24 de dezembro de 2015

Crítica: The Lobster

Realizador: Yorgos Lanthimos
Argumento: Yorgos Lanthimos, Efthymis Filippou
Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, John C. Reilly, Olivia Colman, Michael Smiley 
Classificação IMDb: 7.1 | Metascore: 82 | RottenTomatoes: 90%
Classificação Barba Por Fazer: 80

    Tudo bem que a Grécia nos tirou o Euro-2004, mas em tempos particularmente adversos e instáveis para os gregos, há que reconhecer que Yorgos Lanthimos é uma das evidentes mais-valias do país de Samaris e Mitroglou. Lanthimos, que se colocou no mapa em 2009 com o desconcertante 'Dogtooth' (nomeado para Melhor Filme Estrangeiro), tem em 'The Lobster' o seu primeiro filme em inglês, nomeado para a Palma d'Ouro em Cannes (ganhou o francês 'Dheepan') num festival no qual arrecadou o Jury Prize.
    Este filme com nome de marisco, e que contou com excelentes posters promocionais, é uma carta de apresentação perfeita para quem não conhece Lanthimos: capaz de criar narrativas verdadeiramente originais, por vezes desconfortáveis, bizarras mas invariavelmente com muita substância.
    'The Lobster' passa-se numa distopia assente em três centros - a Cidade, o Hotel e a Floresta. Para o efeito, interessa abordar principalmente o que se passa no Hotel. Cada pessoa solteira é obrigada a ir para o Hotel, no qual tem 45 dias para encontrar a sua cara-metade. Quem não consegue, é transformado em animal e liberto na Floresta. Ok, neste ponto já perceberam que para ver 'The Lobster' é preciso um bocadinho de mente aberta, e uma suspensão da descrença mais forte do que o normal.
    David (Colin Farrell), um homem abandonado pela mulher, que o trocara por outro, chega ao Hotel acompanhado pelo seu irmão, um cão, transformado anteriormente em animal depois de falhar o propósito da estadia. Durante o filme, David experimenta as duas realidades (Hotel e Floresta), igualmente controladoras e obcecadas pelo respeito das regras, embora com princípios, ideologias e objectivos opostos.

    O bom resultado final deste filme independente - que idealmente deveria ser uma das cartas a ter em conta no baralho das nomeações para Melhor Argumento Original - deve-se à habilidade com que Lanthimos mistura comédia com uma miscelânea de pormenores estranhos mas que fazem de 'The Lobster' uma brilhante alegoria, uma sátira. Seja para a pressão da sociedade sobre a construção de relações amorosas, como se alguém apontasse para um relógio ou alertasse para uma ampulheta que não param, ou para as convenções e para a procura extrema de afinidades. O bom elenco - Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, John C. Reilly, Olivia Colman e Michael Smiley são as principais caras - adequa-se ao mundo atípico criado pelo realizador-argumentista grego.
    A arte é sempre subjectiva, mas 'The Lobster' é o tipo de filme que mais facilmente divide ou polariza audiências do que outros. Haverá quem goste, haverá quem ache estranho demais. Como qualquer distopia, diz ao nosso presente o que está errado através da visualização de um futuro que nos é desconfortável conhecer. Lanthimos (em 2017 tem novo filme, 'The Favourite', juntando às repetentes Rachel Weisz e Olivia Colman, Emma Stone), no meio de um universo de personagens carregadas de estereótipos e preconceitos, consegue fazer passar a sua mensagem e acaba por nos dar uma forte e original história de amor, com um final ambíguo e aberto a discussão.


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