13 de agosto de 2018

Benfica 18/ 19: Aprender a Viver sem o Melhor Jogador da Liga

Todo e qualquer adepto benfiquista terá sentido o título em cheque quando vários sinais levavam a crer que Jonas estava a caminho das Arábias. Depois de 4 vitórias consecutivas na Liga NOS, os encarnados falharam o penta por mérito do Porto mas também por culpa própria e muita sobranceria (não substituir devidamente Ederson, Nélson Semedo e Lindelöf revelou-se pecado, ao atacar a época com Bruno Varela, identificando em Douglas o único reforço para a lateral-direita e demorando a retirar Luisão para promover Rúben Dias). Agora, a palavra de ordem é Reconquista.
    Está visto que Rui Vitória está de pedra e cal na Luz - impossível determinar, mas agradável imaginar, quão mais renderia este elenco com um treinador ao nível da matéria-prima -, mas a qualidade ao dispor do técnico (4ª época no clube do segundo treinador com mais jogos entre os actuais 18 treinadores da Liga, apenas atrás de José Mota) obriga-o a ser campeão. O Porto impressiona no físico e na cíclica capacidade de Sérgio Conceição "fazer" jogadores quando as soluções não chegam ou se lesionam; o Sporting procura encontrar-se, com o fantasma Bruno de Carvalho e o processo eleitoral a poder incomodar o começo de época; o Braga tem como principal força a quase nula diferença entre primeiras e segundas escolhas para cada posição; e o Benfica, parte claramente na frente a nível de reportório de recursos técnicos. Quem tem Jonas, Pizzi, Krovinovic, Zivkovic, Rafa, Cervi, etc. tem que encantar.
    O ataque atempado ao mercado fez chegar à Luz Vlachodimos para a baliza, Conti e Lema para o centro da defesa, e Facundo Ferreyra e Castillo para o ataque. Depois de boas experiências no Rio Ave e Moreirense respectivamente, Yuri Ribeiro e Alfa Semedo mereceram também voto de confiança e um regresso a casa.
    A equipa está bem, e a continuidade de Jonas será sentida pela massa adepta e pelo balneário como o maior dos reforços. No entanto, o craque brasileiro (claramente o melhor jogador em Portugal) já tem 34 anos. Numa época em que acabará por continuar a ser determinante, é fundamental que o Benfica comece a preparar o seu futuro, aprendendo a jogar sem Jonas. Mas claro, não há comparação entre aprender a viver sem o seu número 10 tendo-o entre os eleitos, podendo gerir a sua condição (cenário real), e vê-lo retirado abruptamente, perdendo a equipa o seu principal farol criativo num ápice (cenário que parecia desenhar-se).


O Plantel


  • Guarda-Redes: Odysseas Vlachodimos (Panathinaikos), Mile Svilar, Bruno Varela
  • Defesas: André Almeida, José Luís Gómez (Lanús), Germán Conti (Colón), Rúben Dias, Jardel, Cristián Lema (Belgrano), Álex Grimaldo, Yuri Ribeiro
  • Médios: Ljubomir Fejsa, Alfa Semedo (Moreirense), Pizzi, Gedson Fernandes, Filip Krovinovic
  • Extremos: Rafa, Andrija Živković, Franco Cervi, Jota
  • Avançados: Jonas, Facundo Ferreyra (Shakhtar), Nicolás Castillo (Pumas), João Félix

    Não sabemos até que patamar poderá chegar Odysseas, mas o novo guarda-redes do Benfica é francamente superior a Bruno Varela (convenhamos, não era muito difícil), e transmite aos colegas do sector defensivo uma confiança e tranquilidade que jamais se viu em 2017/ 18. O alemão, formado no Estugarda e com ascendência grega, não demorou a convencer a bancada da Luz, e imaginamos que o 99 venha a dar pontos, e não a custá-los. No clube que teve Oblak e Ederson nos últimos anos, os adeptos querem-se habituar mal outra vez...
    Como alternativas a Vlachodimos, Svilar e Bruno Varela serão tudo indica as duas opções ao dispor de Rui Vitória. Paulo Lopes retirou-se. A manutenção do jovem belga e do titular de 17/ 18 deixam-nos algumas dúvidas: acreditamos que Svilar venha a ser um guardião de topo e o futuro do Benfica, não estando certos se seria melhor para ele nesta fase continuar a trabalhar com o grupo jogando quando houver oportunidade ou ser emprestado a outro clube da I Liga; e não víamos com maus olhos Varela, não tendo qualidade para uma baliza com este peso, ser transferido, adquirindo o Benfica um guarda-redes seguro como Cláudio Ramos para ser uma alternativa de confiança.

    Na defesa, o lado direito é o único que ainda merece um ataque ao mercado. André Almeida é sinónimo de competência, e um jogador que qualquer treinador gosta de ter, mas se na Liga NOS é um dos melhores na sua posição, numa Champions fica evidente que é insuficiente quando enfrenta extremos e colectivos doutro nível. O nigeriano Ebuehi lesionou-se, obrigando a encontrar uma solução de qualidade - Jordan Ikoko, Manuel Lazzari, Giovanni Troupée ou James Tavernier seriam opções, tendo o Benfica já visto escapar Mukiele para o Leipzig ou Bauer para o Stoke. No entanto, a nossa escolha com entrada directa no 11 seria o já internacional argentino José Luís Gómez, do Lanús.
    No centro da defesa, o veterano Luisão (figura fulcral no balneário, mas actualmente sem condições para surgir em campo nomeadamente pelo posicionamento alto da linha da defesa encarnada quando em posse) não seria para nós um dos centrais do plantel. Rúben Dias (Será que só continua no Benfica se os encarnados garantirem a Champions? Ou será que o Benfica já tem apalavrado vendê-lo mas só depois de garantir a entrada na prova milionária?) e Jardel são a dupla de eleição, o argentino Conti deixou boas indicações na pré-época, e Lema fecha o lote, hipotecando a promoção de Ferro como esperávamos há uns meses. Caso o ex-66, agora camisola 6, seja vendido, preparem-se para ver Conti crescer, obrigado a adaptar-se instantaneamente, e Luisão/ Ferro como 4º central.
     Do lado esquerdo, Grimaldo (pré-época fantástica!) é um dos jogadores mais inteligentes do Benfica e, por força da sua formação em La Masia, um dos mais hábeis elementos a libertar-se da primeira zona de pressão, oferecendo depois múltiplas soluções com a bola conduzida. A alternativa ao espanhol, o jovem da casa Yuri Ribeiro.

    Olhar para o centro do terreno de jogo dá gosto. E tudo começa, como sempre, em Fejsa. O trinco sérvio é um dos melhores jogadores a actuar em Portugal, e depois de na última época ter posto termo à sua incrível sequência de sempre campeão (2008 a 2017) estará desejoso de voltar a festejar. A excelente época - surpreendente em parte, diga-se - de Alfa Semedo no Moreirense justificou a sua chamada à casa de partida, com provas dadas na pré-temporada. Para além de Fejsa e Alfa Semedo, importante não esquecer o jovem Florentino (perfil mais idêntico ao de Fejsa do que Alfa), que embora mereça outro patamar que não o Benfica B, pode ser importante constar na órbita da equipa principal, não vá uma lesão afectar Fejsa.
    Garantida a segurança, há depois a criatividade. Pizzi é nesta fase o patrão criativo deste Benfica, um jogador que foi o melhor da Liga há duas temporadas e muito acima da média quando consegue ajustar o ritmo de todo o jogo ao seu; no entanto, um dos melhores reforços deste Benfica será mesmo o croata Krovinovic, quando regressar de lesão por volta de Setembro. O melhor Benfica da temporada passada coincidiu com a preponderância do número 20, não sendo exagero (embora não se possa dizê-lo com objectividade) afirmar que a lesão de Krovi custou o penta.
    Depois, há Gedson. A afirmação do miúdo de 19 anos na primeira equipa era fácil de adivinhar dada a tremenda qualidade, a maturidade táctica e física acima do habitual, e o perfeito casamento das suas características (boa agressividade, brutal capacidade no transporte) com as necessidades do Benfica. Admitimos que um reforço como Gabriel (Leganés) teria um impacto incrível na Liga Portuguesa, e seria um luxo tentador, mas a aquisição de mais um médio como Gabriel ou Ramires acabaria por travar a progressão de Gedson, e directa ou indirectamente reduzir os minutos de Zivkovic (prioritário para nós como extremo, mas capaz de actuar a interior) ou até João Félix (um híbrido capaz de jogar na frente, num corredor ou como médio mais adiantado num trio).

    Salvio não sairá, mas connosco seria um dos jogadores transferíveis, para melhor potenciar outros elementos que nos parecem mais capazes. Salvio (jogador fácil de qualquer adepto gostar, e forte no 1 para 1 quando endiabrado, mas que decide apenas bem cerca de 1 em cada 10 lances), tal como Seferovic e Samaris, podiam rumar a outras paragens. Posto isto, entregar os flancos a Zivkovic, Rafa, Cervi e ao prodígio Jota seria a nossa abordagem. Quatro agitadores, com características diferentes mas muito talento, sem esquecer a nuance de se poder puxar Pizzi para o flanco direito.
    À frente, Jonas prossegue de águia ao peito, deixando todos à sua volta respirar fundo. O camisola 10 será a primeira opção, mas Rui Vitória terá que saber utilizar Ferreyra e Castillo também. O ex-Shakhtar é na teoria o herdeiro de Jonas, precisando nos próximos tempos de conhecer bem as dinâmicas da equipa e os companheiros, ganhando confiança, enquanto que Castillo é daqueles que é um fácil amor à primeira vista - jogador raçudo, e um híbrido entre Mitroglou e Raúl. A flutuação entre o 4-3-3 e o 4-4-2 estará dependente de dois factores: 1) a chegada de um médio de créditos firmados como Gabriel ou Ramires vincaria em definitivo o 4-3-3, 2) consoante Castillo ou Ferreyra casem com Jonas na frente, RV apostará mais ou menos nesse formato em vários jogos do campeonato. Por fim, temos muita curiosidade de ver como será gerido João Félix esta época. Um diamante que tendo oportunidades no Estádio da Luz, ousado e irreverente como é, promete fazer estragos.


O que muda? Se Jonas saísse, o 4-3-3 (mais correcto considerá-lo um 4-1-2-3 pela forma pronunciada como se estabelece a linha dos dois médios interiores à esquerda e à direita) seria sem margem para dúvidas o desenho táctico de eleição deste Benfica. Continuando Jonas, não é assim tão certo.
    Rui Vitória tem claramente melhor plantel em comparação com o ano passado (dos jogadores que saíram Raúl Jiménez era o mais importante, embora bem substituído por Ferreyra e Castillo; importando referir depois os negócios ou potenciais negócios de jogadores que nunca chegaram/ chegarão a ter uma verdadeira oportunidade na Luz como João Carvalho, Diogo Gonçalves, Cristante e Carrillo, sem esquecer Talisca).
    Há francas melhorias na baliza, e do meio-campo para a frente ninguém tem em Portugal tantas soluções com tanta qualidade. No entanto, é importante relembrar a tendência que Rui Vitória tem para não saber potenciar os seus extremos da melhor maneira.

    Ao longo da época, boas dores de cabeça podem surgir para RV se souber gerir o plantel: com Krovinovic em forma, e prevendo que o 4-3-3 continuará a ser o esquema preferencial, haverá Gedson, Krovinovic e Pizzi para os supostos dois lugares junto de Fejsa, interessando depois acompanhar a gestão de Jonas, e o comportamento/ desempenho dos dois avançados quando já compreenderem melhor os bons vícios da equipa. Aqui entre nós, numa equipa que habitualmente vive dos rasgos e da brutal qualidade individual de elementos como Jonas, Pizzi e Krovinovic, e não tanto do processo ou identidade estabelecida, a maior marca deste Benfica deverão continuar a ser as triangulações lateral-extremo-interior nos dois flancos, devendo o Benfica apresentar esta época melhor chegada à área por parte dos seus médios, como se viu Pizzi fazer no Benfica-Vit. Guimarães.



A Formação: O viveiro do Seixal continua a dar frutos, e as jovens selecções nacionais agradecem. Os recentes títulos Sub-17 e Sub-19 são, essencialmente, uma perfeita conjugação de uma excelente geração defensiva do Porto (Dalot, Costa, Leite, Queirós) e ofensiva do Benfica (Jota, Gedson, Florentino, Zé Gomes).
    Gedson Fernandes está a agarrar a oportunidade, importando que os clubes portugueses - que começam a cair no panorama das competições europeias - repensem a sua política de vendas. Ao não conseguirem acompanhar o poderio financeiro de quem hoje compra, Benfica, Porto, Sporting e Braga têm que começar a segurar os jovens valores 3/ 4 anos e não apenas um. Ganha o jogador (veja-se o exemplo Renato Sanches), ganha o clube português e o futebol nacional, e ganha posteriormente o clube comprador ao garantir um jogador muito mais refinado.
    Para além de Gedson, integraríamos no plantel principal João Félix e Jota esta temporada, com este último a alternar entre o plantel A e o Benfica B, até para "puxar" por Zé Gomes.
    Fez todo o sentido emprestar Heriberto, que continuará o seu interessante crescimento, bem como Pepê, sobretudo por trabalhar esta época com Luís Castro. Colocar a "rodar" Keaton Parks talvez fosse o melhor para o progresso do jovem norte-americano. Depois, Úmaro Embaló pode ser esta época uma das figuras da B, valendo a pena acompanhar de perto Tiago Dantas, Pedro Álvaro, Alex Pinto e Nuno Santos. Abaixo, Ronaldo Camará, Nuno Cunha ou João Ferreira.

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