As Melhores Séries de 2017

Depois de elegermos a melhores novidades, pusemos tudo no mesmo saco. As séries que tinham mesmo que ter visto em 2017: Mr. Robot, Better Call Saul, Master of None, The Leftovers e Narcos, sobretudo.

Os Melhores Episódios de Séries em 2017

2017 foi épico na televisão. E muito graças a episódios de Mr. Robot, The Leftovers, Better Call Saul, Rick and Morty, Game of Thrones ou Master of None.

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13 de junho de 2017

Revisão: 'The Leftovers' (3.ª Temporada)

Criado por
Damon Lindelof, Tom Perrotta

Elenco
Justin Theroux, Carrie Coon, Christopher Eccleston, Amy Brenneman, Scott Glenn, Kevin Carroll

Canal: HBO

Classificação IMDb: 8.1 | Metascore: 98 | RottenTomatoes: 98%
Classificação Barba Por Fazer: 91


- Abaixo podem encontrar Spoilers - 

A História: 

    Não há mais. The Leftovers, série da HBO aclamada pela Crítica mas ignorada pela maioria dos espectadores, disse-nos adeus há alguns dias. E a despedida, leia-se terceira temporada, teve tudo aquilo que sempre caracterizou a série: actores num nível digno de varrer uns Emmys, uma brutal sensibilidade a colocar e tratar emoções no ecrã, a coragem de agitar toda a realidade de personagens e espectadores ao mesmo tempo, forçando ajustes e novas assimilações, e a inteligência de saber pisar a fé e o cepticismo, o bizarro e o profundo.
    Para quem nunca viu, a primeira temporada tinha este ponto de partida: três anos antes do tempo presente do episódio-piloto, um acontecimento inexplicável tinha feito desaparecer, aleatoriamente, 2% da população da Terra. Cento e quarenta milhões, coisa pouca. No centro da acção, a família Garvey - o protagonista Kevin (Justin Theroux), chefe da polícia da cidade de Mapleton, a sua ex-mulher Laurie (Amy Brenneman), e os filhos Tommy e Jill - à qual se juntou mais tarde Nora (Carrie Coon), uma mulher que perdera o marido e os dois filhos no dia fatídico, e o irmão de Nora, Matt (Christopher Eccleston). Servindo-se desta base, The Leftovers construiu duas temporadas bem diferentes: a primeira, bastante pesada e depressiva até, impõe o tom, apresenta o mundo e conflito de cada personagem; na segunda, Damon Lindelof (o criador de Lost) mudou a geografia de quase todas as suas personagens, atirando-os para uma cidade no Texas onde nenhuma pessoa desaparecera 3 anos antes. E foi nessa 2.ª temporada que a série disparou. Em 2014 e 2015, durante duas temporadas com 10 episódios cada, tivemos muito mistério, a utilização de flashbacks com a pertinência e astúcia que todas as séries deviam ter e, embora seja injusto para com Justin Theroux, Christopher Eccleston, Amy Brenneman e Ann Dowd, uma evolução de Carrie Coon que a fez senhora da série e a cotou como uma das melhores actrizes da actualidade.

    Dizem os números que a primeira temporada de The Leftovers foi a mais vista. Curiosamente, será muito provavelmente a menos forte, embora essencial para preparar a montanha russa que é a segunda e o acalmar ou destruir de demónios do passado e procura de Resolução nesta terceira parte. É possível que muitos espectadores tenham desistido da série no final da Temporada 1. No entanto, é também demonstrativo o amor que a Crítica desenvolveu pela série da HBO. Utilizando o Rotten Tomatoes e o Metacritic como termómetros, verifica-se que houve sempre crescimento: progressão de 81 para 93 para 98% no primeiro caso, e 65-80-98 no segundo. Sintomático.

    Como não poderia deixar de ser, Lindelof trocou-nos as voltas nesta terceira temporada. A primeira em Mapleton, a segunda em Jarden na "cidade milagre" e esta... na Austrália. E trata-se de uma verdadeira aula (ou 8 aulas, sob a forma de episódios) para realizadores, guionistas e actores. Porque tudo em The Leftovers é pensado ao pormenor, e tudo é executado com precisão e noção do todo. Mérito da série a capacidade de dar aos fãs a dose certa de respostas, entregando a resolução certa para as suas principais personagens, e mantendo a sua abordagem de sempre: o objectivo não é estudar ou desvendar o acontecimento em si que gerou o desaparecimento dos 2%, mas acompanhar as consequências e reacções dos "sobreviventes". Reagir e sobreviver são palavras-chave.
   
    Sempre com a inqualificável (de tão boa) banda sonora de Max Richter como companhia, The Leftovers pede uma última vez aos espectadores que se adaptem como as personagens procuraram desde o início. E, entre relações tóxicas, submundos destruídos, um humor corrosivo e muita melancolia, Lindelof e Perrotta sugerem-nos um paradoxo: podemos não ter respostas, mas é importante que deixemos de ter perguntas. Alcançada a serenidade, a paz. Mas não sem deixarem um derradeiro desafio aos espectadores: conseguiremos nós, desta vez nós, lidar com uma perda (de uma série) assim?
    
    
A Personagem: Nora Durst (Carrie Coon).
    Sem o mais pequeno exagero: será absolutamente criminoso se Carrie Coon não "limpar" Emmys, Globos de Ouro, tudo. Aliás, até lhe podiam dar também um óscar. Só porque sim.
    Que saudades deixa Nora Durst. Embora a série tenha partido do núcleo Garvey, com Kevin como protagonista, o tempo deixou a relação de Kevin e Nora no centro de tudo, servindo Nora Cursed como verdadeira alma da série.
    A mulher que perdeu toda a família foi, durante três temporadas, uma mulher em constante sofrimento. Num processo de luto eterno, a mais céptica e desconfiada desta Bíblia de personagens, escondeu vulnerabilidade atrás da sua carapaça e carácter frontal.
    Nesta temporada, voltamos a vê-la brilhar mais do que qualquer outro: aliás, ela brilha e os outros brilham quando estão perto dela. Seja num trampolim com Erika ao som de Wu-Tang Clan, à conversa com o irmão Matt, numa discussão incendiada com Kevin, e principalmente em dois momentos arrepiantes - o longo monólogo com que a série fecha (o último episódio é "dela", um justo prémio dado pelos autores), e a forma como descreve, asfixiada, perdida e infantil, uma simples memória de uma bola insuflável num estádio.
    Poesia. Uma boa palavra para descrever Nora Durst.


O Episódio: 04 'G'Day Melbourne'.
    É muito difícil encontrarem por aí uma série de 2017 que consiga manter um nível tão alto como The Leftovers semana sim, semana sim. Better Call Saul deve ser a única capaz de tal feito.
    Um dos méritos e principais talentos da equipa por trás da série sempre foi criar dúvidas, inspirar teorias, converter cépticos em crentes e vive-versa. O carácter enigmático e misterioso, impressão digital nas duas primeiras seasons, é substituído nesta por muita intensidade dramática (não há episódios "para encher", e acontece sempre algo relevante) e pelo fechar de cada arco, o completar de cada ciclo, a capacidade de seguir, ou não, em frente. Se no início da série as personagens procuravam perceber como viver num mundo que acabou para muitos, nesta The Leftovers explora algo diferente: como viver num mundo que afinal não acabou?!

    Assim à maluca, e numa entrada a pés juntos, estamos a falar de uma série capaz de focar um episódio inteiro numa busca espiritual que tem como contexto uma viagem de barco onde decorre uma orgia que presta tributo a um leão; estamos a falar de uma série que "aguenta" um episódio inteiro a acompanhar o fanático pai de Kevin, interpretado por Scott Glenn, a quase-morrer inúmeras vezes, para no fim sermos brindados com um monólogo incrível da veterana actriz Lindsay Duncan, que viria a fazer eco na finale.
    Há quatro episódios acima da restante metade: o penúltimo The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother), um episódio com um nome curtinho sim, e que representa o regressar a uma "dimensão" surreal na qual se escreveu um dos melhores capítulos da segunda temporada; Certified, episódio maioritariamente dedicado a Laurie, e um dos mais "pesados" da série; o derradeiro The Book of Nora, que sem representar uma despedida épica, torna-se satisfatório graças aos momentos finais (esteja Nora a dizer a verdade ou não, interessa sim ela ter encontrado a sua verdade). Mas há qualquer coisa que coloca o 4.º episódio, G'Day Melbourne acima de tudo o resto. Um episódio explosivo, com a relação tóxica de Kevin e Nora a ser levada ao limite, diferentes utilizações de "Take on Me" dos a-ha, e uma discussão de prender ao ecrã a anteceder um dos planos mais bonitos da História da Televisão: um quarto de hotel às escuras, iluminado por um livro em chamas, a chuva de um sprinkler activo, e um grande plano no rosto de Nora, a carregar numa lágrima que parece nunca acabar.


O Futuro: 
    Estaremos atentos ao próximo passo de Damon Lindelof, que recuperou depois do seu Lost ter desiludido os seus fãs (a série de Jack, Kate, Sawyer e Locke tinha uma fanbase muito maior) e conseguiu criar uma série que, acreditamos, ganhará crédito com o tempo.
    A carreira de Carrie Coon não será a mesma depois disto - já a temos em Fargo, e integra também o brutal elenco de The Papers, filme de Spielberg -, e Justin Theroux tem que começar a ser visto como o excelente actor que é, com grande amplitude, e não apenas como uma cara bonita ou "o marido de Jennifer Aniston".
    E sim, nós sabemos, não há futuro. É difícil aceitar mas não há mais. E numa época em que vemos tantas séries perderem qualidade ao ultrapassarem o razoável limite de temporadas, a sua esperança média de vida ideal, é bom termos tido 3 temporadas de The Leftovers sempre numa trajectória crescente. Com uma noção de storytelling madura, ambiciosa e refinada.
    Do que é que estão à espera? Têm três temporadas para pôr em dia. Para nós, segue-se um novo começo.

8 de junho de 2017

Revisão: 'Master of None' (2.ª Temporada)

Criado por
Aziz Ansari, Alan Yang

Elenco
Aziz Ansari, Alessandra Mastronardi, Eric Wareheim, Lena Waithe, Bobby Cannavale, Shoukath Ansari, Angela Bassett

Canal: Netflix

Classificação IMDb: 8.3 | Metascore: 91 | RottenTomatoes: 100%
Classificação Barba Por Fazer: 90


- Abaixo podem encontrar Spoilers - 

A História: 

    Master of None é um caso de estudo. Quando em Novembro de 2015 escrevemos sobre a série de Aziz Ansari, apontámos o amadurecimento evidente ao longo da primeira temporada daquele que é cada vez mais um dos tesourinhos da Netflix. Mas nada fazia prever tamanho salto qualitativo para a nova season, automaticamente uma das melhores e mais inesperadas de 2017 e uma das peças televisivas com mais personalidade, liberdade e ousadia dos últimos anos.
    Para a Netflix, o contexto desta (muito) agradável surpresa é delicado. Entre as suas séries originais, 13 Reasons Why conquistou o seu público, mas Iron Fist desapontou (sim, um eufemismo), a 3.ª e última temporada de Bloodline está a ser enxovalhada pela crítica, o mais recente capítulo político de Frank Underwood em House of Cards está bem longe do patamar das temporadas 1, 2 e 4, enquanto que Sense8 ou The Get Down já foram mesmo canceladas. Um período conturbado - claro que há produtos intocáveis como Stranger Things, Daredevil, Bojack Horseman e The Crown e projectos muito promissores a caminho como Mindhunter, Maniac e The Punisher - e que por isso torna particularmente feliz o facto da série de Ansari passar digamos que de um patamar próximo de Love para aquele olimpo atingido por Atlanta, a série de Donald "Childish Gambino" Glover, no FX.
      Mas mergulhemos na narrativa. Quando nos despedimos há quase 2 anos atrás do empático Dev (Aziz Ansari) tínhamos vivido com ele o êxtase do início de uma relação com Rachel. No fim, caminhos distintos: ela rumo ao Japão, e ele em direcção a Itália para aprender a fazer as melhores massas. Sim, as epifanias surgem nos momentos mais estranhos.

    Falar desta segunda temporada de Master of None é falar do asumir de riscos. Ansari e Yang souberam preservar a capacidade singular da série em manter um tom uniforme, explorando diversos temas sempre com uma autenticidade rara e perspectivas e um estilo original. No mundo de Dev, o mundo de todos nós pontuado por dúvidas, dilemas existenciais e medos, tudo começa desta vez a preto e branco e com o italiano como idioma. Em Modena, e com várias homenagens ao clássico Ladri di Biciclette (1948), são-nos servidos dois pratos fortes da temporada: no desafio de seguir em frente depois de uma relação, Master of None torna-se um ensaio sobre relações para falar real e subtilmente sobre Solidão (um cansaço emocional e desespero mascarados), e desde o começo fica clara a italianização da série.

    Pé ante pé, voltamos a ser encaminhados para os becos da vida do aspirante a actor, aspirante a chef, entretanto anfitrião de um programa televisivo de cupcakes. Os episódios passam a correr, variando desde os 21 aos 57 minutos (clara vantagem Netflix, esta vertente plasticina anti-grelha), com claro mérito para o visionário Aziz Ansari - participou como argumentista em todos, realizando os dois primeiros e os dois últimos.
    Se na temporada anterior foram abordados temas tão diferentes entre si como o preconceito da TV norte-americana em relação aos indianos, as rotinas matinais de um casal ou a realidade dos idosos num lar, nesta há espaço para "perder" um episódio inteiro em encontros via Tinder, os autores homenageiam Nova Iorque num episódio onde o protagonismo vai saltando de desconhecido para desconhecido até completar um círculo perfeito, sem esquecer o maravilhoso Thanksgiving, ferramenta perfeita para explorar a backstory de Dev com a sua amiga Denise, e não só. Dez episódios que exploram a cultura millennial, e que vão desaguar à relação entre Dev e Francesca (Alessandra Mastronardi), uma rapariga italiana que está noiva e que, deslumbrada pelos EUA, nos enfeitiça como uma femme fatale do cinema clássico italiano. Numa ode ao conceito de friendzone, tão popular hoje em dia, aquilo que ou é o adiar o inevitável ou um erro tem na sua raíz duas motivações simples: ele não quer estar sozinho, ela tem medo de estar só com uma pessoa o resto da vida. E a decisão de não fazer de Pino (Riccardo Scamarcio) um vilão é fundamental para o carácter agridoce da coisa.
    Ah, e já agora, se na primeira season houve Claire Danes, nesta temporada há Bobby Cannavale e Angela Bassett. Reforços de luxo para uma série que tem tanto de cómédia como de drama como de romance.      
    
    
A Personagem: Francesca (Alessandra Mastronardi).
    Se virem Master of None, vão-se apaixonar por Francesca. É garantido, e à prova de género e orientação sexual.
    A invasão italiana nesta temporada serve o seu ponto de chegada: Francesca. A acção começa em Modena (Itália), o 1.º episódio é praticamente todo falado em italiano e a banda sonora contribui (Ennio Morricone, Mina, Pino D'Angiò e Lucio Battisti, entre outros).
    Numa série em que o nível dos actores é bastante desequilibrado - temos convidados de luxo como Danes, Cannavale e Bassett, e ao mesmo tempo os pais amadores de Ansari -, Alessandra Mastronardi terá escancarado as portas de Hollywood para si com este papel. A relação entre Francesca e Dev consegue, em vários momentos, colocar-se em bicos de pés e competir com algo mágico como a química Woody Allen-Diane Keaton em Annie Hall, através de uma proximidade crescente. O hábito de flertar que se torna a consciência de que há linhas (uma porta envidraçada, por exemplo) que se querem transpor, e que se percebe ser potencialmente um desgosto à espera de acontecer.
    Em Master of None, Francesca é, acima de tudo, um sonho. Representa o êxtase do novo, a excitação, a paixão, a sedução. Acompanhada por uma Cinematografia com um bom gosto e atenção ao detalhe incríveis, Francesca emerge como o sonho do qual Dev acabará por acordar.

O Episódio: 09 'Amarsi Un Po'.
    Não é fácil escolher apenas um episódio, quando pelo menos 4 estão entre os melhores de 2017. O primeiro marca bem o carácter original da temporada e a firmeza com que Master of None se procurou reinventar. Todo o episódio a preto e branco, grande parte dele em italiano. Depois, "Religion" e "First Date" são socialmente pertinentes, e "Dinner Party" inclui talvez a decisão mais corajosa da temporada - acabada a noite com Francesca, a câmara fixa-se durante mais de 2 minutos a acompanhar Dev em silêncio no banco de trás de um Uber até casa, mostrando com todo o tempo do mundo a difícil digestão de sentimentos e o impasse e indecisão, sem saber para onde ir a partir dali.
    Os mais picuinhas poderão considerar "New York, I Love You" e "Thanksgiving" episódios para encher, mas são tudo menos isso, e são inclusive material para nomeações para Emmys. Na vénia à mão-de-obra nova-iorquina, o protagonismo divide-se entre um conjunto de desconhecidos, brilhando o episódio quando a protagonista é uma mulher surda-muda e nós (espectadores) ficamos igualmente sem qualquer som nesse segmento. Já o Dia de Acção de Graças mostra o passado dos amigos Dev e Denise, e a morosa capacidade da família de Denise em aceitá-la como é.
    O último episódio tem um shot final muitíssimo inteligente embora ambíguo q.b., mas é em "Amarsi Un Po'" que esta temporada, e a relação de Dev e Francesca, atinge o seu auge. A essência está toda ali, entre traduções segredadas e danças em pijama.

O Futuro: 
    Sem pressões para Aziz Ansari. A cabeça responsável por Master of None diz precisar de viver mais para ter mais histórias para contar. Por isso, devemos dar-lhe todos os anos que precisar, e esperar por uma 3.ª temporada capaz de continuar esta linhagem, digna de grandes obras que estudam quem somos, quem queremos ser e como nos sentimos em certos momentos e como nos relacionamos (Annie Hall, mas também a trilogia Before, por exemplo).
    O último plano da temporada levanta várias questões. Sonho? Flashback? Ou flashforward? A lógica diz ser um flashforward, com uma expressão de precipitação ou arrependimento.
    Ficamos a torcer para que haja um novo capítulo. E, se não for pedir muito, com Alessandra Mastronardi.