhar a Golden Glove juntamente com Cech (16 clean sheets), mas pode gabar-se de ter sido o principal responsável pelo registo do Manchester United como melhor defesa - igual ao Tottenham - da competição.
    A acompanhá-lo temos Jack Butland, "tramado" por uma lesão que o afastou do Euro-2016 (seria justo a baliza de Inglaterra ser-lhe entregue a ele e não a Hart, caso pudesse viajar para França) depois de revelar ter ainda maior potencial do que o seu antecessor Begovic, e de ter marcado a primeira volta do campeonato como melhor GR por larga margem. Destaque ainda para Kasper Schmeichel, peça importante no trajecto do campeão Leicester, a fugir ao rótulo de "o filho de Schmeichel" afirmando-se individualmente, e deixando o pai babado. Os veteranos Petr Cech (luvas de ouro) e Gomes completam o nosso Top-5, com menção honrosa para Lloris.


Lateral Direito: Parece impossível quando o vemos jogar, mas Bellerín tem apenas 21 anos. Na posição mais fraca em termos de rendimento médio dos 5 representantes escolhidos, Bellerín foi o grande destaque. O lateral do Arsenal esteve sempre num nível alto, com alto impacto nos dois lados do campo (1 golo e 6 assistências), e conseguindo ser ligeiramente mais constante do que Kyle Walker, que voltou ao nível de outrora e terminou a época em grande.
    Nyom, Sagna e Clyne ocupam as restantes vagas, numa posição que pelo 2.º ano consecutivo fica marcada por 2 grandes destaques (Bellerín e Walker este ano, Ivanovic e Clyne na época passada) e uma clivagem acentuada na transposição para os restantes destaques.


Defesa Central (Lado Dto.): O melhor central desta edição da Premier League. Que temporada monstruosa do defesa belga! Depois de trocar o Southampton pelo Tottenham, Alderweireld assumiu-se como o "patrão" da rectaguarda dos spurs e juntou a isso o seu impacto junto às balizas adversárias (4 golos e 3 assistências). Sempre concentrado, agressivo na medida certa, excelente na antecipação e a sair a jogar... Não se podia pedir mais.
    A vaga de Alderweireld no Southampton foi ocupada pelo holandês van Dijk, e que adaptação teve o ex-Celtic à Premier League... Bate-se com Alderweireld na elegância a sair a jogar, e mostrou-se intransponível em diversos jogos, limpando a sua área como poucos, fazendo por vezes tanto o seu papel como o de José Fonte, atropelado pela fome do colega de sector. Smalling cresceu e tornou-se o esteio dos red devils, Wes Morgan foi o líder de uma equipa de guerreiros, e Scott Dann foi uma dor de cabeça para os adversários nas bolas paradas ofensivas do Crystal Palace.


Defesa Central (Lado Esq.): Se há um ano atrás nos dissessem que Robert Huth estaria no nosso 11 do ano da temporada seguinte, ter-nos-íamos rido. Muito. O alemão de 31 anos teve um ano incrível, formou uma dupla clássica (nem Huth nem Morgan querem ter bola no pé, são centrais "duros", fortíssimos no jogo aéreo e que só desligam quando o árbitro apita) com o capitão jamaicano, e juntou a tudo isto 3 golos absolutamente decisivos - deu a vitória em White Hart Lane, e bisou em casa do Manchester City. Consciente das suas limitações, é também a principal fonte de boa disposição de um balneário unido e solidário, e avisou toda a gente que a qualificação para a Champions o obrigaria a praticar as suas rabonas. Nunca é tarde.
    Koscielny perdeu fulgor com o decorrer da época, Ashley Williams foi uma vez mais a alma do Swansea, ficando a ideia que a defesa é "apenas" ele, Vertonghen foi menos exuberante que o companheiro e compatriota Alderweireld, mas formou uma dupla afinada (curioso o contraste entre o estilo moderno do Tottenham, e conservador dos centrais do Leicester) e, por fim, numa vaga que poderia ficar atribuída a vários jogadores, optámos por Blind, sempre muito fiável, sem nunca se queixar de estar numa posição que não é aquela em que rende mais.


Lateral Esquerdo: Escolher entre Fuchs, Cresswell e Danny Rose foi-nos difícil. Os dois ingleses, do West Ham e do Tottenham, destacaram-se no plano ofensivo, Fuchs sobretudo no capítulo defensivo. No desempate, pesou a importância de defender - o lateral austríaco faz tudo bem atrás, e ajudou durante toda a época com cruzamentos venenosos, alguns na marcação de cantos e livres indirectos. Cresswell mostrou, pelo 2.º ano consecutivo, quão bom é, a locomotiva chamada Danny Rose evoluiu imenso, apresentando-se sobretudo na segunda metade da época num nível como nunca antes na carreira. Patrick van Aanholt foi o defesa que mais golos (6) marcou esta temporada, e Charlie Daniels outro caso de sucesso ofensivo (3 golos e 5 assistências) e um dos principais responsáveis pela manutenção do Bournemouth.


Médio Centro: Slaven Bilic, treinador do West Ham, descreveu bem Kanté: ao fim de algum tempo a vê-lo em campo, qualquer pessoa começa a achar que se tratam de gémeos. Steve Walsh, o olheiro que o recomendou a Ranieri, tocou num ponto decisivo no desfecho deste campeonato - é como se o meio-campo fosse formado por Drinkwater, e um Kanté de cada lado. Tudo ficou mais fácil para os foxes ao jogarem com 12 em campo, um autêntico 4-5-2. N'Golo não pára de correr, bate tudo e todos em termos de desarmes e intercepções por jogo, e se Mahrez e Vardy ajudaram a desequilibrar os adversários, Kanté foi quem equilibrou o campeão Leicester. O ditado que virou moda não é exagero: 70% do mundo é coberto por água, o resto por N'Golo Kanté. O médio francês é ouro.
    O nosso esquema de 4-4-2 no 11 do Ano obriga-nos a fazer alguma ginástica, e por isso mesmo para esta posição - na qual incluímos os médios mais recuados, mestres na pressão e em fazer as suas equipas respirar - acrescentámos dois jogadores do 4-2-3-1 do Tottenham (Dembélé, a quem ninguém tira a bola, e que foi um dos melhores jogadores mais invisíveis desta edição; e Dier, que se fez um senhor médio defensivo), Drinkwater (tremendo crescimento, e o parceiro perfeito para Kanté) e ainda o capitão do West Ham, Mark Noble - marcou vários golos, a maioria de grande penalidade, mas foi o seu trabalho em conjunto com Kouyaté que permitiu soltar o génio de Payet na frente.


Médio Centro: O homem das assistências. É certo que Özil perdeu impacto na 2.ª metade da época, mas analisando friamente, merece de qualquer forma marcar presença no onze inicial. O alemão foi o maestro do Arsenal e demonstrou a sua inigualável qualidade de passe - 19 assistências (ficou a uma do recorde de Henry em 2002/ 03). Fica-nos ainda assim a sensação que Özil ainda tem mais para dar, e é fácil prever que teria outros números caso tivesse um avançado de topo para servir.
    A escolha de Özil deixa o miúdo Dele Alli à boca do onze. O médio ofensivo inglês, um dos talentos mais interessantes que explodiu este ano no futebol europeu, teve um ano de sonho (10 golos, 12 assistências), fez por merecer a titularidade no Euro-2016 e tenham atenção, porque Alli tem tudo para ser um dos médios mais espectaculares da próxima década.
    Barkley (caiu quando o Everton caiu como colectivo), Sigurdsson (o jogador mais consistente dos swans, e com a sua melhor época em Inglaterra) e Wijnaldum (merece melhor que o Newcastle) completam as nossas escolhas.


Extremo Direito: "O Mahrez é a nossa luz, e quando ele brilha, o King Power Stadium é fantástico". A frase é de Claudio Ranieri sobre o Jogador do Ano da Premier League 15/ 16. A raposa do deserto exibiu-se ao nível dos melhores do mundo, massacrando os adversários com momentos mágicos e o talento de um predestinado em lances de 1 para 1. Fartou-se de marcar (17 golos), fartou-se de assistir (11 golos), e criou oportunidades umas a seguir às outras, com pormenores para ver e rever, formando uma dupla imparável com Vardy e assumindo o estatuto de jogador que faz as coisas acontecer. A sua explosão não foi uma surpresa completa, porque a magia esteve sempre à vista de todos, mas a consistência e a confiança que apresentou durante toda a época tornaram-no um jogador verdadeiramente especial, sempre criativo, vagabundo e imprevisível.
    Alexis Sánchez foi um dos melhores do Arsenal, De Bruyne mostrou porque é que no ano civil de 2015 foi um dos 5 melhores jogadores do mundo (e atenção porque com Guardiola tornar-se-á um sério candidato a Jogador do Ano), Willian foi o único jogador do Chelsea capaz de remar contra a crise com regularidade a alto nível todo o ano e, por fim, optámos por Michail Antonio, um jogador polivalente (jogou a extremo direito, extremo esquerdo e terminou a época a lateral-direito) que deu o salto com Bilic.


Extremo Esquerdo: Para os adeptos do West Ham é perfeitamente legítimo que considerem que é Deus no céu, e Payet na Terra. O extremo francês, contratação do ano a par do seu compatriota N'Golo Kanté, espalhou classe nos relvados ingleses e rivalizou com Mahrez no nº de momentos de magia pura. Foi claramente o grande responsável pela época do West Ham (é o talismã da equipa, composta por jogadores que não se importam de correr mais para o manter fresco e inspirado) e os seus livres directos são qualquer coisa... Parece não ser capaz de tomar decisões erradas, cada cruzamento seu sai açucarado, e é bom ver um jogador no auge da sua carreira.
    Eriksen (pouco falado, mas termina a época com 6 golos e 16 assistências), Coutinho, Arnautovic (finalmente consistente) e Tadic (grande final de temporada) juntam-se ao mago Payet.


Avançado: Recordista. Eléctrico. Festivo. Jamie Vardy deu uma festa que entrou para a História do futebol mundial. O avançado do Leicester, exemplar na pressão constante que exerce e na forma como nunca se esconde, cresceu mais do que qualquer outro jogador esta época (a capacidade que hoje apresenta a jogar no limite do fora-de-jogo e a explorar as costas das defesas é um exemplo disso) e formou com Mahrez e Kanté o trio de jogadores mais determinantes na caminhada do campeão. Importa não esquecer um "pequeno" pormenor: o sprinter Vardy bateu o recorde de van Nistelrooy, com 11 jogos consecutivos a marcar, uma sequência fundamental para ajudar o Leicester a acreditar que o milagre era possível.
    Agüero brilhou como sempre, marcou como sempre, esteve lesionado como sempre (sem as lesões seria o melhor marcador sem qualquer dificuldade), e tem tudo para render ainda mais com Guardiola. Nas restantes 3 vagas decidimos escalar o portentoso Deeney (grande capitão, imparável nas alturas, um trabalhador incansável e o complemento perfeito de Ighalo) e 2 elementos que jogaram adaptados a "falso 9" em diferentes fases da época - Roberto Firmino e André Ayew.


Avançado: Se no início da época alguns (nós incluídos) tinham dúvidas em relação à capacidade de Kane manter o nível, caso não começasse a embalar cedo no campeonato, agora ninguém as tem. Harry Kane é, aos 22 anos, um ponta de lança incrível e ainda com uma margem de progressão assinalável. Carregou o Tottenham em vários jogos, mantendo a pressão sobre o Leicester até quando foi possível. Conseguiu marcar ainda mais golos do que em 2014/ 15 e a tendência será continuar a melhorar. O melhor para o Melhor Marcador desta época seria continuar em Inglaterra, porque as comparações com Shearer começam a fazer cada vez mais sentido.
    Romelu Lukaku, tal como Barkley, foi melhor na 1.ª volta e alcançou a sua melhor marca de golos em Inglaterra; Ighalo também caiu substancialmente na segunda metade, mas foi uma das figuras do campeonato até à passagem de ano; Defoe contribuiu de forma decisiva para que o Sunderland se mantivesse no primeiro escalão, e Pellè exibiu-se de forma inconsistente, mas com pujança suficiente para constar aqui.


    Ao contrário de anos anteriores, estamos totalmente de acordo com o Top-6 eleito pela associação dos futebolistas de Inglaterra. Tal como para a PFA, também para o Barba Por Fazer, Riyad Mahrez foi o Jogador do Ano. Não houve nenhum jogador com impacto igual ao argelino, sempre num nível altíssimo (quando não marcou ou assistiu, ajudou a desbloquear defesas e espalhou magia e fantasia mas sempre de forma objectiva). Trouxe um pouco de futebol de rua para os relvados da Premier League, e tornou-se assim o primeiro jogador africano a ser considerado o Jogador do Ano, e o jogador mais barato de sempre a ser distinguido. Ele, que idolatra Messi, foi o Messi da Premier League e é impossível esquecer o momento em que calou o Etihad, na altura com um 0-2 no começo da 2.ª parte ao qual os jogadores do Leicester nem pareciam saber reagir: naquele momento, começaram a acreditar que o título era realmente possível.
    O melhor amigo de Mahrez, Jamie Vardy, fica logo atrás, ele que representa melhor que ninguém a história do Leicester - um jogador que há poucos anos era amador, mas que lutou e bateu recordes. Vardy que foi eleito Jogador do Ano pelos jornalistas e pela Barclays, enquanto que nos prémios internos do Leicester foi Mahrez o eleito (e Kanté o escolhido pelos jogadores campeões), ele que também arrancou o prémio atribuído pela PFA na versão adeptos. Payet foi o jogador com mais classe pura em Inglaterra - momentos de "valeu o bilhete" foram com ele e Mahrez, sobretudo -, Kane o melhor marcador do campeonato e porta-estandarte goleador de uma equipa jovem mas extraordinária pela qual torceríamos em qualquer outra época, excepto nesta; Özil criou oportunidades e desenhou linhas de passe impensáveis para o comum dos mortais, e o pequeno N'Golo Kanté não precisou de números para nos cansar de o ver a correr. Um dos obreiros do título, omnipresente e incansável, ao ponto de criar a ilusão de que a sua equipa entrou sempre em campo em superioridade numérica.


    Aqui no Barba Por Fazer consideramos candidatos ao título de "Jovem Jogador do Ano" elementos que tenham até 22 anos de idade. Assim, ao contrário da realidade, elementos como Coutinho, Butland e Lukaku não contam para nós. Por não distinguirmos a Revelação do Ano (seria Dele Alli) mas sim o Jovem Jogador, que cumpra os critérios, com melhor rendimento durante a época, o nosso eleito é pelo segundo ano consecutivo Harry Kane (na próxima época já não é elegível). Marcou golos de todas as maneiras e feitios, é o único dos Jovens que tem também lugar nos nossos 6 melhores jogadores deste campeonato, depois de funcionar como farol da equipa que praticou o futebol mais bonito em Inglaterra.
    A juventude deste Tottenham 15/ 16 fica aqui expressa, com metade dos nomeados a pertencerem aos spurs - também Alli e Dier marcam presença. Bellerín, Ross Barkley e o francês Anthony Martial completam o sexteto de jovens promessas.


Treinador do Ano: O homem do milagre. Quando vemos uma equipa em que todos os jogadores estão a jogar acima do nível que alguma vez tinham apresentado, há trabalho de treinador. O azarado Ranieri acumulou infortúnios toda a carreira para, quando ninguém esperava, escrever o seu nome associado a um dos maiores feitos da História do futebol e do desporto. Deu liberdade aos jogadores, soube sempre estar (no começo da época forrou a sua sala com imagens dos outros treinadores para eles se sentirem bem recebidos quando visitassem o King Power Stadium) e manteve o plantel sempre focado, "afinando" a defesa (pizzas em troca de clean sheets) em 2016. Incutiu a crença, a determinação, a garra e a solidariedade constante que caracterizou o Leicester City, e teve a arte e o engenho de simplificar. Fez magia.
    Pochettino colocou o Tottenham a jogar um futebol de encher o olho, com muito trabalho de casa (os spurs foram a equipa em que se viu processualmente mais "dedo de treinador") e nesta altura não restam dúvidas do futuro brilhante que o técnico argentino tem pela frente. Slaven Bilic correspondeu exactamente às nossas expectativas, com um West Ham entusiasmante e talhado para os jogos grandes (na próxima época, os hammers têm o estádio Olímpico como nova casa e será muito interessante acompanhar o crescimento de um projecto bem estruturado nos próximos anos), enquanto que Eddie Howe e Quique Flores fizeram trabalhos meritórios no Bournemouth e Watford. O Watford de Quique realizou uma 1.ª volta impressionante, e é completamente absurdo o facto da Direcção ter abdicado dos serviços do espanhol, e Howe, com um plantel limitado, várias adversidades e uma ideia de jogo ambiciosa, comprovou porque é que é um dos jovens treinadores com mais margem da actualidade. Destaque ainda para mais um sensacional trabalho de Koeman, e para as boas rectas finais de Allardyce no Sunderland e Guidolin no Swansea.


Clube-Sensação: Leicester City
Desilusão: Chelsea
Most Improved Player: 1. Jamie Vardy, 2. Danny Drinkwater, 3. Eric Dier
Reforço do Ano: N'Golo Kanté (Leicester City) | Dimitri Payet (West Ham)
Flop do Ano: Radamel Falcao (Chelsea)
Melhor Golo: Jamie Vardy (Leicester City 2 - 0 Liverpool) (Link)



24 de maio de 2016

Balanço Final - Liga NOS 15/ 16

 Liga NOS - A temporada de 2015/ 16 não fica para a História como um campeonato no seu todo competitivo, renhido, equilibrado e nivelado por cima. Mas será sempre recordado por uma luta a dois incrível, suada e escaldante (em campo e, infelizmente, fora dele). O Sporting reergueu-se e foi o clube mais dominador, mas não o mais eficaz, com uma ideia de jogo sólida e muito trabalho de casa do mister Jorge Jesus. Mas como já acontecera no rival, Jesus, agora de verde e branco, deixou escapar uma vantagem significativa, vendo o seu bom futebol ultrapassado por uma equipa que primou pela humildade, pela alma e pela estabilidade emocional. O Benfica, tricampeão - o que não acontecia desde 1976/ 77 - por vezes não conseguiu apresentar um futebol deslumbrante, sobretudo fora da Luz, mas soube reagir a um início de época trágico. Alicerçados na raça, no crer e na ambição os encarnados escalaram uma montanha sem olhar para trás e sem se preocuparem com a distância a que estavam dos rivais. O resultado foi um recorde de pontos (88) e um tricampeonato impróprio para cardíacos. Com Lisboa em chamas, a grande desilusão acabou por ser o Porto (desde 2013 nada ganha), incapaz de aproveitar o clima hostil entre águias e leões. Quer com Lopetegui, quer com Peseiro, o Porto esteve quase sempre irreconhecível, com os jogadores pouco motivados e muito inseguros. Ainda assim, a marca de 73 pts conseguida por um Porto tão frágil traduz bem o nível qualitativo do campeonato. Num ano em que a histórica Académica e o recém-promovido União da Madeira descem, o Braga (vencedor da Taça de Portugal 50 anos depois) espalhou bom futebol por Portugal e pela Europa, e o Arouca de Lito Vidigal foi a equipa que mais superou as nossas expectativas.
    Com algumas surpresas, mas infelizmente na maioria desilusões, apresentamos o nosso Balanço da Liga NOS 2015/16:


 BENFICA (1)

   Na nossa Antevisão até fomos simpáticos ao apontar o Benfica ao 2.º lugar na época que agora findou. Afinal, no começo de época dos encarnados via-se uma equipa ferida, apática e com os sectores completamente desligados entre si. Luís Filipe Vieira confiou no seu feeling Rui Vitória, e teve o mérito de segurar o treinador quando tudo estava contra o técnico natural de Vila Franca de Xira. No entanto, os louros da boa época, que a comunicação social parece querer dar ao presidente, devem ser dados ao líder que foi Rui Vitória e aos seus jogadores. As "estruturas" não ganham campeonatos, quem os ganha são os jogadores e as equipas técnicas que, unidos, conseguiram superar as diversas adversidades - uma pré-época assassina, com apenas 5 jogos do outro lado do Atlântico e temperaturas absurdas para o físico dos jogadores; fraco investimento no plantel, remendado perto do fim do mercado com a chegada dos avançados Mitroglou e Jiménez. A juntar a tudo isto, Salvio lesionado, e ao longo da época problemas físicos intermitentes de Nico Gaitán e Fejsa, e as lesões de Luisão e Júlio César, figuras de primeira linha.
    Impossível não recordar a derrota na Supertaça, um forte revés seguido pelas derrotas na Liga com os rivais directos (1-0 no Dragão, e o traumático 3-0 com o Sporting, na Luz). Ainda assim, Rui Vitória conseguiu unir a equipa e teve a capacidade de colmatar algumas lesões com jogadores jovens que viriam a ser fundamentais como Renato Sanches e Lindelöf. O clube da Luz chegou a apresentar-se no campeonato com 4 vitórias, 1 empate e 3 derrotas. Daí então, o Benfica apenas somou mais uma derrota - contra o Porto, na Luz. A recuperação anímica foi incrível e o 12º jogador foi fundamental, com os adeptos a carregarem a equipa às costas, puxando pelos craques. Jonas (32 golos) e Mitroglou (20 golos) foram os goleadores de serviço, Raúl a arma secreta e decisiva, e Renato Sanches a cara da revolução, a alma e a peça do puzzle que faltava ao modelo de jogo. No início do campeonato foi o mágico Nico Gaitán a fazer a diferença com a sua capacidade de desequilibrar, e na recta final foi Fejsa (um autêntico tractor a cobrir todo o campo e a asfixiar os adversários) a equilibrar a equipa jogo após jogo. Na defesa, Jardel e Lindelöf tornaram-se uma barreira intransponível, e os laterais André Almeida e Eliseu foram imagem da competência na segunda metade da época. Por fim, Ederson... o ex-Rio Ave acabou por ser uma revelação de todo o tamanho (quase fazendo lembrar Jan Oblak), sempre destemido nas saídas e sendo claramente um guarda-redes que valeu pontos e consequentemente, mais um elemento fulcral na conquista do título.
    Com todos os factores negativos iniciais, era mais do que normal que o Benfica acabasse no terceiro lugar. Porém, isso não aconteceu neste ano tão atípico. O Benfica acabou o campeonato com um recorde de 88 pontos, recuperou 7 ao rival Sporting e passou para a frente do campeonato exactamente em casa do rival. Há vários momentos chave que podem ser dados como o ponto de viragem. Desde o emblemático minuto 70 onde - a perder por 3-0 em casa com o rival Sporting e a serem enxovalhados pela claque visitante - os adeptos benfiquistas gritaram a plenos pulmões todo o amor que sentiam pelo clube e transmitiram à equipa que, acontecesse o que acontecesse, eles estariam com a equipa até ao fim. E assim foi até ao fim, com a onda vermelha a percorrer o país de Norte a Sul, chegando às ilhas. Aquele que pode ser considerado "o jogo do título" (0-1 em Alvalade, golo de Mitroglou) foi outro momento marcante e factualmente o mais importante - foi lá que o 1.º lugar foi tomado, tendo os pupilos de Rui Vitória não arredado mais o pé (águias e leões ganharam todos os jogos até ao fim depois dessa jornada 25).
    Este não foi o Benfica, pese o número de pontos e golos, que melhor futebol apresentou; mas foi o Benfica que mais alma mostrou ao longo de muitos anos. Uma ideia que é não só a nossa opinião, como a de muitos benfiquistas com mais anos de futebol do que nós de vida.

Destaques: Jonas, Renato Sanches, Kostas Mitroglou, Ljubomir Fejsa, Nico Gaitán

 SPORTING (2)

    O Sporting voltou. Jorge Jesus chegou a Alvalade e logo no 1.º ano de trabalho conseguiu colocar o Sporting na luta pelo título até à última jornada, com um total de 86 pontos. Num campeonato nivelado por baixo em termos de qualidade global, mas com uma luta a dois extraordinária e emocionante, acabou por ser o rival Benfica (clube no qual JJ trabalhara durante 6 temporadas) a sorrir no fim, depois dos encarnados revelarem mais "estofo" mental, aproveitando para queimar uma vantagem que os leões perderam de forma proibida. Uma mentira dita muitas vezes não se torna por isso uma verdade, pelo que se por um lado é indiscutível a supremacia do Sporting nos jogos grandes, a décalage do futebol apresentado entre Sporting e Benfica foi pouco significativa: as vitórias pela margem mínima do Benfica na recta final valem tanto como as vitórias pela margem dos leões a meio da temporada, e o mesmo se pode dizer aos diferentes períodos em que águias e leões golearam. Mas é habitual o adepto-comum dar maior peso às imagens mentais mais recentes.
    É indiscutível o equilíbrio entre Sporting e Benfica, e assim como é justa a vitória do tricampeão, também seria justo o Sporting ver coroado o seu trajecto com o troféu de campeão. Mas só podia ganhar um. O que mais impressiona neste Sporting 2015/ 16 é o crescimento brutal, num curto espaço de tempo, consequência do trabalho e competitividade incutidos por Jorge Jesus (vê-se muito Jesus neste Sporting, com processos instaurados e rotinas criadas). Mesmo sem Carrillo, Jesus fez evoluir elementos como João Mário (o MVP dos jogos grandes), Adrien ou Slimani (ambos símbolos da crença e atitude sportinguista), estes 3 os melhores deste Sporting, e terminou com a melhor defesa (21 golos sofridos) e o 2.º melhor ataque (79 golos, menos 9 que o 1.º classificado). Curioso acompanhar o percurso da defesa leonina, que parecia ter estabilizado em João Pereira - Paulo Oliveira - Naldo - Jefferson, mas que acabou por terminar numa versão 100% renovada, com Schelotto - Coates - Rúben Semedo - Zeegelaar/ Bruno César, muito mais de acordo com a filosofia de jogo de Jesus, com maior qualidade na saída de bola e muito melhor projecção dos laterais nos corredores.
    Na perspectiva leonina, este poderia ser recordado como o campeonato em que Bryan Ruiz (jogador incrível, não obstante) não foi capaz de finalizar contra o Benfica e em Guimarães, tendo os leões perdido apenas 1 dos clássicos, precisamente aquele que era proibido perder (depois desse jogo, tanto águias como leões só ganharam, portanto o Sporting 0-1 Benfica acabou por ser a última vez que um dos dois rivais perdeu pontos). Esta época deve ser, no entanto, encarada como uma renovação da identidade e uma (re)afirmação da posição do Sporting no contexto do futebol nacional, dando sequência ao bom trabalho de Jesus e dos jogadores (exemplares a todos os níveis) dentro do campo, e aprendendo a estar fora dele (o comportamento e as afirmações de Bruno de Carvalho e Jorge Jesus ao longo da época só serviram para "alimentar" e unir o rival, criando um clima de hostilidade que acabou por se virar contra o feiticeiro).
    
Destaques: João Mário, Adrien Silva, Islam Slimani, Rui Patrício, Bryan Ruiz

 PORTO (3)

    A desilusão da época. Entregámos aos anteriores vice-campeões o 1.º lugar na nossa antevisão, em Agosto passado, face ao novo investimento no plantel (em teoria, parecia ser o melhor do campeonato) com Casillas, Maxi Pereira, Layún, Danilo, André André e Imbula a reforçarem uma equipa que parecia poder beneficiar do fogo cruzado em Lisboa, e na qual mesmo tendo perdido Jackson Martínez e Óliver, o camaronês Aboubakar parecia dar sinais de ser um digno sucessor do colombiano. O mau planeamento da época portista vê-se por exemplo no mercado de Inverno quando Marega e Suk foram contratados, ignorando o talento de André Silva, cujo brilho na equipa B mostrava que ou merecia ser aposta ou tinha que ser emprestado.

    Tudo começou com Lopetegui, mantendo a equipa um constante fraco desempenho, desiludindo quer pelo colectivo (Lopetegui nunca abdicou da sua filosofia de posse extrema, com transições rápidas a serem quase um oásis no Dragão) quer individualmente (Brahimi foi uma enorme desilusão, bem como Imbula, vendido em Janeiro ao Stoke). Ainda assim, com o espanhol no comando o clube da Invicta chegou mesmo ao primeiro lugar. Algo que não durou muito, à imagem da continuidade de Lopetegui, que foi coçando a cabeça jogo após jogo até ser demitido. José Peseiro foi o escolhido por Jorge Nuno Pinto da Costa e o futebol até parecia ver melhorias. Mera ilusão, já que o centro da defesa foi sempre um verdadeiro tendão de Aquiles. Ainda assim, mesmo perdendo pontos de forma surpreendente em vários jogos, os azuis e brancos chegaram ao Estádio da Luz e roubaram 3 pontos ao eterno rival conseguindo um balão de oxigénio para o que restava da época, e parecendo tornar o campeonato uma luta a 3. Novamente uma ilusão já que a equipa de Peseiro voltaria a perder o comboio, primeiro ao levar um festival de futebol em Braga, culminando no jogo que "acordou" o Tondela e que levou ao desabafo do presidente - "Batemos no fundo".
    Os laterais Maxi e Layún foram dos melhores do plantel, com Danilo Pereira a evitar males maiores à frente de uma defesa invulgarmente vulnerável. André André (o destaque maior deste Porto no início de época) foi traído pelas lesões, e o mexicano Héctor Herrera, quase sozinho, não conseguiu dar conta do recado. O final da época serviu de raio-x/ pré-época para 2016/ 17, com o miúdo André Silva a mostrar o seu talento, numa temporada marcada pela falta de liderança e estabilidade no Dragão.
    Pinto da Costa ganhou de novo as eleições e promete que para o ano vai investir bastante no plantel com vista a relançar o Porto para os palcos a que está acostumado. Está à vista que, mais do que contratar individualidades, importa sim escolher o homem certo para o cargo de treinador. Muitos são os nomes falados, com Paulo Sousa a parecer ser o alvo mais apetecido. Uma coisa é certa: José Peseiro não é. Como deu para ver na final da Taça de Portugal no frente-a-frente entre Peseiro e Pinto da Costa.

Destaques: Miguel Layún, Danilo Pereira, Maxi Pereira, André André, Héctor Herrera

 BRAGA (4)

    Finalmente a jogar à grande. O Braga de Paulo Fonseca (parece estar de malas feitas para o Shakhtar) foi uma das equipas que melhor futebol praticou nesta época, sem nunca arredar pé de nenhuma competição em que estava inserido. Os números reforçam-no: a equipa minhota foi a equipa portuguesa com mais jogos oficiais disputados esta temporada (57), acima de qualquer um dos 3 grandes (Benfica e Porto somaram ambos 52, e o Sporting 51).
    Conjugado com a noção de "jogar à grande", no fundo representando o clube da melhor forma, Paulo Fonseca teve ainda o condão de gerir o plantel com mestria - confiou em todos os elementos e aplicou uma rotação inteligente, conseguindo ter um 11 sempre motivado, fresco e intenso. Claro está que tudo isto só foi possível graças à esquematização pensada do plantel, com 2 opções válidas e equilibradas por posição, permitindo descansar jogadores sem perder qualidade.
    Embora tenha tido alguns precalços pelo meio, ficou sempre a ideia que este Braga tinha valor suficiente para roubar o 3.º lugar ao Porto (porventura, com foco exclusivo, algo que não patrocinamos, na Liga NOS a distância seria menor do que 15 pts). Rafa foi a estrela da equipa, e é muito improvável que continue no Minho, com Benfica e Porto a perfilarem-se como os destinos mais prováveis para o jovem internacional português. Luiz Carlos deu segurança ao meio-campo, estando Mauro ou Vukcević ao seu lado; Ricardo Ferreira e Boly foram exímios no centro da defesa (bastante melhores do que o 3.º central mais utilizado, André Pinto), a baliza esteve sempre bem entregue, primeiro a Kriticuk e depois a Marafona (Matheus foi o guardião na Europa e quase sempre nas taças) e Pedro Santos, sempre que chamado, agitou com o jogo. A rotatividade (inteligente, e não gratuita) de Paulo Fonseca fica demonstrada pelos avançados, que foram todos eles um destaque só - Fonseca soube utilizar Hassan, Stojiljković, Rui Fonte, e até mesmo Wilson Eduardo, de forma sábia e os golos foram-se distribuindo pelos 4.

Destaques: Rafa, Luiz Carlos, Pedro Santos, Ricardo Ferreira, Willy Boly

 AROUCA (5)

    A verdadeira equipa-sensação do futebol português em 2015/ 16. Depois dos brilhantes trabalhos no Belenenses e agora no Arouca, já poucos terão dúvidas da qualidade de Lito Vidigal, o "engraçadinho" da turma dos treinadores. Lito teve o condão de tornar o Arouca uma equipa incrivelmente coesa, em que a força do colectivo se sobrepôs sempre a qualquer individualidade (poucos foram os destaques ofensivos).
    O Arouca fez da sua defesa a sua principal arma, com Bracali sensacional, bem como Hugo Basto (conseguirá o Arouca segurar um central assim?) e Lucas Lima (o mestre das bolas paradas). Nuno Coelho e Nuno Valente, durante toda a época com a faca nos dentes e a corda toda, representam bem a filosofia que Lito imprimiu na equipa, de longe aquela que conseguiu terminar mais acima relativamente àquilo que projectávamos. É verdade que o futebol do Arouca foi muitas vezes pouco cativante, mas a equipa respeitou sempre o plano para cada jogo e a estratégia de Lito - juntou a isso vitórias diante de Benfica (1-0) e Porto (2-1, no Dragão). Analisando estatisticamente e de forma crua o 5.º lugar fica justificado, os arouquenses foram o 5.º melhor ataque do campeonato, e a 5.ª melhor defesa.

Destaques: Lucas Lima, Hugo Basto, Rafael Bracali, Nuno Coelho, Nuno Valente

 RIO AVE (6)

    Uma época de altos e baixos, mas que não deixou de estar ao nível recente e condizente com o crescimento sustentado da equipa de Vila do Conde (o Rio Ave repetiu o 6.º lugar de 2012/ 13, e voltou à Liga Europa, onde estivera na época passada, conseguindo desta vez a qualfiicação por intermédio do campeonato). Pedro Martins voltou a fazer um trabalho exemplar e preferiu jogar sempre de forma incisiva no ataque, como poucas equipas ousam fazer no nosso campeonato.
    Contudo, foi na defesa que esteve a maior virtude deste Rio Ave, equipa que marcou tantos golos como sofreu (44), apresentando uma diferença de golos nula. Marcelo voltou ao nível de outrora, e os laterais Edimar e Lionn estiveram num nível elevado ao longo da época. O pouco-falado mas altamente determinante Wakaso foi o pêndulo complementar, actuando na posição mais recuada dum meio-campo no qual Tarantini voltou a mostrar ser um líder nato. Cássio continuou a exibições que tanto nos tem habituado, Renan Bressan brilhou em alguns jogos caseiros e os golos ficaram maioritariamente a cargo de Guedes e, numa fase posterior, Hélder Postiga.
    Os vilacondenses fizeram o chamado "campeonato certinho", e mesmo que o objectivo definido internamente até fosse o 5.º lugar, a sexta posição será certamente satisfatória, carimbando o acesso à Europa ao contrário de Paços, Estoril, Belenenses e Vitória de Guimarães.

Destaques: Marcelo, Wakaso, Tarantini, Cássio, Edimar

 PAÇOS FERREIRA (7)

    Depois do 8.º lugar sob a liderança de Paulo Fonseca em 2014/ 15, o Paços de Jorge Simão acabou um lugar acima da época passada. A equipa da Capital do Móvel ficou a 1 ponto do apuramento para a Liga Europa, com um plantel jovem, formado sobretudo por jogadores portugueses, e com Diogo Jota (19 anos) como grande figura. O extremo esquerdo/ segundo avançado, a cumprir o primeiro ano completo como profissional, marcou 12 golos e carregou completamente a equipa às costas (curioso o Paços revelar-se incapaz de garantir a Liga Europa quando já não contou com Jota, lesionado), acabando vendido ao Atlético Madrid, num negociado intermediado por Jorge Mendes.
    Diogo Jota, Hélder Lopes (sempre em alta rotação e um alvo interessante em final de contrato), Pelé e o goleador Bruno Moreira acabaram por ser os jogadores mais constantes, com Jorge Simão a promover várias trocas: Defendi ganhou a baliza com a venda de Marafona, a dupla de centrais "rodou" entre o trio Fábio Cardoso, Ricardo e Marco Baixinho, João Góis e Bruno Santos realizaram cada qual meia época na lateral-direita, e assim sucessivamente.

Destaques: Diogo Jota, Bruno Moreira, Hélder Lopes, Fábio Cardoso, Pelé

 ESTORIL (8)

    Se o Vit. Setúbal foi uma das equipas-sensação da primeira volta, os canarinhos foram o espelho e quase o inverso dos sadinos, com uma segunda volta respeitável. Os pupilos de Fabiano Soares (renovou até 2020, recebendo um voto de confiança na procura de estabilidade) começaram por fazer um campeonato pouco interessante, a meio-gás, embora nunca tendo a vida na Liga NOS em risco. Certo é que, inspirados pelo matador Léo Bonatini e pelo criativo Mattheus, os estorilistas cresceram muito como equipa, revelando maior entrosamento e bom futebol em vários jogos.
     Bonatini (impossível permanecer na Linha em 2016/ 17) foi o 4.º melhor marcador do campeonato, bem apoiado também pelo imprevisível Gerso, e por Anderson Luís, lateral que deu muita profundidade e fez parte de uma defesa na qual Diego Carlos esteve igualmente em bom plano.

Destaques: Léo Bonatini, Mattheus, Anderson Luís, Gerso, Diego Carlos

 BELENENSES (9)

    Puxando a cassete atrás, torna-se cada vez mais evidente o erro que foi despedir Lito Vidigal no decorrer de 2014/ 15. Como se não bastasse, o conflito interno que houve no clube foi outra contrariedade - a desestabilização na estrutura do clube acabou por se reflectir em campo já que, tendo em conta os jogadores de qualidade que Sá Pinto e Velázquez tiveram ao seu dispor, o Belenenses poderia muito bem ter terminado mais acima na tabela.
    A equipa do Restelo foi a pior defesa do campeonato (66 golos sofridos), com a 3.ª pior diferença de golos da prova (pior só mesmo os relegados Académica e União). Para isso muito contribuíram as goleadas impostas por Benfica (6-0 fora, 5-0 em casa), Sporting (5-2 no Restelo) e fora com Porto e Braga, ambas por 4-0.  
    O melhor momento da equipa terá sido inclusive na Europa, primeiro na garantia do acesso à fase de grupos e depois na vitória conseguida em Basileia. Numa época transversalmente marcada pela irregularidade, Carlos Martins e Sturgeon acabaram por ser quem mais procurou minimizar as más prestações. A chegada de Julio Velázquez ao comando técnico do clube, endireitando o trabalho até então pobre de Ricardo Sá Pinto, trouxe uma ideia de jogo mais ambiciosa (por vezes demasiado inocente, como ficou claro quando Sporting e Benfica visitaram o Restelo). O "dedo" de Velázquez fica representado também pela boa abordagem no defeso de Janeiro - a meio do campeonato o Belenenses estava em 12.º embora a apenas 2 pontos do 16.º lugar - com as contratações de Juanto e Bakic a contribuírem para a melhoria do futebol apresentado. Miguel Rosa, apesar de não ter sido o jogador decisivo doutras temporadas, não deixou de ser um dos destaques de uma equipa na qual esperávamos muito mais de Kuca ou Dálcio, que só duraram meia época no clube.
    Para o ano é imperial continuar o trabalho deste fim de época e melhorá-lo de forma a colocar o clube lisboeta mais acima na tabela.

Destaques: Carlos Martins, Sturgeon, Miguel Rosa, Juanto

 VIT. GUIMARÃES (10)
    
    Não fosse o Porto e o Vitória de Guimarães seria forçosamente a desilusão da época, atendendo às expectativas criadas mediante a qualidade do plantel. A época iniciou-se com Armando Evangelista, em relação ao qual as nossas dúvidas se revelaram pertinentes, mas mesmo Sérgio Conceição (poucos meses depois de treinar o rival Braga) foi uma escolha algo infeliz do presidente do clube. Apesar de sério, Conceição não conseguiu mais do que apelar ao coração e à raça da equipa em jogos grandes, acrescentando pouco ao futebol apresentado em campo, quase sempre muitíssimo dependente do génio do pequeno e criativo Otávio.
    Cafú cresceu sobremaneira, revelando-se o jogador mais regular e influente da equipa a seguir a Otávio, destacando-se ainda Miguel Silva, um jovem guarda-redes com várias lacunas mas que se agigantou nos jogos grandes. Henrique Dourado marcou alguns golos, mas o ataque deixou muito a desejar, tendo em conta os ingredientes à disposição de Sérgio Conceição - nomes como Hurtado, Victor Andrade, Tozé, Ricardo Valente, João Teixeira e Alex.
    A equipa somou vários erros infantis, e Conceição virou-se quase sempre para as arbitragens com a impetuosidade que o caracteriza, incapaz de reconhecer que a equipa ficou muito áquem do exigível. Acabou num lugar justo para o que apresentou a nível futebolístico ao longo da época.

Destaques: Otávio, Cafú, Miguel Silva, Henrique Dourado

 NACIONAL (11)

    Havia matéria-prima para Manuel Machado fazer melhor. Depois do 7.º lugar em 14/ 15, o Nacional perdeu Marco Matias, Lucas João, Tiago Rodrigues, Marçal e Christian, juntando-se a estes a saída de Zainadine a meio da época, e não foi capaz de os substituir devidamente.
    Com um futebol pouco entusiasmante (diferença de golos de -16), o rapidíssimo Salvador Agra foi o melhor dos alvinegros, com igual número de golos e assistências (9). O portentoso avançado Soares ficou abaixo do expectável, mas deixou ainda assim boas indicações para ter uma palavra a dizer no nosso campeonato, enquanto que ao contrário dos últimos anos, o "melhor Aurélio" foi o mais adiantado, Luís.
    Pode-se considerar uma época em que foram cumpridos os serviços mínimos, valorizando-se na região provavelmente o facto do Nacional ter sido a melhor equipa da Madeira, num ano bastante fraco - quer no nível apresentado pelas equipas insulares, quer no futebol produzido pela esmagadora maioria das equipas, à excepção de 7 ou 8.

Destaques: Salvador Agra, Soares, Rui Correia, Luis Aurélio

 MOREIRENSE (12)

    Em Moreira de Cónegos, o campeonato foi q.b. (se por um lado a equipa de Miguel Leal melhorou ofensivamente, também piorou o registo defensivo). O Moreirense manteve-se no primeiro escalão, apresentando alguma irregularidade ao longo dos vários meses de competição, mas sempre com 2 jogadores acima do restante elenco - Iuri Medeiros e Rafael Martins. O segundo, ponta de lança emprestado pelo Levante, marcou 16 golos (melhor marca do que atingira ao serviço do Vit. Setúbal, antes de rumar ao país vizinho) e foi uma constante dor de cabeça para os defesas adversários, não mais do que Iuri, o verdadeiro craque da equipa. O talentoso extremo direito, emprestado pelo Sporting, marcou 8 golos e fez 10 assistências, mostrando estar preparado para outro patamar depois de utilizar de forma positiva as experiências em Arouca e Moreira de Cónegos.
    Veremos o que 2016/ 17 traz ao Moreirense, que provavelmente ambicionará mais do que um 11º ou 12º lugar, com Pepa como sucessor de Miguel Leal.

Destaques: Iuri Medeiros, Rafael Martins, Vítor Gomes, João Palhinha, Igor Stefanović

 MARÍTIMO (13)

    Tal como o Nacional, o Marítimo esteve bastante aquém do futebol que habituou aos seus adeptos (nas temporadas de 2007/ 08, 2009/ 10 e 2011/ 12 o clube ficou em 5.º lugar). Com a 2.ª pior defesa do campeonato, foi no ataque que os insulares afastaram males maiores. Com Dyego Sousa, Fransérgio e Edgar Costa (autor do golo do ano na Liga) a serem os grandes destaques, o clube madeirense acabou por ser, a seguir aos 3 primeiros classificados, a equipa que menos jogos empatou. Uma curiosidade.
    João Diogo foi o único jogador da defesa merecedor de destaque, também por ter actuado a extremo durante parte da época, e o francês Salin, embora tenha sofrido imensos golos, não deve ser crucificado já que teve sempre à sua frente uma defesa demasiado permeável. Contrariamente a outras épocas que fizeram bem em mudar de ares - Belenenses, Boavista e Tondela ficaram a ganhar com a mudança de treinador - ainda não conseguimos compreender o porquê de trocar Ivo Vieira por Nelo Vingada, que já se sabe que não continuará na Madeira.

Destaques: Dyego Sousa, Fransérgio, Edgar Costa, João Diogo

 BOAVISTA (14)

    Podemos afirmar ter visto duas versões do Boavista em 2015/ 16, quase antagónicas. No Bessa, a temporada começou com Petit no comando técnico, mas a vida do homem que operou um milagre na época anterior (e que viria a repetir a dose nesta, mas ao serviço do Tondela) durou apenas até à jornada 11, quando o Boavista somava apenas 9 pontos, com um futebol ultra-defensivo, preso e sem chama. O substituto encontrado foi o bem conhecido Erwin Sánchez, que trouxe novas ideias e uma abordagem totalmente diferente - Rúben Ribeiro (contratado no mercado de Janeiro) e Renato Santos "baptizaram" uma versão bem diferente dos axedrezados, apoiados ainda pelo bom futebol de Zé Manuel, e pela solidez defensiva do triângulo Mika, Paulo Vinícius e Henrique.
    A troca de Petit por Sánchez acabou por funcionar bem para as duas partes - o Tondela que o diga - e com o boliviano como treinador temos alguma curiosidade de acompanhar o mercado de transferências veranil do Boavista

Destaques: Paulo Vinícius, Zé Manuel, Rúben Ribeiro, Renato Santos, Henrique

 VIT. SETÚBAL (15)

    Ver um jogo do Vitória de Setúbal neste campeonato, na primeira volta e outro na segunda, seria como ver o dia e a noite. Quase. Os sadinos terminaram apenas com 1 ponto a mais do que o União da Madeira, e em igualdade pontual com o Tondela, o que embora bata certo com as expectativas criadas no começo da época, era difícil de adivinhar (à passagem da jornada 15, o Vit. Setúbal era 5.º classificado e a equipa-sensação da Liga). Quim Machado pode-se queixar sobretudo de ter perdido Rúben Semedo e Suk a meio da aventura, o central/ médio defensivo por ter regressado à casa-mãe (Sporting) e o sul-coreano por ter despertado o interesse do Porto. A partir das saídas destes 2 pilares, a equipa nunca mais foi a mesma.
    Nas últimas 15 jornadas, zero vitórias (sim, na segunda volta verificou-se apenas uma vitória, em casa diante da Académica, por 2-1). André Claro acabou por ser o jogador mais consistente dos sadinos, numa temporada que fica marcada pelo futebol (e pelos belos golos) de Suk enquanto esteve no clube. André Horta foi uma revelação, e Arnold (famoso pelo seu falhanço na Luz) um jogador intermitente que só apareceu a espaços, embora fundamental em vários jogos. 

Destaques: André Claro, Suk, André Horta, Arnold

 TONDELA (16)

    Terminada a temporada, Petit e a sua equipa técnica partiram a pé rumo a Fátima. Por aqui se percebe a dimensão do milagre que o antigo trinco operou na 2.ª volta do campeonato. O Tondela arrancou a época com Vítor Paneira (cujo despedimento nos pareceu precipitado), substitui-o erroneamente por Rui Bento, e na transição da jornada 12 para a 13, em último com apenas 5 pontos, Petit foi contratado. O ex-Boavista conseguiu fazer o Tondela acreditar que a manutenção era possível, conquistando 22 pontos na segunda volta (depois de um total de 8 na primeira metade), e alcançando um registo surreal de 5 vitórias nas últimas 7 jornadas, fundamentais para salvar o Tondela, que abandonou a zona de despromoção apenas na última jornada. Nas sete jornadas finais, destaque para a vitória na Mata Real (4-1) e principalmente no Dragão (1-0), que marcou o início de um novo ciclo, marcado ainda pelas vitórias diante dos adversários directos União e Académica.
    Nathan Júnior, o goleador da equipa com 13 golos, manteve o Tondela vivo, contando com a fiabilidade táctica e física de Lucas Souza e Luís Alberto, senhores dos grandes momentos. É impossível não falar do central Pica, que embora tenha contabilizado pouco mais de 800 minutos, fica associado ao milagre da manutenção com 3 golos marcados na recta final.

Destaques: Nathan Júnior, Lucas Souza, Luís Alberto, Pica

 UNIÃO DA MADEIRA (17)

    Apontado na nossa Antevisão como o elo mais fraco da Liga, o União da Madeira teve a manutenção na mão, mas acabou por deitar tudo a perder, servindo de exemplo negativo para equipas que no futuro estejam a lutar pela manutenção. Enquanto que o Tondela lutava com todas as suas forças contra cada adversário, o União pagou caro o facto de poupar jogadores em jogos nos quais seria difícil (em teoria) pontuar. Sabendo qual seria o destino, Norton de Matos desejaria certamente poder voltar atrás no tempo. Nas últimas 6 jornadas, o União perdeu cinco; tendo apenas uma vitória nas últimas 15 jornadas do campeonato.
    A descida acabou assim por ser justa, punindo uma equipa na qual Amilton, uma flecha apontada às balizas adversárias, brilhou constantemente, acompanhado pela classe de Danilo Dias e de alguns elementos defensivos.

Destaques: Amilton, Danilo Dias, Paulo Monteiro, Paulinho

 ACADÉMICA (18)

    O franco investimento por parte dos estudantes - mais ano, menos ano - traria um desfecho trágico para o clube da cidade de Coimbra. A verdade é que foi desta que a Académica acabou por descer, tendo estado, tal como o União, com a manutenção relativamente perto. Viterbo, o bigode que fez a Briosa sobreviver em 2014/ 15, arrancou a época mas nos 5 primeiros jogos somou 5 derrotas, sendo por isso substituído por Filipe Gouveia que, embora com uma postura e um discurso de valor, não conseguiu fazer o suficiente para segurar uma equipa à qual falta há vários anos ter jogadores de qualidade.
    O desfecho acabou por ser mais do que previsível, um pouco à semelhança do Aston Villa em Inglaterra. E até acaba por ser benéfico, já que o clube precisa inevitavelmente de se reinventar para poder voltar em força ao primeiro escalão.

Destaques: Leandro Silva, Hugo Seco, Pedro Nuno