Balanço Final - Liga NOS 18/ 19

A análise detalhada ao campeonato em que houve um antes e um depois de Bruno Lage. Em 2018/ 2019 houve Reconquista.

Prémios BPF Liga NOS 2018/ 19

Portugal viu um médio carregar sozinho o Sporting, assistiu ao nascer de um prodígio, ao renascer de um suiço, sagrando-se campeão quem teve um maestro e um velocista.

Balanço Final - Premier League 18/ 19

Na melhor Liga do mundo, foram 98 contra 97 pontos. Entre citizens e reds, entre Bernardo Silva e van Dijk, ninguém merecia perder.

Os Filmes mais Aguardados de 2019

Em 2019, Scorsese reúne a velha guarda toda, Brad Pitt será duplo de Leonardo DiCaprio, Greta Gerwig comanda um elenco feminino de luxo, Waititi será Hitler, e Joaquin Phoenix enlouquecerá debaixo da maquilhagem já usada por Nicholson ou Ledger.

21 Novas Séries a Não Perder em 2019

Renasce The Twilight Zone, Ryan Murphy muda-se para a Netflix, o Disney+ arranca com uma série Star Wars e há ainda projectos de topo na HBO e no FX.

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24 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 1



Filme: Fight Club
Actor: Brad Pitt

por Miguel Pontares

Líder por natureza. 
Anti-consumismo. Nietzschiano. Revolucionário. 
Imaginário.

    É irónico que, depois de 99 personagens, o número 1 seja alguém que, de facto, não existe. 
  Tyler Durden é a personagem mais completa e fascinante que o Cinema já produziu, afirmando ser tudo aquilo que queremos ser mas não podemos (All the ways you wish you could be, that's me. I look like you wanna look, I fuck like you wanna fuck, I am smart, capable, and most importantly, I am free in all the ways that you are not).

    A manifestação da perturbação de identidade dissociativa do narrador (Edward Norton) explode carisma por todos os lados. Antes de o conhecermos pela primeira vez formalmente, no avião, vemo-lo por 6 vezes: 4 flashes que podemos não identificar se piscarmos os olhos naquele momento exacto, num anúncio televisivo e, bem mais declaradamente, no tapete rolante. Tyler faz e vende sabonete (concebido através de gordura humana), trabalha como projeccionista divertindo-se ao inserir frames impróprios, e urina nas sopas que serve enquanto empregado num hotel de luxo. Está longe de ser um exemplo, sendo inclusive um perigo quando o Fight Club se transforma no Projecto Mayhem -  quando a inspiração vira extremismo, anarquismo.
    Anda pela casa de bicicleta. Veste-se de forma esquisita, mas consegue sempre ter estilo. Sempre. Se pudesse lutar com alguém escolheria o seu pai, Hemingway ou Abraham Lincoln. É um ídolo que irradia confiança, capaz de envolver qualquer um com os seus grandes momentos/ discursos.
    Em 'Fight Club', o filme em que há pelo menos um copo de Starbucks em cada cena, a mensagem é sempre transmitida por Tyler Durden. Tanto a obra de Palahniuk (que, caso raro, defendeu que o filme era melhor que o seu livro; apenas li o livro já depois de ver o filme, e é menos ingrato fazer comparações quando ocorre o inverso) como, por consequência, o filme de Fincher defendem a emancipação espiritual, o grito de revolta contra uma Sociedade materialista, pré-formatada ou programada. Servem de metáfora para o risco, para a procura do sonho mesmo que seja um erro, tropeçando enquanto se rema contra uma maré de conformismo.
    Para além de todos os traços da personagem - a sua loucura cativante, ser o id cool e hedonista do inconsciente do narrador - e fazendo todas as vénias deste mundo à dinâmica da dupla Brad Pitt/ Edward Norton, pode-se dizer que há 4 momentos-chave que entregam o 1.º lugar deste Top-100 a Tyler Durden. É capaz de resultar dar-lhes uns nomes, à Quentin Tarantino:

    - 8 Regras: Na cave, o clube de combate rege-se por oito regras. Primeiro, não falar sobre o Fight Club. Segundo, não falar sobre o Fight Club! Terceiro, se alguém gritar "Pára!" ou desistir, o combate acaba. Quarta regra, dois lutadores de cada vez. Quinta regra, um combate de cada vez. Sexta, nada de camisas e sapatos. Sétima, as lutas duram o tempo que tiverem que durar. E a oitava e última regra: se esta for a vossa primeira noite no clube, têm de lutar. As 8 regras colocam ordem numa iniciativa que pretende apenas servir de escape, uma nova Igreja para os participantes, convidados a "sentir" algo. Mas mais do que as 8 regras, que ajudam 'Fight Club' a materializar-se como filme de culto, Tyler odeia o consumismo que padroniza comportamentos e pensamentos - diz "The things you own, end up owning you", e acrescenta mais tarde que não somos o nosso trabalho, não somos o dinheiro que temos no banco, não somos o carro que conduzimos ou o conteúdo da nossa carteira.

    - Queimadura contra Deus: A cena que os pais de Brad Pitt não foram capazes de ver. Durden queima a mão do narrador "Jack" com químicos e, enquanto este exaspera, dá-lhe um sermão. Tyler diz-lhe que sem dor e sem sacrifício não teríamos nada, promovendo a renúncia a Deus, porque no seu entender devemos considerar a possibilidade dele nos odiar e de sermos os seus filhos indesejados. A sua lição final desse capítulo é que só depois de perdermos tudo é que ficamos livres para conquistar qualquer coisa.

    - O Veterinário: Poucas vezes aclamado, é talvez o momento mais positivo e altruísta da personagem. Durden desloca-se a uma loja de conveniência e, nas traseiras, obriga o empregado, um jovem asiático, a colocar-se de joelhos, apontando-lhe uma arma à cabeça. Ameaça-o fazendo-o revelar-lhe aquilo que ele queria realmente ser (um veterinário), e obriga-o a perseguir esse sonho nas seis semanas seguintes, ficando-lhe com a carta de condução como caução até confirmar que ele fora atrás do seu sonho. "Amanhã vai ser o dia mais bonito da vida de Raymond K. Hessel". O facto da arma estar descarregada e a parte traseira de uma porta que mais tarde se vê em casa de Tyler com múltiplas cartas de condução, acrescenta valor a este momento.

    - A Melhor Cena de Sempre: despe o casaco vermelho, e fica em t-shirt branca. Tem a palavra Tyler Durden: Man, I see in fight club the strongest and smartest men who've ever lived. I see all this potential, and I see squandering. God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need. We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars (olhando para a personagem de Jared Leto). But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.
    O discurso lendário chegaria só por si, mas depois há isto. Não bastava o discurso sobre o potencial desperdiçado de uma geração, não chegava a gargalhada antecessora do Joker de Ledger enquanto é agredido pelo dono do bar, Lou. Quando parece K.O., Tyler Durden atira-se a Lou, tosse e cospe sangue sobre ele, agita o rosto ensanguentado enquanto ri louco e desesperado para que a causa e o Clube continuem de pé, exigindo a palavra do dono do bar. 
    O melhor momento da melhor personagem e melhor papel de Brad Pitt, uma cena doentia e impressionante, capaz de tornar uma simples frase como "You don't know where I've been, Lou" uma das minhas preferidas de todo o Cinema que consumi. Às vezes diz-se muito com pouco.

    Soltem os Pixies e o seu "Where is My Mind", porque Tyler Durden merece ser rei. Cem personagens depois, a aventura termina. 
    Muito Obrigado. E.. até já.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

22 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 2



Filme: Into the Wild
Actor: Emile Hirsch

por Tiago Moreira

    Todos temos um filme favorito. Aquele que por alguma razão nos tocou. Que inexplicavelmente deixou-nos água pela barba com o trailer e que posteriormente nos seduziu completamente deixando-nos agarrados ao ecrã. "Into the Wild" é sem sombra de dúvidas esse tal meu filme. Não me venceu com um trailer, mas sim com o grande teaser que o videoclipe da música "Hard Sun" de Eddie Vedder acabou por ser. O facto da banda sonora ser toda da autoria de Eddie Vedder foi um factor de peso para que ficasse totalmente preso ao filme realizado por Sean Penn. No meio de tantas paisagens paradisíacas e de tantos momentos fortes do nosso personagem, a voz de Vedder deixa-nos sempre arrepiados, casando na perfeição com todas as imagens captadas.
    Sem mais demoras, apresento-vos o nosso personagem de hoje - Christopher McCandless. Isto sou eu a apresentá-lo. Se fosse o mesmo talvez se apresentasse por Alex Supertramp. Porquê? Porque acabou por ser a sua nova identidade. Chris, depois de se formar, largou toda a sua vida social para se tornar livre. Não, McCandless não vivia numa ditadura, mas sentia-se preso a todas as «regras» e patamares que a sociedade nos incute. Com uns pais bastante severos e para quem a aparência da sua família perante a sociedade era tudo, Chris - com uma mente fomentada por escritores como Thoreau, Tolstoy e Jack London - acabou por doar todo o seu dinheiro a instituições de caridade e partiu com direcção ao selvagem, mais concretamente em direcção ao Alasca. Pelo seu caminho encontrou várias pessoas que com a sua personalidade forte, mentalidade louca, mas ao mesmo tempo bastante ponderada e inteligente, Alex (era assim que era conhecido perante todas estas pessoas) deixou a sua marca na vida de todas elas. Com um estilo de vida completamente inspirador, Supertramp influenciou positivamente todos os seus amigos de viagem a não se acomodarem ao veneno que o mesmo achava que a sociedade era. Incentivou-as a deixarem de parte todos os limites impostos pela sociedade e a aproveitarem a sua vida, sem qualquer receio. Contudo, a teoria que tentava defender, que consistia no facto do ser humano não necessitar de se relacionar com outras pessoas para ser feliz e que todos os materiais ao nosso redor eram desnecessários para a vida humana, saiu gorada. Uma das suas últimas anotações, quando se encontrava na sua carrinha totalmente isolado do mundo, foi mesmo «Happiness only real when shared». Uma verdade arrebatadora e que muitos de nós, no meio do nosso egocentrismo, desprezamos completamente.

    Christopher McCandless é uma das personagens mais inspiradoras de sempre. Pelo menos para mim. Sou fã de livros e filmes baseados em histórias verídicas e esta sem dúvida alguma que é a melhor de todas que alguma vez li/assisti. Faz-nos reflectir bastante sobre toda a verdade em que estamos inseridos e como é que a sociedade nos conseguiu formatar de tal forma que estrutura toda a nossa vida em patamares. E não só. A sociedade ilude-nos quanto ao facto de sermos livres. Nós estamos presos à falsa ideia de sermos livres. A verdadeira liberdade não nos é totalmente conhecida. Tudo porque a maioria das pessoas apenas pensam que querem liberdade. Na verdade, apenas querem ser - hiperbolizando um pouco - escravas da sociedade, da ordem social, do materialismo e de todas as leis que nos regem. A única liberdade que o Homem realmente quer é a liberdade para se sentir confortável (Sim, também fui bastante influenciado por Sons of Anarchy). Nada mais que isso. E Chris deu-nos o seu exemplo de vida para que fujamos de todos esses aspectos. Para que saibamos seguir o nosso caminho mesmo que nos olhem com desdém enquanto caminhamos. Para que saibamos partilhar a nossa vida com quem realmente merece. Para que vivamos até ao limite da nossa condição física da melhor forma possível ignorando juízos de valor de outrem.
    E passou-nos tudo isto de uma forma pura. Ou diria melhor... selvagem.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

19 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 3



Filme: The Dark Knight
Actor: Heath Ledger

por Miguel Pontares

    Coloca a cabeça fora da janela do carro da polícia. Cabelos molhados ao sabor do vento. É livre.
    A língua serpenteia pela gengiva, divide falas com uma lambidela. O lápis está na mesa, Ta-daa, desapareceu. Aplaude dentro da cela. Explica as cicatrizes. Foi o pai, alcoólico, abusador. Foi ele próprio,  auto-mutilado, movido pela mulher.
    Ri. E o riso ecoa imortal, psicótico, descontrolado e estridente.
    O "palhaço psicopata, esquizofrénico, assassino de massas, com zero empatia" (descrição de Ledger sobre a sua personagem) de Gotham. Chegou a vez dele.
    Aquilo que Christopher Nolan conseguiu fazer com um franchise de super-heróis muito dificilmente será repetido em filmes do género. O realizador, que aos 45 anos reúne uma colectânea de trabalhos das mais consistentes e incríveis, é quase sempre a figura nº 1 nos seus filmes. Em 'Memento', 'The Prestige', 'Inception' ou 'Interstellar' o conceito vence sempre, ajudado pelos actores. 'The Dark Knight' é o único filme de Nolan em que acima de tudo está um actor e uma personagem: Heath Ledger, como Joker.
    O anarquista e caótico Joker, o antagonista em melhor posição neste Top-100, é um daqueles homens "que só quer ver o mundo a arder". Usa uma faca para saborear as pequenas emoções, precisa do Batman porque ele o completa (I think you and I are destined to do this forever), e diz ter gostos simples: dinamite, pólvora e gasolina. Nada o prende a nada, não tendo qualquer espécie de moral ou regras.
    'The Dark Knight' faz parte daquele conjunto de filmes que já desconheço o número de vezes que vi. Mas o desempenho de Heath Ledger impressiona e arrepia sempre. A maquilhagem inconfundível (aquele sorriso de Glasgow, a tez branca e os olhos com um tom negro circundante) e o cabelo esverdeado são o ponto de partida para uma personagem marcante, inesquecível e para a qual as palavras não chegam para fazer justiça.
    Há muitas personagens deste Top que conseguem ter vários momentos emblemáticos ao longo dos seus filmes, uns 5 ou 6 por exemplo, em alguns casos, vamos supor. Joker não entra nesse universo. Praticamente todas as suas cenas são do outro mundo. Podemos começar com a sua entrada, aquele assalto ao banco orquestrado por ele servindo-se de criminosos, com máscaras de palhaço, instruídos para se matarem entre si um por um; depois há o lápis, uma cena icónica mas que nem é das minhas preferidas. É genial nunca nos ser dita de facto a origem das suas cicatrizes na boca - primeiro culpa o pai ("Why so serious?", "Let's put a smile on that face"), depois diz ter sido ele próprio, com uma lâmina, em solidariedade com a mulher ("Now I'm always smilling"). Mas a coisa não fica por aqui: diz-se um agente do caos, justo, enquanto fala com Harvey Dent no hospital, tem aquele frente-a-frente épico na noite de Gotham com Batman (o morcego herói não consegue ir contra ele, enquanto ele fica imóvel a desejar que Batman quebre a sua única regra), filma-se num vídeo arrepiante e desliza ao longo de uma pirâmide de notas antes de a colocar em chamas. A boa realização e edição ajudam a magnitude dos seus planos, quer quando obriga Batman a escolher entre Rachel e Harvey, conseguindo escapar da cela enquanto tudo isso decorre ("I want my phone call"), quer quando coloca o destino nas mãos de civis e presidiários nos dois barcos.
    Mas, tendo que escolher A Cena, é impossível não ser o momento em que é interrogado por Batman. Todo o discurso - a oposição vs aproximação filosófica entre herói e vilão - até conduzir Bruce Wayne a escolher entre Rachel e Dent, espancado brutalmente, encurralado enquanto se ri histericamente. Um momento em que nasceu uma Lenda.

    Joker é uma grande personagem por si só. Jack Nicholson foi incrível, Jared Leto também o será certamente. Tanto um como outro tendo em si uma estranha loucura, à partida. Ledger não tinha. Adquiriu-a. Na preparação da personagem e do filme, fechou-se num quarto de hotel durante 1 mês, experimentando vozes enquanto descobria que voz e que riso devia ter o seu Joker. Criou um diário escrevendo nele como se fosse a personagem, registando pensamentos e sentimentos.
    Christopher Nolan deu-lhe bastante liberdade na construção e postura da personagem, e usou as suas improvisações extra-guião como o momento genuíno em que aplaude dentro da cela, ou a sua retirada do hospital, reagindo confuso e persistente perante o facto do seu detonador não funcionar à primeira. Construiu-se o mito que agiganta a personagem e a interpretação de que Joker consumiu tanto o actor que originou a sua morte. O que é factual é que, ao contrário dos rumores de que Heath Ledger andaria pelo set a assustar a equipa como Joker, Ledger conseguia de facto "saltar" rápido para fora da personagem, andando de skate pelos cenários maquilhado ou vestido como Joker para relaxar, ou simplesmente abraçando tudo e todos bem humorado.
    Estrelas como Cobain, Marilyn Monroe ou até Elvis serão sempre recordados jovens por terem morrido cedo. No caso de Heath Ledger é difícil que a última imagem não seja dele como Joker. Um papel sem concorrência possível, justamente reconhecido com um óscar póstumo.

    Quando vemos Joker, não vemos Heath Ledger. Nem um bocadinho dele. Está perdido na personagem. Totalmente convertido, mergulhado. Mas ao mesmo tempo, vemos tudo o que Ledger poderia ter vindo a ser, vemos o potencial incrível para partir dali para uma carreira extraordinária, um actor a chegar mais alto do que qualquer outro.
    Fecho os olhos e a última imagem é a primeira também. Com a cabeça fora da janela do carro da polícia, cabelos molhados ao sabor do vento. Livre. Imortal.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
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17 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 4



Filme: The Godfather
Actor: Marlon Brando

por Miguel Pontares

    A trilogia de Francis Ford Coppola é, principalmente, sobre Michael Corleone, mas quando se fala n'O Padrinho é Don Vito que nos assalta a mente. Aquele rosto carregado de quem já viveu muito, de bochechas preenchidas e maxilar inferior proeminente, e o cabelo puxado para trás. Poucos actores houve e haverá como Marlon Brando. Vito foi um dos seus melhores papéis, e a melhor personagem que vestiu.
    Aquilo que nos acontece com o seu filho Michael - vemo-lo vezes e vezes sem conta envolvido em actos criminosos mas mesmo assim reconhecemos-lhe, vá-se lá saber como, alguns valores, sendo o da Família o mais alto - é expresso de uma forma ainda mais intensa pelo primeiro chefe da família. Don Vito Corleone, nascido Vito Andolini, é o menino que vê a sua mãe a morrer às mãos dos homens de Don Ciccio - que matara o seu pai e irmão - e que anos mais tarde se vinga no regresso à sua Sicília; é o homem que só respeita e considera verdadeiros homens aqueles que passam tempo e estimam as suas famílias; é aquele que quer o melhor para o filho Michael (Al Pacino), por ter maior potencial e não se querer envolver tanto nos negócios da família, e que por isso sofre quando o vê a seguir as suas pisadas, com simultâneo alívio por poder partir em paz, estando a família protegida e em segurança.
    No Cinema, como em todas as narrativas escritas ou projectadas de forma audiovisual, há heróis e vilões. Don Vito Corleone move-se numa linha fina, num limbo perfeito em equilíbrio entre as duas dimensões. A sua afirmação, económica e social, faz-se graças à ilegalidade, com roubo (o famoso tapete) ou o assassínio de Don Fanucci, mas no limite pode-se dizer que o mafioso jogo de favores que desenhou, tinha como propósito principal garantir que a sua descendência não teria que viver do mesmo modo. Na percepção global da personagem, para além de ser valorizada pela versão jovem de Vito (magnífica interpretação de Robert De Niro) no segundo filme, pesa muito o facto de o conhecermos inicialmente na fase final da sua vida: vemos um senhor, sensato e ponderado, capaz de ler os outros,  a saber ouvir e saber discutir, porventura arrependido e sempre preocupado com os seus. 
    Uma das melhores ilustrações da personagem é mesmo o momento em que está no seu escritório, a discutir negócios e a "amizade", enquanto carinhosamente afaga o pêlo do gato que tem ao colo. Um pormenor extra-guião, aproveitado pelo realizador Coppola depois de num intervalo das gravações Marlon Brando ter começado a brincar com um gato transeunte. E sim, é a primeira vez que alguém escreve "um gato transeunte".
    
    O chefe da família Corleone, a única personagem da História do Cinema a valer 2 óscares aos dois actores que a interpretaram (Brando, que rejeitou o óscar, e De Niro), é acima de tudo uma personagem marcante e completa. Tem uma primeira cena/ impressão forte e distintiva, umas quantas quotes para a posteridade, é facilmente identificável através do seu timbre ou da sua figura, e tem uma das mortes mais tocantes de sempre: traído pelo coração enquanto brinca com o neto no jardim.
    Toda a gente sabe quem é o Padrinho. Se isso chega para fazer dele o nosso 4.º classificado? Não, mas é melhor jogar pelo seguro, antes que nos faça uma proposta que não podemos recusar. Acordar com cabeças de cavalo na cama não faz parte dos meus planos.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

16 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 5



Filme: The Silence of the Lambs
Actor: Sir Anthony Hopkins

por Tiago Moreira

    Senhoras e senhores, se este sujeito disser que vos quer papar, não é um comentário ordinário da sua parte. Ele quer mesmo papar-vos literalmente. De faca e garfo. É verdade... Ele gosta dum bom bife do lombo. A questão é que é do vosso lombo e não a de outro animal irracional. Julgo que com esta apresentação é mais do que claro que estou a falar de Hannibal Lecter.
    Uma personagem criada pelo escritor Thomas Harris e com Sir Anthony Hopkins a dar corpo ao mesmo no grande ecrã. É uma personagem tão complexa que teve sucesso em quatro livros do escritor e nos quais três se tornaram filmes. Como se não bastasse, mais recentemente, foi criada uma série com base no nosso personagem de hoje.
    Uma das mentes mais doentias, audazes e extremamente inteligentes de sempre no mundo da ficção. Um canibal que acabou por sê-lo derivado ao seu passado peculiar. Para além de haver uma pequena indicação que é uma condição já de família, o grande impacto traumático deveu-se quando este viu a sua irmã ser devorada pelos hiwis - lituanos que ajudavam os nazis na Segunda Guerra Mundial fazendo-se passar por elementos da Cruz Vermelha. O mais inacreditável e o que o torna um alvo bastante improvável para a polícia é que o mesmo acaba por ser um especialista em psiquiatria e que acaba por ajudar a polícia em determinados casos. Basicamente é como se tivesse um jogo de xadrez muito bem estudado, como se fosse um computador extremamente bem programado. Só que até o mais bem elaborado plano tem as suas falhas que o tornam falível.
    É uma das personagens mais admiradas por nós e certamente por muito boa gente atenta à ficção mundial. Se nunca viram "The Silence of the Lambs", "Hannibal" ou "Red Dragon", não é tarde para começarem a fazê-lo.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
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12 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 6



Filme: Harry Potter
Actor: Alan Rickman

por Lorena Wildering (Escritora Convidada)

Snape. Snape. Se-ve-rus Snape.

    Chegámos finalmente à parte mais importante deste Top. Eis que entramos no mundo mágico de “Harry Potter” que, pessoalmente, me diz muito há já 14 anos. Quem me conhece, bem ou mal, sabe do meu eterno amor por ele, mas talvez não saberão o quanto significa para mim. Como disse Harry, Hogwarts is my home.
    Uma das mais complexas e principais personagens desta história é interpretada pelo brilhante e assustador Alan Rickman, com algumas das frases mais citadas como “turn to page...three hundred and ninety...four”, “ob...viously” e “out for a little walk… in… the moonligh...t”.

    Quem foi Severus Snape? Sem vos querer resumir os sete livros, há muito que se coloca um debate acerca desta personagem desde que a autora, (Rainha) JK Rowling, revelou o seu segredo. Foi, ou não, um herói? É uma questão que dividirá esta fandom para sempre.
    O ter sido um Slytherin não melhorou em nada o seu charme e é um facto que, ao longo dos 6 anos que Harry o tem como Professor de Poções, é tratado abaixo de Fluffy (perdoem-me).
    Mas voltemos ao início. Snape fora amigo de infância da mãe de Harry, Lily, apaixonando-se profundamente por ela com o passar dos anos. Ambos já em Hogwarts, Snape era gozado por James Potter, futuro marido de Lily, ficando cada vez mais envolvido com a supremacia “pure-blood”. Acabou por se tornar um “Death Eater” na primeira “Wizarding War”.
    Ao servir de espião, soube que alguém com o poder de derrotar Voldemort em breve nasceria: Harry. Assim que soube que a sua querida Lily corria perigo iminente, pediu ao único outro feiticeiro mais poderoso que conhecia, o Professor Albus Dumbledore, para mantê-la segura. Não tinha como saber que Lily tinha depositado a sua confiança na pessoa errada, acabando por ser assassinada junto com James. Tendo o bebé Harry involuntariamente derrotado o “Dark Lord”, Snape passou o resto da sua vida a servir de agente duplo, providenciando a Dumbledore informação acerca dos planos de Voldemort, quem eles sabiam que um dia voltaria para terminar o que tinha iniciado.

    Onze anos depois, Snape só conseguia ver James da primeira vez que olhou para Harry, não conseguindo esconder o seu rancor. Acredito que a primeira vez que se olharam olhos nos olhos, o coração de Snape vacilou quando reconheceu o olhar de Lily. Acredito que foi esse olhar que se agarrou a ele de tal forma que sentiu que lho devia a ela proteger o seu filho.
    Os que conhecem a história, sabem da profecia. Teria esta história acabado bem se tivesse sido o esquecido e gorducho Neville a ser o “Chosen One”? Teria Snape sacrificado tanto de si próprio, ou teria continuado a obedecer ao seu amor egoísta por Lily, continuando a odiar James? Provavelmente, apenas o último. Mas não é também o curso de acontecimentos que influencia as decisões da vida de uma pessoa? Não é também um facto que um adolescente de coração partido, tendo vivido uma vida solitária com amor não correspondido, é uma ameaça para si mesmo? Como tantos outros, uma vida escura leva-nos a caminhos obscuros, e Snape percorreu-os.

    Não nos esqueçamos de que, no final, os nomes Albus, Severus e Potter acabam por viver lado a lado. Harry Potter considerou-o "o homem mais corajoso que eu já conheci". Apesar de ter sido maltratado pelo próprio, honrou-o da maneira mais meritória possível.

    Severus Snape foi o homem mais corajoso de toda esta história. Um homem que viveu uma vida miserável e solitária, desejando alguém que nunca seria dele. Um homem que sofreu uma morte cruel, traído por aquele que sempre confiou nele. Pode não ter sido um herói no sentido que conferimos à palavra. Mas quiçá apenas um herói, não obstante o seu lado escuro, poderia decidir tomar o caminho certo e ser aquele que salva o dia, não querendo ser relembrado por isso. Apesar do seu passado, Severus Snape foi o personagem que, directa e indirectamente, influenciou o desfecho do “Wizarding World”. Lembrar-me-ei dele como o homem que encontrou a força para lutar a escuridão que matou o seu único amor, sabendo que o mesmo nunca seria sentido de volta. Ficará trancado no meu coração...

Always.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

10 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 7



Filme: American History X
Actor: Edward Norton

por Tiago Moreira

    Já deu para perceber a nossa admiração por vilões. A verdade é que são as personagens mais interessantes se forem bem construídas. E esse é o caso de Derek Vinyard - vindo da cabeça de David McKenna e representado no grande ecrã pelo louco Edward Norton. Um papel que lhe valeu uma nomeação para Óscar em 1999, tendo sido suplantado por
Roberto Benigni no filme A Vida É Bela, personagem que fez parte deste nosso top 100.
    Todo o vilão tem a sua história. E Derek, um skinhead movido pelos valores nazis, optou por esse caminho devido à morte prematura do seu pai. Um bombeiro que morreu baleado quando apagava um incêndio num bairro de negros, pelos mesmos. A revolta tomou conta de Derek e este acabou por ser uma das grandes figuras entre todos os skinheads da região. O seu irmão acabou por se influenciar pelas atitudes do mano mais velho e seguiu-lhe as pisadas. Derivado a uma informação que o seu irmão Danny lhe deu, Derek acabou por assassinar três negros brutalmente quando estes tentavam assaltar o carro do seu falecido pai. O filme quase que se pode dividir em duas partes. E a segunda metade começa quando Derek sai da prisão. Tudo o que lá passou fez com que o mesmo reflectisse sobre todos estes seus valores racistas e acabou por ser uma motivação para salvar o seu irmão de um caminho igual ou pior.
    É de facto uma personagem bastante complexa. Tanto nos dá repúdio nos seus actos como alguma reflexão sobre a origem da sua personalidade. Faltou-lhe apoio e algum auto-controlo no que diz respeito à revolta, mas a verdade é que nunca vamos tarde de nos corrigirmos. Tal como Danny citou no próprio filme, as palavras de Abraham Lincoln resumem muito bem a moral desta história: "We are not enemies, but friends. We must not be enemies. Though passion may have strained, it must not break our bonds of affection. The mystic chords of memory will swell when again touched, as surely they will be, by the better angels of our nature"

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

8 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 8



Filme: Star Wars
Actor: David Prowse/ James Earl Jones (voz)

por Miguel Pontares

Chamem-me geek mas o universo 'Star Wars' é especial para mim. Foi há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, que comecei a viver as aventuras de jedis e siths.
    Julgo que sentem maior apego em relação à odisseia de George Lucas, aqueles que já tinham visto os episódios IV, V e VI, e só depois assistiram aos mais recentes (e piores, exceptuando o que liga tudo) I, II e III.
    O comportamento tradicional é gostar do herói, querer ser um Skywalker como Luke, venerar o fanfarrão Han Solo ou simpatizar com o verdinho Yoda. Mas A Força atraiu-me para o lord Sith Darth Vader (curiosamente ele também um Skywalker).
    O homem de sabre de luz vermelho e respiração abafada e mecânica toma, ao longo dos seis filmes, quase somente decisões erradas, mas algumas com um propósito são e puro. Dito de antemão, Darth Vader é o jedi que quis amar e o pai que cumpriu a Profecia ao salvar o seu filho.
    Nascido Anakin Skywalker, em Tatooine, foi descoberto por Qui-Gon Jinn e treinado por Obi-Wan Kenobi. A sua brutal contagem de midichlorianos precipitou o seu treino como Jedi, presumindo-se que seria O Escolhido da profecia, aquele capaz de trazer equilíbrio à Força e de destruir os Sith. Ainda enquanto Jedi, Anakin apaixona-se por Padmé Amidala e casa-se em segredo com ela. O facto de um Jedi não poder amar foi um dos motivos que o fez deixar-se seduzir pelo Chanceler Palpatine aka Darth Sidious, dizendo-lhe este que no Lado Negro o amor era possível, legítimo. Anakin tinha medo de perder quem amava, explicando-lhe Yoda que o medo conduz à raiva, a raiva ao ódio e o ódio ao sofrimento. Na transição de Anakin para o Lado Negro, no qual lhe fora prometido maior poder, impressionam vários momentos: quando se deixa corromper pelo ódio chacinando uma aldeia ao descobrir a mãe morta, quando ficam subentendidas as mortes de crianças jedi que provocou, e finalmente o seu embate épico com Obi-Wan Kenobi (You were the chosen one! You were my brother, Anakin. I loved you!), que deixa Anakin queimado, à beira da morte e da sua transformação em Darth Vader.
    Nos episódios IV, V e VI - lançados em 1977, 1980 e 1983 - enquanto Darth Vader, apresenta-se com o seu capacete negro, com o objectivo de servir o Imperador, e destruir os Jedi e os rebeldes. Foram esses três filmes ('A New Hope', 'The Empire Strikes Back' e 'Return of the Jedi') que serviram para fazer de Darth Vader uma das personagens mais marcantes do Cinema - senhor do inesquecível "I am your father" - cumprindo a profecia no sexto episódio, ao evitar a morte do filho Luke, destruindo o Imperador e os Sith. Anakin Skywalker ou Darth Vader morre no final, e junta-se em espírito a Obi-Wan e Yoda, acabando no lado certo da Força.

    David Prowse e Sebastian Shaw deram corpo à personagem nos filmes dos anos 70 e 80, o pequeno Jake Lloyd e Hayden Christensen (ao contrário de muita gente, acho que fez um trabalho positivo neste papel) foram Anakin no seu caminho até ao Lado Negro, mas a personagem não seria igual sem a voz de James Earl Jones. Curioso como o actor de 84 anos foi o pai de Simba e o pai de Luke Skywalker.
    Darth Vader é o emblema maior da ficção científica cinematográfica. O pai de Luke e Leia, nasceu escravo mas morreu a libertar a Galáxia. Pelo meio, amou e odiou. Atreveu-se a sentir mais do que um cavaleiro Jedi poderia.
    Neste Top-100 não colocámos figuras marcantes como Yoda, Han Solo (optámos por Indiana Jones porque as personagens não diferem na abordagem mas sim no contexto), Chewbacca ou os robôs R2-D2 e C-3PO. Tornámos Vader o nosso Escolhido, concentrámos A Força no antagonista. Que Ela esteja com o seu herdeiro (Kylo Ren?) nos próximos capítulos.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
Foram tidos em consideração filmes lançados até 20 de Novembro de 2014. Mais informamos que poderão existir spoilers relativos às personagens e/ ou aos filmes que elas integram, passíveis de constar na defesa e caracterização de cada uma das 100 personagens.

7 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 9



Filme: The Pursuit of Happyness
Actor: Will Smith

por Tiago Moreira

    «It's the final countdown!» - Sim, começo o meu texto com o refrão duma música dos Europe. Mas foquemo-nos no nosso personagem de hoje. O melhor papel da carreira de Will Smith. Um filme em que Will contracena com o próprio filho Jaden - quando ainda era pequeno e não era troglodita.
    Não amealhou nenhum galardão, mas Will Smith obteve a nomeação de melhor actor principal. Se bem nesse ano de 2007, merecia também a nomeação de melhor filme.
    Uma das películas mais marcantes dos últimos anos que conta a história verídica de Chris Gardner. Chris era um simples homem de família com graves problemas financeiros. Investiu tudo o que tinha em aparelhos médicos, mas a verdade é que não obteve retorno... Como se não bastasse, Chris viu a sua mulher abandoná-lo e ao filho e pouco depois acabaria mesmo por ser despejado. Sem saber o que fazer à sua vida, Chris foi obrigado a dormir na rua com o próprio filho, mas sempre tentando que o próprio não se apercebesse da cruel realidade que se estava a abater sobre eles. Contudo, Chris Gardner é um exemplo de um cidadão persistente e lutador. Com maior ou menor sorte, conseguiu um emprego numa correctora de acções, mesmo que tenha iniciado como estagiário. Os mais crentes costumam dizer que "O que o Diabo tira com uma mão, Deus devolve com as duas" - e no fundo foi isso mesmo que lhe aconteceu. Após tanto azar, Chris consegue um emprego a altura de sustentar o seu filho.
    O que nos levou a escolher Chris, foi o simples e tão complexo exemplo de vida que partilhou com o mundo. É um exemplo que mesmo que o nosso mundo desabe por completo, há sempre maneira de nos reerguer-mos. Mesmo que tudo pareça destinado a correr mal, há que manter toda uma positividade e continuar a lutar pelo que queremos. Simplesmente temos que encontrar a motivação para continuar a lutar no sítio certo. Chris teve sempre a sua motivação por perto... o seu filho.

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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
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3 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 10



Filme: The Godfather
Actor: Al Pacino

por Miguel Pontares

    Bem, ainda há pouco tempo escrevi sobre Frank Slade (18) e agora volto a ser apadrinhado por Al Pacino. Se eu me importo? Não, definitivamente. Não é o actor mais representado neste Top100 mas é o único com 2 personagens entre os vinte primeiros lugares.
    Entre milhares de filmes, a preto e branco ou cores, haverá sempre um lugar especial para 'The Godfather' no Cinema. A obra de Mario Puzo, adaptada por Francis Ford Coppola, é um Clássico. Mais do que isso, até. Para muitos o melhor filme de sempre, ocupando no IMDb o 2.º e 3.º lugares, ignorando a parte III.
    Embora Don Vito Corleone seja O Padrinho original, a trilogia é riquíssima em personagens - Fredo Corleone (o incrível John Cazale que nos deixou cedo demais, com um registo de apenas 5 presenças em filmes, todos eles nomeados para Melhor Filme, e 3 galardoados), o temperamental Sonny Corleone, o irmão "emprestado" Tom Hagen e ainda, por exemplo, Frank Pentangeli ou Clemenza. 
    Entre Corleones havia um membro da família que queria percorrer um caminho honesto, aparte do mundo da Máfia. Falo de Michael Corleone, o filho mais novo de Don Vito (Marlon Brando).
    Embora Don Vito sirva diversas vezes como rosto do filme, a trilogia é principalmente sobre Michael. A transformação e a génese do novo chefe da família Corleone. O 1.º contacto que temos com o único Corleone que vai à faculdade é no casamento da irmã, acompanhado pela sua futura mulher Kay. Involuntariamente e de forma magnética simpatizamos com o rapaz que não quer ter nada a ver com os negócios da família e que quer traçar o seu próprio caminho. Olhar para Michael no começo da Parte I e no final da Parte II é testemunhar um dos melhores (ou piores, em termos comportamentais) desenvolvimentos de personagem de sempre.
    Tudo muda quando o pai sofre um atentado. Michael percebe que as circunstâncias exigem medidas drásticas, e a necessidade de proteger a família fala mais alto. Salva o pai, mas condena a sua própria alma, um passo de cada vez. Revela-se o único filho capaz de herdar do pai a poltrona e os submissos beijos na mão, assumindo pela primeira vez uma frieza visceral ao oferecer-se para matar Sollozzo e McCluskey (que cena brutal!). No seu exílio siciliano, Michael conhece Apollonia, com quem se casa, e o derradeiro passo para se tornar frio e metódico - já depois do seu irmão Sonny ser morto - é o homicídio da mulher. No regresso a casa, reata com Kay, com quem se casa e constitui família, e sucede ao seu pai, prometendo-lhe tomar conta da família. Com Vito morto, Michael emerge como um Don ainda mais implacável, separando negócios e questões pessoais. Prova disso é o momento em que ordena o assassinato do cunhado.
    Se a parte I é a ascensão de Michael, na parte II a corrosão na personagem é crescente, à medida que procura expandir os negócios da família. Quase todas as suas cenas borbulham numa tensão impressionante, seja na sala de estar de Pentangeli, em Cuba com Hyman Roth, quando fala raivosamente com Kay ao descobrir que ela fez um aborto, ou quando agarra veementemente a cabeça do irmão Fredo e lhe diz "I know it was you, Fredo! You broke my heart. You broke my heart!". Mas, de todos os momentos de Michael Corleone, há um que define a personagem - na cena final da parte II, quando a partir da sua casa do lago observa o irmão Fredo num barco a ser morto por ordem sua.
    Depois dos dois "Padrinhos" (1972 e 1974) que interessam, a parte III de 1990 é algo que era.. dispensável. O Michael Corleone que aí vemos é um homem mais maduro, que já não diz que devemos manter os inimigos ainda mais próximos do que os amigos, optando sim por dizer que odiar um inimigo irá afectar o poder de decisão e de pensar com clareza. No 3.º capítulo, Michael é o mentor de Vincent, mostra arrependimento, fraqueza e morre no fim. Embora o filme pareça supérfluo depois dos dois primeiros, vale pelos últimos pensamentos de Michael - a dança com Apollonia, depois com Kay e finalmente com a filha Mary. As três mulheres da vida dele.

    Impressionante como Al Pacino não ganhou nem o óscar de melhor actor secundário pela Parte I, nem o de melhor actor principal pela Parte II. Talvez até não seja o melhor papel de Al Pacino - há muito por onde escolher - mas é para nós a personagem mais interessante. E não há melhor caracterização da transformação de Michael Corleone do que aquela que Don Vito nos oferece quando, regressado do hospital, pergunta onde está o filho preferido e recebe as notícias de que Michael matou Sollozzo e McCluskey. O brilhante Vito de Marlon Brando expulsa toda a gente do quarto, porque naquele preciso momento soube tudo: o filho com mais potencial e capacidade para ser justo e "limpo" tinha-se perdido, mas a família estava protegida. Tinha nascido um novo Padrinho.


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Nota Editorial: A compilação/ organização e ordem das personagens deste Top é responsabilidade de Miguel Pontares e Tiago Moreira. Os textos tiveram a colaboração de Daniel Machado, Lorena Wildering, Nuno Cunha, Sara Antunes Santos e Carolina Moreira.
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1 de agosto de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 11



Filme: American Psycho
Actor: Christian Bale

por Miguel Pontares

    Três traços servem de ingredientes para fazer desta uma grande personagem: a sua perturbação, o modo como representa um cartoon/ crítica à Sociedade, e a sua ambiguidade.
    Patrick Bateman, criação literária de Bret Easton Ellis tornada real por intermédio de Christian Bale (um dos meus actores preferidos) é um homem de aparências, sádico e doente. Um narcisista por excelência, rigoroso e fanático no culto do seu corpo (tem uma brutal rotina de 3 horas de treino para se manter em forma, hidratando diariamente a pele com cremes e loções), Bateman é um materialista - ambiciona ter os melhores fatos, o melhor apartamento e os melhores cartões de visita, entre seu núcleo de conhecidos e "amigos".
    O homem que ouve e disserta sobre Phil Collins, Huey Lewis and The News e Whitney Houston não suporta ter ou ser menos do que os outros, e usa uma máscara social para esconder aquilo que pensa e quer realmente fazer com os que o rodeiam.
    Em 'American Psycho', Patrick Bateman é um homem de negócios de Wall Street com 27 anos, vazio de sentimentos, capaz de matar um mendigo, prostitutas ou um colega do trabalho. Os homicídios mais emblemáticos são claramente o do colega Paul Allen (Jared Leto) e das prostitutas Christie e Elizabeth. A matar o embriagado Paul, Patrick tem o cuidado de ter papel de jornal no chão e de vestir um impermeável, matando-o com um machado ao som de Hip to Be Square; Christie é assassinada durante o acto sexual, com Elizabeth a ser morta graças a uma moto-serra que Bateman atira do alto das escadas, gritando coberto de sangue. Se por um lado está à vista de todos que Patrick Bateman é um psicopata, o filme deixa também a ideia que algumas das coisas são alucinações suas. O objectivo dos 20 minutos finais, desde o episódio com o gato na caixa de multibanco até à perseguição e à sua confissão, é deixar-nos na dúvida. Terá Patrick Bateman realmente morto todas aquelas pessoas ou é apenas um homem incrivelmente perturbado, mas sem ser um serial-killer, que alucina e fantasia com aquilo que gostava de fazer à sociedade, desenhando e rabiscando esses actos no seu caderno (uma reprodução do que aconteceu, ou a materialização da imaginação)?
    Essa ambiguidade é um dos pontos fortes de 'American Psycho' e da construção mental de Patrick Bateman, embora para que a personagem funcione como uma crítica à Sociedade, seja melhor interpretar os homicídios como reais. Bateman é um membro da classe Alta, protegido por ser um privilegiado e cujos crimes passam impunes por fazer parte de uma Sociedade em que ninguém se importa com o que realmente interessa. No mundo americano de 'American Psycho' ninguém conhece realmente Patrick Bateman, muitos nem sabem o nome dele, por estarem demasiado ocupados em serem todos iguais - os mesmos fatos, os mesmos hábitos, as mesmas conquistas e vidas superficiais.
    A cartoonização de uma sociedade moralmente disforme e vazia, faz de Patrick Bateman (Bale foi sempre a 1.ª escolha mas o papel também foi oferecido a DiCaprio, Pitt, Norton e Reeves) uma personagem interessante. Aquele que se quer integrar, ter e consumir o mesmo que todos em seu redor, é também aquele que os despreza enquanto arranja desculpas (I have to return some video tapes) e conversas dignas de um humano desenquadrado social e emocionalmente.
    Com ou sem alucinações, Patrick Bateman é um monstro que passe incólume, com a Sociedade a passar um pano sobre os actos de quem a pode destruir. 

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29 de julho de 2015

100 Melhores Personagens de Filmes - Nº 12



Filme: The Wolf of Wall Street
Actor: Leonardo DiCaprio

por Miguel Pontares


    DiCaprio. Leonardo DiCaprio. O actor com raízes italianas, alemãs e russas é aquele que mais personagens colecciona neste Top-100. Puderam ler sobre William Costigan Jr. (64), Calvin Candie (46), Danny Archer (24) e agora chegou a vez do Lobo uivar. Assim como ficou à porta de muitos óscares, fica também aqui bem perto dos 10 primeiros lugares. Aquilo que elevou Belfort tão acima é também aquilo que o leva a não subir mais: Jordan Belfort é a melhor personagem e o melhor papel (se noutros casos houve algum azar, este óscar devia ter sido seu) de DiCaprio, mas a importância do desempenho do actor prevalece sobre os traços da personagem, inferior a outras. Posso aliás dizer-vos que acima só aparecerão nos restantes 11 elementos duas personagens inspiradas, tal como esta, numa figura real. Mas se essas duas personagens são por si só duas lições de vida, Jordan Belfort é aquilo que DiCaprio fez dele.
    O Lobo de Wall Street é um homem de excessos, de vícios. É alguém que começa o filme com cara de anjinho, a perceber o funcionamento de Wall Street pelas palavras, conselhos e batimentos peitorais/ tribais à mesa com a personagem de Matthew McConaughey, mas cuja vilanização se intensifica à medida que aumenta o seu poder, o seu vício por drogas e mulheres. E, citando-o, guiado pela maior droga de todas: o dinheiro.
    'The Wolf of Wall Street' é um filme completo. Demos-lhe aqui internamente no BPF o óscar de Melhor Filme em 2014, contribuindo para o sucesso final a brilhante realização de Scorsese (o "pai" cinematográfico de DiCaprio), a entrega e humor de Jonah Hill como Donnie Azoff, as pequenas contribuições de nomes como Matthew McConaughey, Jon Bernthal e Jean Dujardin e um pecado chamado Margot Robbie. Mas convenhamos, o filme é DiCaprio.
    Graças ao trabalho de Leo, este Lobo torna-se uma injecção de adrenalina, na qual as 3 horas de filme passam a correr. É um caso evidente de uma boa personagem que está longe de ser uma personagem boa, julgo que percebem o que quero dizer. A receita para esta personagem está prescrita: quaaludes, Adderall, Xanax, marijuana, cocaína e morfina. E os momentos que contribuem para este 12.º lugar são muitos: aquele épico e longo caminho a rastejar, rebolando pelas escadas até chegar ao carro; as conversas com o FBI enquanto atira notas ("Fun Coupons") e lagostas; a sua primeira grande venda ainda antes da Stratton Oakmont; e sem dúvida várias cenas com a duquesa Naomi. Desde o "chá" depois do jantar, passando por um copo de água matinal até à sensualidade provocadora de Naomi, no quarto da filha, de perna esticada e sapato castrador. Pensando bem, só a capacidade de conseguir aquela versão de Margot Robbie era quase suficiente para colocar Belfort nestes lugares cimeiros. Mas isso fica só entre nós.
    Para além de todas essas cenas, há duas que são especiais: os discursos "Pick up the phone and start dialing!" e "I'm Not Fucking Leaving!". Fotografias perfeitas da personagem, da ambição, da capacidade de saber vender e da sua liderança contagiante. Dois longos discursos para os quais daqui a uns anos poderemos olhar e ver a materialização precoce da (futura) lenda Leonardo DiCaprio.

    É claro como a água que os comportamentos, vícios e esquemas de Belfort eram desprezíveis, mas DiCaprio (outro grande pormenor o facto da personagem falar várias vezes connosco na primeira pessoa) fez o Lobo uivar de uma forma viciante. 
    Este Lobo é o filme não-pornográfico em que mais vezes é dita a palavra fuck (569), perdendo apenas para um documentário sobre a palavra em si. Basicamente, quase tudo no filme é ilegal, mas se me perguntarem se é legítimo vibrar com este Belfort de DiCaprio?
    Absolutely fucking yes.  
 
    
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