24 de dezembro de 2016

Crítica: Nocturnal Animals

Realizador: Tom Ford
Argumento: Tom Ford
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson
Classificação IMDb: 7.6 | Metascore: 67 | RottenTomatoes: 71%
Classificação Barba Por Fazer: 81


    Visualmente fortíssimo, ou não fosse realizado pelo ícone da moda Tom Ford (ligado à Gucci e YSL no passado), Nocturnal Animals é um dos filmes com mais camadas deste ano, e um daqueles que suscita diferentes interpretações com os elementos que nos são dados.
    O sucesso da adaptação de Tony and Susan, criação Austin Wright, começa na visão de Ford, continua na magnífica e hipnotizante Fotografia de Seamus McGarvey, vivendo claro através de um elenco extraordinário e muito equilibrado que habita este quase filme noir.
    É difícil não pensar em Gone Girl, mediante o processo de "uma história dentro de uma história" embora Ford ainda seja um aprendiz ao pé de Fincher na arte de conceber um thriller, e existindo desta vez um livro e não um diário. Susan (Amy Adams, não tão genial como em Arrival mas a demonstrar amplitude e a garantir que há um antes e um depois de 2016 na carreira dela) é uma dona de uma galeria de Arte, cuja vida vazia e postiça é preenchida quando recebe "Nocturnal Animals", um manuscrito prestes a ser publicado, dedicado a ela por Edward (Jake Gyllenhaal), o seu ex-marido e escritor falhado até à data.
   Enquanto num primeiro nível acompanhamos Susan a deixar-se absorver pela obra, recordando simultaneamente algumas etapas da sua relação com Edward, seguimos também a narrativa do livro, que nos é mostrada através de um conjunto de projecções e interpretações de Susan. A mestria de Ford começa aí, na construção de 2 ambientes bem distintos mas bem entrosados e igualmente fascinantes. No primeiro nível (a realidade), Susan arrepende-se e repensa decisões suas à medida que cria empatia e sofre com o que acontece a Tony, o protagonista do livro, que perde a mulher e a filha e procura depois vingança. Jake Gyllenhaal faz não só de Edward mas também de Tony, visto que Susan projecta naquele protagonista o autor e seu ex-marido.
    Entre várias camadas e ligações intuitivas entre a realidade e ficção, com muitas subtilezas e um subtexto meta do autor Tony e do realizador Fom Ford, Nocturnal Animals consegue algumas das cenas mais tensas deste ano no Cinema (simplesmente incrível a sequência com os carros na estrada) e espreme toda a qualidade dos actores envolvidos. Embora também conte com Isla Fisher, Armie Hammer, Laura Linney, Michael Sheen, Andrea Riseborough e Jena Malone, é o quarteto principal que está brutal: éramos capazes de ficar durante semanas a olhar para esta versão femme fatale de Amy Adams, e Gyllenhaal dá tudo nas duas personagens que veste; em todo o caso, são os secundários, o detective Michael Shannon e o criminoso Aaron Taylor-Johnson que roubam as cenas em que entram, com o segundo a ser uma absoluta e inesperada revelação. Como vai a Academia encarar este filme? Neste caso temos algumas dúvidas, pelo que não colocamos já o carimbo "A caminho dos Óscares", mas Shannon e Taylor-Johnson têm hipóteses, tal como outras categorias em que o filme pode surgir.
    Talvez fique a sensação de que falta um epílogo a Nocturnal Animals, mas é capaz de ser esse gigante ponto de interrogação ou espaço em branco que torna o filme brilhante, perpetuando algumas questões e obrigando o espectador a testar hipóteses e a mudar perspectivas ou pontos de vista. No seu âmago, é sobre vingança, lembrança, rancor, falhanço e fé, sobre o que ficou por dizer e sobre o que não se esquece que se disse numa relação, tudo mascarado pela sedução e tensão que Ford constrói. Para pensarem: não terá Edward seguido o conselho de Susan e finalmente escrito algo sobre outra pessoa, sendo aquele Tony, a que Susan dá o corpo e o rosto do ex-marido, inspirado na própria Susan? Quando um filme fica na nossa cabeça durante dias é porque tem algo de bom. E Nocturnal Animals é dos que fica. Por isso sim, é dos bons.

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