Iniciada com homenagens a Diogo Jota e com uma imagem especialmente marcante em Anfield de Mo Salah em lágrimas no final do inaugural Liverpool-Bournemouth, esta edição da Liga inglesa fica invariavelmente na História como um virar de página - Pep Guardiola (20 troféus como treinador do City, incluindo 6 Premier League) despediu-se do campeonato mais imprevisível do futebol europeu, e é difícil não ver o adeus do catalão como um catalisador de (ainda maior) imprevisibilidade. A par de Pep, a Premier perdeu dois dos pés esquerdos mais marcantes dos últimos anos por aqueles lados, Salah e Bernardo Silva, e subitamente instala-se um vazio estranho, numa competição há pouco tempo disputada freneticamente por Guardiola e Klopp, e que em 26/ 27 terá Arteta na pole position, com oposição de Maresca, Carrick, Emery, Xabi Alonso e o substituto de Arne Slot no Liverpool, eventualmente Iraola.
Em 2025/ 2026, sem se chegar ao ponto de recuperar o kick and rush, algumas tendências e comportamentos ficaram vincados, e podem ter vindo para ficar: a importância (premiada) que o Arsenal deu às bolas paradas, cantos sobretudo, é um convite ao trabalho de laboratório e a bélicos confrontos nas marcações na grande área. E os próprios lançamentos longos parecem ter voltado a ser moda. No nosso entender, o VAR em Inglaterra deve preocupar-se em aperfeiçoar ou ser mais consistente nos agarrões que permite ou não permite nesses lances, e na proteção dos guarda-redes na sua pequena área - vimos nuns casos faltas por marcar, e noutros guarda-redes a "safarem-se" com o aproveitamento da situação (nada a dizer no lance de Raya diante do West Ham, uma falta indiscutível).
O campeão Arsenal teve a melhor defesa (27 golos sofridos), teve a particularidade de não cometer qualquer grande penalidade nem ver qualquer cartão vermelho, e acabou com 7 pontos a mais do que o rival Manchester City. Os campeões somaram mais 11 pontos do que no ano anterior - e mais 1 ponto do que o Liverpool de Slot conseguira em 24/ 25 - ficando esta campanha dos gunners apenas atrás de 23/ 24, altura em que já com Arteta somaram 89 pontos e marcaram 91 golos, mas perderam para um City que fez 91 pontos e 96 golos. A fasquia era essa, mas depois de 3 segundos lugares consecutivos, chegou finalmente o momento de ser o Arsenal a definir a fasquia.
Com o Liverpool a sarar uma perda traumática e o Aston Villa a conquistar a Liga Europa, viu-se um Manchester United a escalar a tabela do 15º lugar da edição anterior ao pódio nesta. Michael Carrick devolveu a alegria e tranquilidade a Old Trafford, depois dos red devils despedirem o head coach e não manager Ruben Amorim, e Bruno Fernandes bateu o recorde de assistências da competição - as 20 de De Bruyne e Henry ficam agora atrás das 21 do médio ofensivo português.
As épocas sensacionais de Bournemouth, Sunderland, Brighton e Brentford contrastaram com o pesadelo vivido por West Ham e Tottenham (dois históricos que lutaram entre si até à última jornada, acabando os hammers despromovidos), com a queda abrupta do Forest e com o sub-rendimento de Chelsea e Newcastle. Wolves, Burnley e West Ham darão lugar daqui a uns meses a Coventry City, Ipswich Town e Hull City.
Acompanhem-nos então numa análise à época 25/ 26, aquela que começou e acabou com Salah lavado em lágrimas, as mesmas lágrimas que correram durante o adeus de Guardiola e Bernardo Silva. Entre os adeptos do Arsenal, as lágrimas foram de felicidade e alívio. Recordemos então o percurso das 20 equipas da Premier League, sistematizando ideias-chave, o que correu bem, o que correu mal, quem brilhou e quem desiludiu:
ARSENAL (1)Campeões! Vinte e dois anos depois, o Arsenal é a equipa nº 1 em Inglaterra. A celebração há tanto tempo adiada chegou após 3 anos consecutivos em 2º lugar, com o tempo a premiar um projeto que tem amadurecido a cada ano que passa, com os jogadores mais entrosados e mentalmente mais preparados para lidar com a pressão. A reta final desta Premier League foi, como tantas outras vezes, um jogo de ténis entre as candidaturas de Arsenal e Manchester City, prevalecendo o It's not done de Declan Rice sobre o good feeling sentido por Erling Haaland no final do jogo entre ambos.
Recordistas em golos de canto (arma mortífera e preparada ao detalhe em laboratório) e com alguma tendência para o anti-jogo ou para usar o tempo a seu favor em muitos momentos, o Arsenal de Arteta foi, acima de tudo, a equipa mais consistente e a equipa mais competente dos favoritos, conseguindo (parece-nos) levar a esmagadora maioria dos jogos para aquilo que tinha planeado e para onde estava confortável.
Com a melhor defesa (27 golos sofridos) e o segundo melhor ataque (71), os londrinos - que na final da Liga dos Campeões só perderam para o poderoso PSG nas grandes penalidades - perderam apenas em Anfield (golaço de livre de Szoboszlai), em casa do Aston Villa e no Etihad (o verdadeiro "jogo de nervos" desta Premier League), conhecendo o sabor da derrota em casa somente contra United e Bournemouth. Duas vitórias por 4-1 contra o rival Tottenham ajudaram a colorir uma caminhada em que a equipa nem se adaptou propriamente às caraterísticas de Gyökeres, e em que nenhum elemento do ataque realizou uma temporada estratosférica. Declan Rice e David Raya foram os dois jogadores mais importantes do campeão Arsenal, importando elogiar o mercado dos gunners, que passaram a ter melhor 11 e mais soluções válidas no banco, conseguindo assim resistir à brutalidade de minutos disputados e às inevitáveis lesões no decorrer da época.
Após respirar de alívio, com um peso gigante a sair dos ombros de Arteta, Rice, Saka ou Gabriel, os próximos anos permitirão ao Arsenal crescer e a Mikel Arteta tornar-se (ainda) melhor treinador.
Destaques: Declan Rice, David Raya, Gabriel, Bukayo Saka, William Saliba
Obrigado por tudo, Pep Guardiola. 10 temporadas depois, o melhor treinador dos nossos tempos disse Adeus à Premier League, competição que venceu em 2018, 2019, 2021, 2022, 2023 e 2024.
Depois do 3º lugar da época anterior, os cityzens melhoraram: marcaram mais golos, sofreram menos e pontuaram mais. Mas, em várias Horas H, vacilaram, mais do que aquilo que o Arsenal vacilou. Bem-sucedido nas duas taças (2-0 na Carabao, com bis de O'Reilly, contra o Arsenal, e 1-0 diante do Chelsea na FA Cup com bonito golo de Semenyo), Pep teve que experimentar e experimentar até encontrar um 11 capaz de colmatar a perda de criatividade (De Bruyne terminara a sua história no clube) e o contributo de um guarda-redes tão singular como Ederson (rumou ao Fenerbahçe) na primeira fase de construção. Além do bónus de Janeiro - Semenyo e Guéhi foram de facto reforços - o Manchester City continuou a ter no robô Haaland uma máquina de marcar golos, o capitão Bernardo Silva jogou mais centralizado com maiores responsabilidades na distribuição e maior influência no ritmo de jogo, Cherki foi magia e futebol de rua, Matheus Nunes (adaptado a lateral direito) foi evolução, Doku foi drible com objetividade, Nico O'Reilly foi uma revelação e Foden voltou a ficar muito aquém das suas capacidades.
Sinceramente, quando a 19 de Abril o Manchester City venceu o Arsenal por 2-1, pensámos que não voltaria a perder a pole position. Mas foram inúmeros os momentos ao longo da época em que este City não pareceu "o City".
Além de Pep, também Bernardo Silva e John Stones viram o seu trajeto no clube azul celeste de Manchester chegar ao fim. Adeptos e rivais, todos parecem ter consciência: nunca voltará a haver um City como nestes 10 anos de Pep.
Destaques: Erling Haaland, Antoine Semenyo, Nico O'Reilly, Rayan Cherki, Bernardo Silva
MANCHESTER UNITED (3)Sem margem para dúvidas, não houve equipa a subir tanto na tabela de 2025 para 2026 como o Manchester United. Os red devils tinham terminado a última época num chocante 15º lugar, mas uma série de acontecimentos gerou um lugar no pódio, com um futebol mais condizente com o ADN do clube e um português um dos míticos recordes individuais da Premier League.
Ruben Amorim começou 2025/ 26 com a convicção de que acabaria por mudar a narrativa e implementar as suas ideias. Cativante, humilde e invulgarmente transparente, o técnico de 41 anos manteve-se fiel ao seu 3-4-3 ou 3-4-2-1 e, verdade seja dita, todos os reforços do "seu" mercado foram bons: Lammens deve ter representado o maior upgrade individual desta Premier League, Mbeumo e Matheus Cunha acrescentaram qualidade e personalidade, e ninguém terá dúvidas quanto ao potencial de Sesko. Com os adeptos e os antigos jogadores do clube cansados da inegociável abordagem com 3 centrais (incapazes de compreender que são as dinâmicas e não as posições no plantel que fazem as equipas, e que muitas das mais elogiadas equipas do mundo saem e constroem a 3) e o sacrifício de Mainoo a causar celeuma, ironicamente não foram os resultados mas sim uma questão de semântica e "poder" que ditou o adeus de Ruben Amorim. A dicotomia manager e head coach.
À 20ª jornada, altura em que Amorim foi despedido, o United era sexto. Darren Fletcher orientou a equipa num jogo de transição, mas acabou por ser outro ex-médio do clube, Michael Carrick, o escolhido, com um trabalho que lhe garantiu voto de confiança para o futuro.
Com Carrick, a equipa passou a dispor-se em 4-2-3-1, Bruno Fernandes (que mesmo com Amorim já estava num nível muito alto, apenas talvez com mais responsabilidades e a ter que estar em mais zonas do campo ao mesmo tempo, por falta de cultura tática ou de compromisso dos colegas) continuou a criar imenso, Mainoo encontrou o seu espaço ao lado de Casemiro (muito bom poder ter-se visto o Casemiro de Madrid em Old Trafford) e, nos momentos de aperto, Lammens fez o que Onana nunca conseguia, mantendo a equipa viva e serena.
Bruno Fernandes, o Jogador do Ano da Premier League, chegou às 21 assistências, batendo o recorde (20) partilhado por De Bruyne e Thierry Henry. E, apesar de não se poder ignorar o bónus que foi estes jogadores poderem descansar e preparar cada jornada sem distrações e desgaste europeu a meio da semana, ficarão na memória aquelas duas vitórias consecutivas contra Manchester City (2-0 em Old Trafford) e Arsenal (3-2 fora).
Destaques: Bruno Fernandes, Senne Lammens, Casemiro, Patrick Dorgu, Bryan Mbeumo
ASTON VILLA (4)Unai Emery conquistou a Liga Europa pela quinta vez (3 clubes diferentes) e o Aston Villa pôs fim a um hiato de 30 anos sem grandes troféus, e 44 anos sem conquistas nas competições europeias. Foi em Istambul que o clube de Birmingham fez História, derrotando o Friburgo por 3-0.
A glória europeia chegaria para garantir presença na fase de grupos da próxima Liga dos Campeões, mas os villans não fizeram a coisa por menos e também se qualificaram para a Champions via campeonato, ajudando indiretamente o Sporting e prejudicando o Bournemouth, que poderia ser o 6º clube inglês na prova milionária.
Com Ollie Watkins a terminar a época em grande forma, e Morgan Rogers a reforçar o potencial fenómeno que é, o Aston Villa teve a particularidade de, contra Arsenal, Manchester United, Liverpool e Chelsea, ter vencido numa volta e perdido noutra. Orgulhoso, Emery poderá dizer que derrotou por 2 vezes Pep Guardiola na última época do genial treinador espanhol em Inglaterra.
Aquele golo de Buendía aos 90+5 só foi suplantado pelo trio de golos em solo turco. O Aston Villa está bem e recomenda-se, tendo o treinador certo e precisando de uns 3 ou 4 reforços para tentar sonhar com algo mais...
Destaques: Morgan Rogers, Ollie Watkins, John McGinn, Ezri Konsa, Youri Tielemans
É incontornável e seria insensível desconsiderar o fator Diogo Jota no trajeto do Liverpool ao longo desta temporada. O trágico falecimento do internacional português, eterno camisola 20 dos reds, ditou um luto prolongado, não existindo um tempo definido para curar ou ultrapassar, tanto quanto é possível, a perda de um amigo e colega.
O Liverpool tinha dominado 2024/ 25, mas 2025/ 26 foi um turbilhão de emoções: Mo Salah desabou em lágrimas quando ouviu Anfield cantar por Jota no final do inaugural Liverpool-Bournemouth, as chegadas de craques como Wirtz e Isak não correram de acordo com o esperado, Salah perdeu super poderes e promoveu um braço-de-ferro com Arne Slot, e na jornada final Anfield voltou a fazer Salah chorar, na despedida da competição do egípcio, o melhor extremo direito da História da Premier League.
Entre tantas variáveis, Szoboszlai foi a constante, com excelente rendimento em todas as posições onde foi colocado, brilhando com livres diretos, indefensáveis para Raya e Donnarumma. Ekitiké entrou bem na equipa, Rio Ngumoha deu os seus primeiros passos como sénior, o perfil Frimpong nunca fez sentido enquanto contratação para lateral direito titular, e se para Wirtz havia a desculpa da adaptação a um novo campeonato, o mesmo argumento não pode ser usado para defender Isak ou Kerkez.
Sem Slot, sem Salah, sem Robertson, sem Konaté. O próximo Liverpool será um Liverpool diferente.
Destaques: Dominik Szoboszlai, Virgil van Dijk, Hugo Ekitiké, Ryan Gravenberch
Se o Aston Villa tivesse terminado em 5º em vez de 4º, este Bournemouth estaria na Liga dos Campeões 2026/ 2027...
A espantosa temporada do Bournemouth de Iraola (que grande treinador!) ganha um relevo extra quando devidamente contextualizada: nonos na temporada anterior, os cherries venderam Huijsen ao Real Madrid, Zabarnyi ao PSG, Kerkez ao Liverpool, Dango Ouattara ao Brentford, e ainda perderam Semenyo em Janeiro para o Manchester City. Quando a esmagadora maioria dos clubes perderia o Norte, o Bournemouth continuou a praticar o seu futebol enérgico e contagiante, e acabou 3 lugares acima, contribuindo de forma decisiva para o título ao empatar com o Manchester City na noite que permitiu ao Arsenal comemorar a conquista do campeonato.
Além de certificar Andoni Iraola como um dos melhores técnicos da atualidade, esta temporada evidenciou a "pérola" que é Junior Kroupi (é muito raro um jogador de 19 anos conseguir apontar 13 golos na Premier com tamanha naturalidade), teve Senesi, James Hill e Truffert em excelente plano na defesa, e serviu para o brasileiro Rayan deixar um aperitivo para o que podem ser os seus próximos anos em Inglaterra.
Sem qualquer derrota entre as jornadas 21 e 38, o Bournemouth foi a 4ª melhor equipa da segunda volta, vencendo pelo meio o campeão Arsenal em Londres. Mas instala-se a dúvida: conseguirá o Bournemouth manter os índices sem Iraola no comando técnico?
Destaques: Marcos Senesi, Junior Kroupi, James Hill, Adrien Truffert, Alex Scott
Neste regresso à Premier League, o Sunderland provou que o xG é, por vezes, extremamente enganador. Se nos guiássemos em exclusivo pelo formulaico xG, os black cats seriam despromovidos em 18º... mas ficaram 11 lugares cima.
Sempre bem orientados pelo francês Régis Le Bris (que chegou a receber um surpreendente ultimato da direção a indicar que, caso falhasse as competições europeias, seria demitido), os jogadores do Sunderland obtiveram sucesso com uma abordagem que ditou o falhanço de muitas outras equipas pós-Championship: os black cats construíram uma equipa nova, com o 11 base a ser quase 100% composto por reforços, mas a coisa correu bem.
Além do gáudio de ficar 5 lugares acima do grande rival Newcastle - e nos jogos entre ambos o Sunderland sorriu por duas vezes - o Sunderland pode sentir-se grato pelo impacto do líder Granit Xhaka, pelas defesas do "achado" Roefs, e pelo facto de elementos como Mukiele ou Sadiki terem contribuído de forma decisiva sem terem sido muito caros.
No Stadium of Light, não passou Arsenal (2-2) nem Manchester City (0-0) e, com Liga Europa em perspectiva, caberá ao Sunderland desta vez, em vez de operar uma Revolução, fazer sim ligeiras afinações, preservando a boa base, e aumentando o nível quer do 11 inicial quer do banco de suplentes.
Destaques: Granit Xhaka, Robin Roefs, Nordi Mukiele, Enzo Le Fée, Dan Ballard
BRIGHTON (8) Brighton e Brentford realizaram temporadas idênticas (14 vitórias, 11 empates e 13 derrotas), mas a diferença de golos (+6 vs +3) colocou as gaivotas na próxima Liga Conferência, onde tentarão dar sequência ao ótimo histórico inglês: Crystal Palace, Chelsea e West Ham venceram 3 das últimas 4 finais.
O treinador bebé (33 anos) Fabian Hürzeler ficou novamente em 8º, desta vez com a terceira melhor defesa da competição, mas o scouting sagaz dos seagulls não gerou grandes destaques de primeiro ano. O veterano Danny Welbeck, o subvalorizado van Hecke e o renovado Kadioglu foram algumas das peças mais importantes numa caminhada marcada por um excelente 2026 (conseguir 7 vitórias num espaço de 10 jogos só costuma estar ao alcance dos candidatos ao título na Premier) e conseguindo, em diferentes fases, derrotar Manchester City, Liverpool e Chelsea.
Para a próxima edição, duas questões: qual será o desfecho do dossier Baleba, tendo o camaronês baixado a sua cotação? E como irá o plantel do Brighton conciliar e gerir fisicamente o impacto de ter um jogo adicional às quintas-feiras?
Destaques: Danny Welbeck, Jan Paul van Hecke, Ferdi Kadioglu, Yankuba Minteh
BRENTFORD (9) Uma das surpresas da temporada! Quando na nossa Antevisão apostámos que o Brentford acabaria quase nos lugares de descida, falhámos... redondamente. As saídas simultâneas de Thomas Frank e dos craques Mbeumo e Wissa, combinadas com o desconhecimento em relação a Keith Andrews, originaram essa (errada) intuição.
Na verdade, Andrews igualou à primeira tentativa a melhor classificação dos bees com Frank, e face às incertezas de como a equipa seria capaz de responder à perda dos seus artilheiros, uma dupla sempre bem sintonizada, eis que Igor Thiago surgiu a todo o gás, chegando aos 22 golos, e acabando por ser o único avançado do campeonato que ainda "incomodou" de alguma maneira a liderança de Erling Haaland.
Uma qualificação europeia ficou muito, muito perto, e embora no seu todo a temporada deva ser vista como incrível e muito acima do expectável, torna-se difícil ignorar que o Brentford só venceu 1 dos últimos 10 jogos, empatando por sete vezes nesse período.
Influente na identidade tática dos concorrentes e a dar o mote com Michael Kayode para um regresso vintage aos lançamentos longos, quase todos os momentos icónicos desta temporada tiveram Igor Thiago a picar o ponto - bisou no 3-1 ao Manchester United, converteu o seu penálti no 3-2 ao Liverpool, bisou diante do Newcastle e fez um hat-trick em casa do Everton. Bem apoiado por Ouattara, Schade e Damsgaard, o brasileiro marcou 8 golos de grande penalidade. Quem o quiser retirar do Gtech Community Stadium terá que pagar bom dinheiro...
Destaques: Igor Thiago, Michael Kayode, Mikkel Damsgaard, Caoimhín Kelleher, Dango Ouattara
CHELSEA (10)O Chelsea, sob a gestão BlueCo, gastou 339 milhões esta época, 281 na anterior, 448 em 2024 e 630 milhões em 2023. Rios de dinheiro depois, o Chelsea não tem um guarda-redes de jeito, não tem um único defesa central realmente de topo, e reúne um elenco de promessas, disforme e abaixo do expectável.
Derrotados pelo Manchester City na final da Taça, e atropelados pelo PSG nos oitavos da Liga dos Campeões, os blues somaram na Premier tantas vitórias como derrotas (14) e, com a derrota na última jornada no reduto do Sunderland, acabaram por não ir nem à Liga Europa nem sequer à Liga Conferência.
O 10º lugar não é inédito para os londrinos. Ao longo da última década, habituámo-nos a ver o Chelsea a registar ocasionalmente um 10º ou 12º lugar, normalmente seguidos de um salto tremendo na tabela. 2025/ 26 foi um adeus para Enzo Maresca, o sucessor de Pep Guardiola no Manchester City, e uma má experiência para Liam Rosenior, treinador capacitado mas que talvez tenha dado o salto demasiado cedo. Segue-se Xabi Alonso.
Em campo, a primeira volta (5º lugar) foi muito melhor, João Pedro foi o único reforço que realmente fez jus à palavra, Reece James impressionou ora a lateral ora a médio centro, e jogadores como Enzo, Caicedo ou Cucurella não sabem jogar mal. Entre várias lesões e muita instabilidade no onze, fica sobretudo o desgosto de uma temporada desinspirada de Cole Palmer, que acabou por originar a sua exclusão dos 26 convocados para a seleção inglesa.
Destaques: João Pedro, Reece James, Enzo Fernández, Moisés Caicedo, Marc Cucurella
Quatro anos de Marco Silva na Premier League, 4 anos em que o Fulham termina entre 10º e 13º, com as duas épocas finais a terem o 11º posto como destino dos londrinos. Alegadamente dividido entre continuar no clube ou aceitar uma proposta do Benfica, o técnico português é hoje um dos melhores treinadores portugueses, e este seu Fulham é um crónico exemplo de uma equipa que se comporta e exibe acima do expectável, com jogadores bem "espremidos" e sem ombrear com outros clubes nas contratações loucas e avultadas.
Contidos no Verão (Kevin foi o único reforço dispendioso) e comedidos nos acertos em Janeiro (Oscar Bobb juntou-se à equipa), os cottagers conseguiram a proeza de terminar em 11º mesmo tendo o 6º pior ataque ou, se preferirem, o 15º melhor. Numa campanha com pouca história, poucos pontos altos (quase houve surpresa naquele 4-5 na receção ao City) e muito comportamento certinho e dentro da média, sobressaiu Harry Wilson (um dos jogadores mais apetecíveis entre os que ficaram sem contrato este Verão) e ativos de enorme fiabilidade como Iwobi, Jiménez, Anderson ou Antonee Robinson. Quanto a Harrison Reed, o Golo do Ano desta Premier League foi dele. Um monumento.
Destaques: Harry Wilson, Alex Iwobi, Raúl Jiménez, Joachim Andersen, Antonee Robinson
NEWCASTLE (12) Não tendo a "responsabilidade" histórica de Tottenham, Chelsea e Liverpool, e sem ter caído tantos lugares na tabela como o Forest, a queda do Newcastle constituiu também, com uma expressão ligeiramente menor, uma das desilusões desta Premier League.
Capaz de se qualificar para a Champions por duas vezes no espaço dos últimos anos, o Newcastle resistiu até aos oitavos na prova milionária deste ano (aquela derrota por 7-2 em Barcelona foi pesada) e é provável, principalmente por Eddie Howe continuar no clube, que em 2026/ 27 a ausência de competições europeias contribua para desempenhos mais consistentes e para a disponibilidade física necessária para voltar a escalar algumas posições na tabela.
Os magpies provaram por diversas vezes que conseguem jogar olhos nos olhos com qualquer adversário nesta Premier League, e não podemos ignorar que a equipa sentiu muito a falta de Alexander Isak (vendido ao Liverpool por 145 milhões), sem que Woltemade ou Wissa tenham conseguido preencher a vaga deixada pelo ponta de lança sueco, e os números que vinha atingindo de forma consistente. De resto, o defeso revelou-se, no geral, um falhanço neste Ano 1: Elanga foi uma sombra do que fizera pelo Forest, e só Thiaw acrescentou realmente qualidade.
Com 2 dos melhores laterais em Inglaterra (Hall e Livramento) cobiçados, o Newcastle parte para este Verão com a transferência de Anthony Gordon para o Barcelona acertada, imaginando-se que surjam também propostas por Bruno Guimarães e Tonali. St. James' Park poderá ter uma pequena revolução.
Destaques: Bruno Guimarães, Anthony Gordon, Lewis Hall, Sandro Tonali, Malick Thiaw
EVERTON (13) A equipa mais antiga da cidade de Liverpool viveu um ano tranquilo. Liderados pelo experiente e pitoresco David Moyes, lenda viva do clube, os toffees conquistaram na primeira volta (foram a 8ª melhor equipa nas primeiras 19 jornadas) uma margem suficiente para poder tirar o pé do acelerador (16ª equipa na segunda volta) sem grande prejuízo.
Com mais vitórias fora do que em casa - está a demorar a habituação ao Hill Dickinson - o Everton acabou por ter um papel relevante na luta pelo título, ao marcar 3 golos em 13 minutos num 3-3 que retirou o Manchester City da pole position, reconquistada duas jornadas antes.
O efeito Grealish só durou nas primeiras jornadas, tendo o craque das meias curtas deixado de dar o seu contributo a partir de Janeiro (lesão) e, entre os reforços, Dewsbury-Hall e Barry vieram para acrescentar, mas o talentoso Dibling foi, para já, um flop. Fiáveis e irrepreensíveis como sempre estiveram Pickford e Tarkowski, dois dos melhores na Premier nas respetivas posições, e foi espetacular acompanhar o crescimento do centro-campista faz-tudo James Garner, um dos Most Improved Players desta edição.
Destaques: James Garner, Jordan Pickford, James Tarkowski, Kiernan Dewsbury-Hall, Iliman Ndiaye
Na nossa Antevisão e lançamento da Premier League em Agosto, dávamos quase por garantida a descida de Burnley e Leeds United. Essa previsão vinha da baixíssima taxa de sobrevivência recente das equipas promovidas - o fosso qualitativo entre a Premier e o Championship é significativo - e do facto de identificarmos o Sunderland, muito bem reforçado, como a única das 3 equipas que estava a reunir argumentos para escapar. Não nos enganámos quanto ao Sunderland, mas falhámos na avaliação do teto performativo deste Leeds United.
Mantendo sempre a confiança em Daniel Farke, o Leeds chegou aos 47 pontos, terminando acima de nomes pesados como Crystal Palace, Nottingham Forest, Tottenham e West Ham, e a apenas 6 pontos dos lugares europeus.
Vivo na FA Cup até ao trio de jogos finais em Wembley (perdeu com o Chelsea, por 1-0, na meia-final), o Leeds ganhou em Old Trafford, empatou por duas vezes com o Liverpool (3-3 e 0-0), fez o City suar no Etihad, tudo isto com o 3º plantel menos valioso da Premier League, de acordo com o Transfermarkt.
Individualmente, Anton Stach (jogador underrated e belo cobrador de livres diretos) foi uma belíssima contratação, e Dominic Calvert-Lewin voltou ao patamar dos seus melhores anos em Goodison Park (2020 e 2021).
Destaques: Anton Stach, Dominic Calvert-Lewin, Ethan Ampadu, Jaka Bijol, James Justin
CRYSTAL PALACE (15) Pelo segundo ano consecutivo, o Crystal Palace - que nunca ganhara nada até 2025 - aumentou o seu palmarés e o leque de troféus no museu. Vencida a FA Cup, os comandados de Oliver Glasner (o austríaco sai pela porta grande, tendo este casamento de 3 anos resultado na perfeição) somaram uma Community Shield em Agosto (vitória nas grandes penalidades contra o Liverpool) e uma Liga Conferência, derrotando o Rayo Vallecano na final de Leipzig.
O foco dividido entre a Premier League e as competições europeias prejudicou o rendimento e a estabilidade a nível interno, mas a hipótese da descida nunca se colocou propriamente, e convém não esquecer que o capitão Marc Guéhi rumou ao Manchester City em Janeiro.
Com a Conference a garantir bilhete para a fase de grupos da próxima Liga Europa, a época foi um sucesso, e os adeptos podem e devem olhar com enorme orgulho para os últimos anos, tendo juntado troféus e disfrutado do talento de jogadores ímpares como Olise e Eze.
O plantel tem qualidade (Wharton, Lacroix e Mateta são jogadores com mercado, mas Muñoz, Sarr e Henderson devem continuar) e o maior teste será mesmo identificar o treinador que consiga estar ao nível de Glasner.
Destaques: Adam Wharton, Daniel Muñoz, Maxence Lacroix, Jean-Philippe Mateta, Ismaila Sarr
A cidade do Robin Hood foi a prova viva de como a Premier League é imprevisível e de como, quem é equipa sensação numa edição, na campanha seguinte pode num ápice ver-se a conviver com um cenário de quase descida.
O Forest vinha de um 7º lugar em 2024/ 25, a 1 ponto dos lugares de Champions, e a queda na tabela foi de 9 posições. Com 4 treinadores diferentes, 2 deles portugueses, os reds começaram com Nuno Espírito Santo (a sua relação com Marinakis e Edu Gaspar ter-se-á deteriorado), tentaram Postecoglou (zero vitórias em 5 jornadas), experimentaram uma abordagem muitíssimo diferente com Sean Dyche (resistiu até à 26ª jornada, deixando a equipa em 17º a 3 pontos dos lugares de descida) e, finalmente, a coisa correu bem com Vítor Pereira.
Semi-finalista na Liga Europa, o Nottingham Forest teve poucos jogadores num nível alto, mas teve 2 craques num nível altíssimo toda a época - Elliot Anderson (previsível titular da seleção inglesa no Mundial, podendo proporcionar uma super transferência neste Verão) e Morgan Gibbs-White (chocante omissão de Tuchel) tinham lugar em qualquer equipa em Inglaterra e, se não fosse a qualidade individual de ambos, o Forest teria muito provavelmente descido.
Destaques: Elliot Anderson, Morgan Gibbs-White, Neco Williams
TOTTENHAM (17)Salvação na jornada 38 de 38. Há um ano atrás, o Tottenham dividiu com o Manchester United os deméritos de Desilusão da prova. A sorte, à data, foram as épocas terríveis de Southampton, Ipswich e Leicester. Em 2025/ 2026, foram apenas duas as equipas francamente más na Premier League, o que originou que os spurs estivessem até aos 90 minutos finais da competição em perigo de descer.
Para o Tottenham, são duas épocas consecutivas em 17º, o que obriga o clube a uma reflexão profunda, dada a normalidade com que se instalou a fácil convivência com a derrota num emblema que entre 2010 e 2024 foi, em média, 4º ou 5º da Premier.
Depois de optar por despedir Postecoglou (o australiano com que o Tottenham conquistou a Liga Europa), a escolha de Thomas Frank parecia uma movimentação sensata e com pouca margem de erro. Érramos. Pelo contrário, a opção Igor Tudor via-se desde o 1º dia que não seria solução. Após desgaste em Marselha, o louco italiano Roberto De Zerbi - polémico, exigente, ambicioso e visionário - aceitou a missão de segurar o clube do Norte de Londres na primeira divisão, e acabou por ser bem-sucedido.
Num ano em que, paradoxalmente, ficaram em 4º lugar na fase de liga da Liga dos Campeões, os spurs sobreviveram graças à resposta na reta final, com 3 vitórias nos últimos 5 jogos. Mas não esqueçamos aquele período negro com zero (!) vitórias entre 1 de Janeiro e 24 de Abril.
Com muita instabilidade e subrendimento em todos os setores, e sem poder contar com Kulusevski (lesionado toda a temporada) ou James Maddison (só retomou a competição em Maio), o Tottenham acabou a festejar os golos importantes de Richarlison e João Palhinha, e teve no velocista Micky van de Ven o seu jogador mais.
Para qualquer adepto dos spurs, será custoso ver o rival Arsenal campeão - a capital pintada de vermelho e branco, 22 anos depois - enquanto a casa está tão desarrumada. Mas mais doloroso e traumático teria sido o brutal contraste se o Tottenham tivesse descido, o que esteve quase, quase a acontecer.
Destaques: Micky van de Ven, João Palhinha, Pedro Porro
WEST HAM (18) Quinze anos depois, o West Ham diz adeus (ou até já) à Premier League. Os hammers tinham registado algumas classificações "perigosas" e sintomáticas nos últimos anos (14º lugar tanto em 22/23 como em 24/25) mas sinceramente, apesar de na nossa Antevisão termos apontado o West Ham ao lote de equipas imediatamente acima dos 3 despromovidos, ao longo da prova demorámos a assimilar que a descida seria uma realidade.
As épocas francamente más de Wolves e Burnley deixaram em aberto apenas um lugar no purgatório da Premier League - e talvez a maior notoriedade do Tottenham, cuja descida seria ainda mais chocante, tenha desviado atenções. O hoje selecionador sueco, o britânico Graham Potter, deu o seu lugar a Nuno Espírito Santo ao fim de cinco jornadas. NES, cuja continuidade como treinador no Championship foi já confirmada, melhorou os londrinos, embora não o suficiente.
Sistematicamente com Jarrod Bowen (seguramente não foi por ele que a equipa desceu, tendo feito tudo, carregado e inspirado os seus colegas) e Mateus Fernandes (o miúdo português, única ausência grave nos convocados de Roberto Martínez para o Mundial, enche o campo) em destaque, os hammers enfrentarão vários dilemas neste Verão na formulação do plantel: deve ser uma impossibilidade segurar Bowen e principalmente Mateus Fernandes, sem esquecer jogadores que serão apetecíveis para outros clubes como Malick Diouf, Summerville ou Wan-Bissaka, mas há que edificar uma base suficientemente forte para que a passagem nos "calabouços" super competitivos do Championship seja o mais curta possível.
Destaques: Jarrod Bowen, Mateus Fernandes, Malick Diouf
A descida do Burnley adivinha-se desde o dia 1. Mesmo tendo somado 100 pontos no Championship (igualade pontual com a centena de pontos do campeão Leeds United), o regresso do Burnley à Premier League antevia-se complicado mediante uma razão simples e contundente: o plantel do Burnley era mais forte na época anterior, e não só não melhorar como ainda regredir é o garante de uma sentença na Premier League.
Os clarets subiram com um certificado de rigor defensivo, com apenas 16 golos sofridos em 46 partidas. Mas o guarda-redes James Trafford, o maior responsável pelo feito, rumou ao City, e um dos centrais (CJ Egan-Riley) partiu para Marselha, deixando o francês Estève órfão dos colegas que o ajudaram a brilhar. Paralelamente, o talismã Josh Brownhill terminou contrato e decidiu aventurar-se na Arábia Saudita.
Neste Burnley, Scott Parker fez a época quase toda, com Michael Jackson (sim, é mesmo esse o nome) a orientar a equipa nos 4 jogos finais. Anthony e Flemming foram sobressaíram em alguns jogos, e o experiente Dúbravka, sempre super exposto, viu-se obrigado a acumular defesas e defesas nesta sua pré-reforma. A pior defesa (75 golos sofridos) desta edição procurará reter pouco desta campanha, exceção feita ao "encaixe" positivo contra Manchester United e Liverpool.
Destaques: Jaidon Anthony, Zian Flemming, Martin Dúbravka
WOLVES (20) Com 20 pontinhos, este Wolverhampton tornou-se a 9ª pior equipa da História da Premier League. Que orgulho. Bem longe daqueles sétimos lugares consecutivos em 2019 e 2020, os wolves puseram termo a uma sequência de 8 temporadas no máximo escalão inglês. No começo da época suspeitámos que os lobos de laranja e negro pudessem acabar despromovidos, integrando o lote de equipas que lutariam até ao fim para escapar ao 18º posto. Mas não, o Wolves conseguiu mesmo ser último classificado!
Ao longo de 38 jornadas, West Ham, Aston Villa e Liverpool foram as únicas três equipas a perder um jogo para o Wolves, e poucos foram os destaques positivos numa campanha iniciada com Vítor Pereira (saiu ao fim de 10 jornadas) e terminada com Rob Edwards, que abandonou o Middlesbrough para tentar evitar a descida do clube pelo qual jogou 100 partidas entre 2004 e 2008.
No Molineux, há razões para preocupação: estes wolves não parecem capacitados para lutar pelos lugares de topo no próximo Championship. O completo João Gomes e o pupilo Mateus Mané (18 anos, nascido no Barreiro) ainda conseguiram oferecer alguns bons momentos e memórias numa época, globalmente, para esquecer.
Destaques: João Gomes, Mateus Mané



