Paulo Portas: “Deixem-me provar a minha sardinha” – uma afirmação que consegue resumir bem o significado de campanha eleitoral em Portugal.
Se eu fosse candidato a primeiro-ministro, tinha passado Março e Abril inteiros no ginĂĄsio. Andar quilĂłmetros e quilĂłmetros, dançar com dezenas e dezenas de senhoras, comer farnĂ©is e farnĂ©is – tudo, por um voto. Parece-me pertinente o polĂtico portuguĂȘs passar pelo menos 2/3 meses antes da campanha sempre a “encher”, para ficar em forma para a maratona polĂtica.
De resto, a participação dos polĂticos nas corridas da ponte 25 de Abril, etc. tem realmente lĂłgica. NĂŁo se trata de ficar bem na fotografia, Ă© sim uma espĂ©cie de prĂ©-Ă©poca para a campanha eleitoral.
Iniciou-se no dia 22 de Maio a campanha eleitoral. TerminarĂĄ a 3 de Junho. Gosto sempre de ver as diferenças entre um polĂtico sem estar ainda em campanha e quando jĂĄ estĂĄ. Basicamente, antes de campanha fala por enigmas que nĂłs temos que descodificar e quando o fazemos compreendemos que ele nos estĂĄ a pedir o voto, que Ă© o que em plena campanha eleitoral ele jĂĄ diz com todos os dentes. Ă um pouco como no Harry Potter, ele nunca fala do Voldemort. Ă o Quem-nĂłs-sabemos. Na polĂtica portuguesa, o verdadeiro nome do Quem-nĂłs-sabemos tambĂ©m começa por V, chama-se voto.
Estamos agora na altura em que passa o Tempo de Antena de Campanha Eleitoral para a Assembleia da RepĂșblica. Ă sempre uma altura triste para muitas crianças e adolescentes porque os Morangos com AçĂșcar, na TVI, passam a ter uma duração menor. No entanto, a trama Ă© essencialmente a mesma. A Joana era delegada de turma hĂĄ jĂĄ bastante tempo, mas sĂł andava a fazer coisas mĂĄs Ă s amigas e na escola. As colegas de turma juntaram-se todas e decidiram que a iriam destituir. Ela agora pede desculpa. PorĂ©m, hĂĄ uma diferença significativa. Aqui, nĂŁo hĂĄ amigas a traĂrem os namorados com os namorados das outras, e no fim da histĂłria nos Ășltimos anos tĂȘm sido os maus da fita a ficarem bem. Nos Morangos o mau ou morre, ou torna-se bom. Ou fica maluco. Se nĂŁo Ă© assim nos Morangos, Ă© assim nas outras telenovelas portuguesas todas.
Ao assistir ao Tempo de Antena notei em algumas coisas.
O Bloco de Esquerda tem o melhor conjunto de curtas-metragens, analisando do ponto de vista da criatividade da sua equipa de Publicidade/ Marketing.
Também pude reparar no tempo de antena do Partido Socialista. Dizem mais vezes a palavra PSD do que a palavra PS, o que é interessante. Pedro Passos Coelho deve-se sentir lisonjeado. O PS devia ir ao psicólogo, ou não tem nada para dizer sobre si, ou estå a ficar um bocadinho obcecado.
Ainda hĂĄ o PND (Partido Nova Democracia): um partido que cortou as pernas ao publicar o seu tempo de antena. De resto, este partido jĂĄ foi posto em tribunal pelas imagens que apresenta no tempo de antena. Suponho que tenha sido o lĂder do partido a pĂŽr o responsĂĄvel pela campanha televisiva em tribunal.
Por fim, o PAN. Um partido que quando se analisa o programa eleitoral nĂŁo tem propostas assim tĂŁo descabidas mas, neste caso, a capa do livro hipoteca as hipĂłteses das pessoas o abrirem para lerem. PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza) ou, numa acepção mais fĂĄcil e popular “O Partido dos Animais”. Esta conotação nĂŁo ajuda em nada o Sr. Paulo Borges (que parece o Poupas ou a Leopoldina, uma ave portanto), a sua equipa e os seus cartazes com animaizinhos em origami. Eu, sinceramente, quando ouvi falar deste partido pela 1ÂȘ vez, imaginei que o objectivo deles seria transformar o parlamento numa espĂ©cie de Jumanji (filme). Imagino um hipopĂłtamo como novo Jaime Gama (peço desculpa se te ofendi Jaime) e vĂĄrios animais engravatados a discutir. NĂŁo estou a insultar os senhores polĂticos, mas imagino que os consensos a que iriam chegar seriam mais ou menos os mesmos. AliĂĄs, a selva Ă© um ecossistema com um funcionamento muito auto-suficiente e bem estruturado pela MĂŁe-Natureza e pelos impulsos inscritos no cĂłdigo genĂ©tico dos animais, portanto talvez atĂ© funcionasse melhor. Mas nĂŁo, nĂŁo vou votar PAN. (Para quem jĂĄ nĂŁo se lembra Pan era tambĂ©m a neta do Songoku no Dragon Ball GT).
Na internet podemos acompanhar: a campanha ao minuto. Podemos aĂ encontrar bonitas frases, tais como:
“PSD dĂĄ trĂ©guas Ă carne assada e opta por servir hoje ao almoço, em Penafiel, aos cerca de 3500 comensais rojĂ”es, um prato tĂpico minhoto.” – Mais uma frase, como a de Portas no inĂcio desta crĂłnica, que traduz o perĂodo eleitoral portuguĂȘs.
“Passos chega com uma hora de atraso e improvisa um minicomĂcio em Amarante.” – a improvisação de minicomĂcios devia ser feita sob a forma de rap. Ficava bem, acho eu. E quando lĂderes polĂticos se encontrassem na mesma rua, fazia-se uma battle.
“PSD: Chove em Penafiel.”;
“PSD: Chove muito, mesmo muito em Penafiel” – o PSD faz tudo. AtĂ© de serviço de meteorologia.
“Pescadores de Matosinhos oferecem leme a SĂłcrates para liderar paĂs.” – Os pescadores… pescam. Pois, Ă© isso. Nunca os imaginei uns visionĂĄrios polĂticos nem extraordinĂĄrios sĂĄbios, portanto compreende-se.
“PS: Ou me engano muito ou vai chover nĂŁo tarda nada.” – O PS tambĂ©m percebe de meteorologia. Ă pena. O governo Ă© em Lisboa, nĂŁo Ă© nas nuvens. Ăs vezes Ă© nas nuvens que esta gente parece andar toda, mas deixam-nos a todos com os pĂ©s bem assentes na terra e quase sem conseguir olhar para cima.
“Uma peixeira para Portas em Leiria: “Ă© melhor do que o Tony Carreira"” – julgo que este seja o maior elogio que uma peixeira consegue fazer a alguĂ©m. Nessa peixeira, mora um voto no CDS-PP. Cheira-me que esta Ă© das que vai Ă Avenida da Liberdade gritar pelo Tony. Esse “grande cantor”.
“Portas jĂĄ visitou dois mercados e uma feira”. Toma lĂĄ, 3-0 para o Portas. A campanha eleitoral tambĂ©m parece por vezes um peddy-paper, quem conseguir ir a mais estaçÔes e ter melhores resultados nos jogos tradicionais ganha.
“PS: PavilhĂŁo repleto dança ao som de YMCA.” – Qual o meu espanto quando eles jĂĄ admitem Ă vista de todos as preferĂȘncias “musicais” do seu lĂder… A bandeira do PS podia passar a ser um arco-Ăris.
“FĂĄbio CoentrĂŁo junta-se a SĂłcrates em Caxinas” – FĂĄbio, eu respeito-te tanto, mas nesta armaste-te em Figo. Uma coisa Ă© certa, dizes que o Benfica fez de ti homem. Duvido que alguĂ©m faça do JosĂ© homem (e nĂŁo me estou a referir ao JosĂ© Castelo Branco).
Paulo Portas: “Como dizia Kennedy, nĂŁo te pergunto donde vens. Pergunto-te o que queres fazer”. Paulo, a frase de Kennedy Ă©: “Ask not what your country can do for you. Ask what you can do for your country”. Parece-me uma tradução mal feita Paulo.
Numa coisa concordo com Francisco Louçã, porque o homem de vez em quando lå då uso ao cérebro que tem (no qual vislumbro qualidade cognitiva normalmente mal empregue):
“A abstenção e o voto em branco sĂŁo desistir do paĂs”.
Dia 4 de Junho Ă© dia de reflexĂŁo. Aquele dia em que ninguĂ©m pode pedir votos nem dizer os nomes dos partidos. Um dia para pensar. Aqui no Garganta Funda esse dia vai ser… diferente.
MP