Balanço Final - Liga NOS 18/ 19

A análise detalhada ao campeonato em que houve um antes e um depois de Bruno Lage. Em 2018/ 2019 houve Reconquista.

Prémios BPF Liga NOS 2018/ 19

Portugal viu um médio carregar sozinho o Sporting, assistiu ao nascer de um prodígio, ao renascer de um suiço, sagrando-se campeão quem teve um maestro e um velocista.

Balanço Final - Premier League 18/ 19

Na melhor Liga do mundo, foram 98 contra 97 pontos. Entre citizens e reds, entre Bernardo Silva e van Dijk, ninguém merecia perder.

Os Filmes mais Aguardados de 2019

Em 2019, Scorsese reúne a velha guarda toda, Brad Pitt será duplo de Leonardo DiCaprio, Greta Gerwig comanda um elenco feminino de luxo, Waititi será Hitler, e Joaquin Phoenix enlouquecerá debaixo da maquilhagem já usada por Nicholson ou Ledger.

21 Novas Séries a Não Perder em 2019

Renasce The Twilight Zone, Ryan Murphy muda-se para a Netflix, o Disney+ arranca com uma série Star Wars e há ainda projectos de topo na HBO e no FX.

Mostrar mensagens com a etiqueta Televisão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Televisão. Mostrar todas as mensagens

3 de fevereiro de 2024

As Melhores Séries de 2023

Apresentados os melhores episódios e as melhores novidades, despedimo-nos do melhor da Televisão em 2023 com a categoria das categorias: as Melhores Séries do ano.

    Há um ano atrás, o nosso Top-20 (este ano temos um Top-10) incluía Better Call Saul, Severance, Stranger Things ou My Brilliant Friend. Mais de 365 dias depois, a medalha de prata fica entregue pelo 2.º ano consecutivo à mesma série, que tal como há um ano perde para a temporada final de um colosso televisivo.
    
    A nossa dezena de escolhidos mesclam 6 séries que já por cá andavam (quatro das quais disseram Adeus em 2023 e vão deixar muitas saudades) e 4 novidades - uma mini-série, duas séries com mais temporadas para crescer e uma série cujo futuro ainda é algo incógnito, podendo transformar-se num formato de antologia).

    2024 trará de volta Severance, Stranger Things, Industry, Hacks, House of the Dragon, Andor e True Detective (já leva 3 episódios), e variadíssimas novidades sobre as quais muitas ainda nem fazemos ideia.

    Apresentam-se então as 10 Melhores Séries de 2023, um ano com menos oferta mas com um Top-4 de luxo:


1. Succession (HBO), criado por Jesse Armstrong

(93) - I love you, but you are not serious people. O fim de Succession (agora sim, podemos afirmar que é uma das 3 melhores séries de sempre da HBO) cimentou Jesse Armstrong como mestre em construir momentos inesquecíveis, ágil fotógrafo da linguagem afetiva tão própria entre família, e autor realista na execução do desfecho.
    Em Succession, houve um antes e um depois de "Connor's Wedding", o nosso episódio do ano de 2023. 
    Jeremy Strong, Sarah Snook e Kieran Culkin foram aos limites das suas capacidades como intérpretes e, até acompanharmos Kendall na sua caminhada final ao som do brilhante Andante Risoluto de Nicholas Britell, houve: elogios fúnebres para ver e rever; mixórdias a altas horas da noite pelas mãos de 3 irmãos de fato de gala embora com nódoas inocentes para sempre; sacrifício da Democracia para proveito próprio; duas mãos na parte de trás de um carro, desconfortáveis e performativas; uma testa com uma ferida carregada num abraço e outra reclamada como propriedade num círculo roxo; e um testamento com uma dúvida para sempre, o nome de Kendall Roy sublinhado ou riscado (um dos pormenores mais geniais nas séries dos últimos anos).
    A série que conseguiu ser ao mesmo tempo 100% comédia e 100% drama resumiu-se num cru We are bullshit (...) We're nothing, sucedâneo daquele imortal e tão certeiro He made you a playground, and you think it's a whole world.
    Depois de Better Call Saul (2022 e 2020), Mr. Robot (2019 e 2017) e Atlanta (2018), Sucession volta ao lugar que já fora seu aqui no BPF em 2021, o de Melhor Série do Ano.

2. The Bear (FX on Hulu), criado por Christopher Storer

(92) - The Bear foi a série da qual retirámos mais prazer em 2023, não sendo no entanto a mais perfeita ou que manteve a fasquia mais alta durante mais tempo. Apenas um ano depois da sua estreia absoluta, a série do FX (disponível no Disney+ em Portugal), vencedora de múltiplos Emmys e globos de ouro, passou com distinção no sempre difícil teste da 2.ª temporada.
    Christopher Storer, sempre coadjuvado por Joanna Calo, congelou Carmy para expandir o universo da série e fazer evoluir personagens à sua volta como Sydney e Richie.
    Metaforizada na procura de propósito ou vocação do rapaz sem cor, apenas apaixonado por comboios, de Haruki Murakami, The Bear continuou elétrica, enervante e inspiradora, caprichando no empratamento para nos arrebatar como comida de conforto.
    Jamie Lee Curtis, Olivia Colman, Sarah Paulson, Bob Odenkirk e Will Poulter foram alguns dos atores convidados numa temporada em que os episódios 6 e 7, "Fishes" e "Forks", captaram num profundo contraste tudo aquilo que a série consegue fazer o espectador sentir.
    Foi a nossa medalha de prata em 2022 e 2023, e por isso acreditamos que quando voltar será para se estabelecer em definitivo acima de toda a concorrência.

3. Scavengers Reign (HBO Max), criado por Joseph Bennett e Charles Huettner

(89) - A nossa Nova Série preferida do ano é uma autêntica obra-prima de animação, um tesourinho por descobrir para grande parte do público. Scavengers Reign provoca inicialmente uma intencional sensação de estranheza, mas não demora a afirmar-se como uma série de consumo obrigatório para todos os fãs de boa televisão, hábil no entendimento da Natureza, da humanidade e da arte de contar uma boa história.
    Alguém escreveu online que é uma fusão entre Annihilation com o maravilhoso mundo visual do nipónico Hayao Miyazaki, uma descrição sem dúvida acertada.
    Nenhuma série valorizou e respeitou tanto o espectador este ano como Scavengers Reign, apresentando paulatinamente um planeta do zero e introduzindo-nos à sua diferenciada Biologia. Ficção científica ao mais alto nível, inteligente, viciante, belíssima em todos os planos, para contemplar e interpretar.

4. The Last Of Us (HBO), criado por Neil Druckmann e Craig Mazin

(85) - Parece já tão distante (esteve no ar entre Janeiro e Março de 2023), mas ainda nos lembramos da pica que todas as segundas-feiras passaram a ter por haver novo episódio de The Last Of Us para ver, sensação que só teve par na sempre aguardada despedida de Succession.
    A nova grande série da HBO não tinha vida fácil à priori, mas convenceu tudo e todos de forma consensual. Craig Mazin manteve o nível alto depois de Chernobyl e Neil Druckmann provou a sua capacidade multi-plataforma, semeando pormenores para os fãs do jogo, mas sabendo como e quando fazer crescer o universo da história, sem nunca desrespeitar o material original.
    A história de Bill e Frank foi um dos pontos altos de 2023, Pedro Pascal esteve soberbo (um trabalho incrível, maioritariamente em pequenos apontamentos) e Bella Ramsey deu uma chapada de luva branca a todos aqueles que torceram o nariz ao seu casting.

5. Barry (HBO), criado por Bill Hader e Alec Berg

(84) - Nas suas 4 temporadas, Barry teve em duas (a segunda, em 2019, e esta última em 2023) a porventura ingrata posição de ser o episódio que a HBO emitia logo depois de um dos episódios das temporadas finais de Game of Thrones (2019) e Succession (2023). Por mérito de Bill Hader, aconteceu o melhor de dois mundos: em 2019, a desilusão de GoT fez sobressair Barry, com o melhor exemplo a 29 de Abril desse ano quando "The Long Night" foi ofuscado por "ronny/lily"; e em 2023 os fãs de ambas as séries colaram os finais de Barry e Succession, despedindo-se com dificuldade dupla e misturando sentimentos a 29 de Maio.
    Mais sério do que nunca antes (os gags humorísticos, quando aconteceram, tiveram assim ainda mais impacto pelo contraste), Barry terminou com ajustes de contas entre gangues rivais, entrelaçou com mestria os caminhos da personagem principal com NoHo Hank, Fuches e Cousineau e surpreendeu num salto temporal, um isolamento com Sally que durante algum tempo pareceu mera ilusão.
    "wow" contribuiu com ironia para uma série em que pudemos ver Bill Hader a crescer como autor, experimentando e conseguindo um objeto artístico que, aqui e ali, teve coisas de Breaking Bad/ Better Call Saul.

6. Dave (FXX), criado por Dave Burd e Jeff Schaffer

(83) - Presença constante nos nossos Tops de séries do ano (2º lugar nas Novas Séries de 2020 e 3º lugar nas Melhores Séries de 2021), Dave voltou com argumentos de peso, incluindo algumas participações especiais impensáveis demonstrativas do respeito que Dave Burd alcançou no meio.
    No geral, a jornada do rapper Lil Dicky ficou quase no mesmo ponto em que estava no final da 2.ª temporada, mas Robyn (Chloe Bennet) foi uma lufada de ar fresco - hipoteticamente condenada a ser o enésimo erro do protagonista - e a ida ao Met Gala com um fato pronto a insuflar a qualquer instante foi um belo pedacinho indutor de ansiedade.
    Se à terceira temporada, Dave conseguiu Brad Pitt, Rachel McAdams e Drake... não nos atrevemos a arriscar que cameos conseguirá da próxima vez em que o rapper neurótico pegar num microfone para nos dar grandes êxitos como "I Met A Girl" ou "Mr. McAdams".

7. Beef (Netflix), criado por Lee Sung Jin

(83) - Quase todos os anos uma série Netflix (seja Squid Game ou The Hunting of Hill House) emerge súbita e instantemente, protagonizando sucessivos tópicos do Reddit, tornando-se a série que todos os amigos nos recomendam e quase obrigando a que a devoremos em três tempos.
    Beef foi o fenómeno da Netflix em 2023. Estilisticamente rica e com ótimos papéis de Steven Yeun (a cena na igreja ao som de "O Come to the Altar" foi dos momentos mais emocionantes do ano) e Ali Wong (boa surpresa neste registo), a rixa ou desaguisado entre dois condutores de classes sociais bem diferentes, escalada imparável de competição e vingança, foi uma excelente fotografia de uma sociedade em panela de pressão, de ambição sem propósito e infelicidade reprimida. Danny e Amy desafiaram o espectador a empatizar com os dois lados, e num buzinão desmedido agitaram a televisão em 2023.
    Não faz sentido a Netflix renovar Beef, exceto se optar por transformá-la numa série de antologia.

8. Ted Lasso (Apple TV+), criado por Jason Sudeikis, Bill Lawrence, Brendan Hunt e Joe Kelly

(82) - O nosso Top deste ano inclui 6 séries repetentes, 4 das quais se despediram em definitivo. Dessas (Succession, Barry, Ted Lasso e Reservation Dogs) a série de Jason Sudeikis deixa uma mágoa distinta por ser a única que podia perfeitamente continuar, jamais aparentando estar a fazer render o peixe.
    A história do treinador norte-americano no AFC Richmond, entre Premier League e Championship, começou em 2020 e foi sempre uma das melhores terapias televisivas. Os trocadilhos de Ted, a personalidade carismática de Rebecca, o mau feitio de Roy Kent, o sorriso de Sam, o otimismo de Dani Rojas e a arrogância de Jamie foram titulares indiscutíveis numa série que, em equipa, deu palco para cada qual brilhar na sua vez e à sua maneira.
    Guardaremos desta temporada o bromance entre Jamie Tartt (fantástico arco ao longo das 3 temporadas) e Roy, aquele vídeo "motivacional" ao som de Ed Sheeran, o futebol total, uma noite em Amesterdão e a empatia do balneário com Colin. Fica a sensação que houve um certo desnorte no tratamento de Keeley e foi positivo assistir à redenção de Nathan, embora pudesse ter sido menos acelerada se a série durasse mais uma ou duas temporadas.

9. Reservation Dogs (FX on Hulu), criado por Sterlin Harjo e Taika Waititi

(82) - A comédia intimista sobre quatro amigos nativo-americanos, à procura de fazer o luto depois da perda do 5.º membro dos 'Rez Dogs' de Oklahoma, foi uma despedida melancólica, capaz de cimentar a série de Harjo e Waititi como uma das mais consistentes dos últimos anos neste género.
    Apesar do clímax da série ter sido aquele mágico e fugaz encontro a 5 no mar na season finale de 2022, Reservation Dogs escolheu dizer adeus com uma dolorosa viagem às origens da Deer Lady, recuou no tempo para um gangue doutra época em "House Made of Bongs" e resolveu o mistério sobre o pai de Elora, recrutando Ethan Hawke para uma participação bem ao seu jeito.
    Ficam as saudades e a sensação que os autores entenderam o momento certo para sair de cena. Estaremos atentos ao futuro destes 4 jovens atores.

10. The Curse (Showtime), criado por Nathan Fielder e Benny Safdie

(80) - Uma parceria de Nathan Fielder (The Rehearsal, Nathan For You) e Benny Safdie (Good Time, Uncut Gems) ter-nos-ia sempre como ávidos espectadores em primeira fila, mais ainda com Emma Stone no papel principal. E correspondeu às expectativas.
    A série com o final mais surreal de 2023 apostou no realismo, nos silêncios desconfortáveis e nos contrastes da sociedade para mergulhar no mundo dos bastidores da Reality TV, iludindo com uma ideia de paródia para ir bem mais além, em ousadia e altitude.
    The Curse é uma série de nicho, para um público paciente e que não precisa de estímulos constantes; é das que pede digestão entre episódios, ora descarada ora subtil, diferente de tudo o que há e porventura influenciadora para próximas gerações.
    Que Fielder e Safdie voltem a colaborar, e que Emma Stone abrace mais projetos televisivos.


31 de janeiro de 2024

As Melhores Novas Séries de 2023

Identificados os melhores episódios do ano, prosseguimos a nossa análise a 2023 com aquelas que foram para nós as Melhores Novas Séries.

    Em 2023, verificaram-se sobretudo dois novos super-fenómenos que num ápice se tornaram consumo obrigatório para os aficionados de séries: o encontro semanal com o pós-pandemia de The Last Of Us e o bingewatch compulsivo de Beef na Netflix. No geral, e com muitas produções em águas de bacalhau devido aos protestos no setor nos EUA, acabámos por descobrir menos séries novas, o que nos faz optar por apenas 10 e não 17 como no ano anterior.
    Há um ano atrás tínhamos aqui The Bear, Severance (uma das séries adiada pela greve), Andor ou The House of Dragon, bem como uma série de Nathan Fielder, que um ano depois marca novamente presença como autor/ criador... mas com um bebé diferente.
    I'm A Virgo, A Murder at the End of the World e Dear Child foram alguns dos exemplos de novas séries que vimos mas sem as achar suficientemente marcantes para aqui constar, e temos consciência que uma das 10 séries abaixo apresentadas é uma escolha (muito) polémica. No pódio, duas séries HBO e uma Netflix. 

    Justificamos desta maneira as nossas 10 Melhores Novas Séries de 2023:


1. Scavengers Reign (HBO Max)
Criado por: Joseph Bennett Charles Huettner
Elenco: Sunita Mani, Wunmi Mosaku, Bob Stephenson, Ted Travelstead, Alia Shawkat
IMDb: 8.7 | Rotten Tomatoes: 100% | Metascore: 84

    A série que sucede a The Bear como a nossa Nova Série preferida do ano é uma autêntica obra-prima de animação, um tesourinho por descobrir para grande parte do público. Scavengers Reign provoca inicialmente uma intencional sensação de estranheza, mas não demora a afirmar-se como uma série de consumo obrigatório para todos os fãs de boa televisão, hábil no entendimento da Natureza, da humanidade e da arte de contar uma boa história.
    Alguém escreveu online que é uma fusão entre Annihilation com o maravilhoso mundo visual do nipónico Hayao Miyazaki, uma descrição sem dúvida acertada.
    Nenhuma série valorizou e respeitou tanto o espectador este ano como Scavengers Reign, apresentando paulatinamente um planeta do zero e introduzindo-nos à sua diferenciada Biologia. Ficção científica ao mais alto nível, inteligente, viciante e belíssima em todos os planos.

2. The Last Of Us (HBO)
Criado por: Neil Druckmann, Craig Mazin
Elenco: Pedro Pascal, Bella Ramsey, Anna Torv, Nick Offerman, Murray Bartlett
IMDb: 8.8 | Rotten Tomatoes: 96% | Metascore: 84

    Parece já tão distante (esteve no ar entre Janeiro e Março de 2023), mas ainda nos lembramos da pica que todas as segundas-feiras passaram a ter por haver novo episódio de The Last Of Us para ver, sensação que só teve par na sempre aguardada despedida de Succession.
    A nova grande série da HBO não tinha vida fácil à priori, mas convenceu tudo e todos de forma consensual. Craig Mazin manteve o nível alto depois de Chernobyl e Neil Druckmann provou a sua capacidade multi-plataforma, semeando pormenores para os fãs do jogo, mas sabendo como e quando fazer crescer o universo da história. sem nunca desrespeitar o material original.
    A história de Bill e Frank foi um dos pontos altos de 2023, Pedro Pascal esteve soberbo (um trabalho incrível, maioritariamente em pequenos apontamentos) e Bella Ramsey deu uma chapada de luva branca a todos aqueles que torceram o nariz ao seu casting.

3. Beef (Netflix)
Criado por: Lee Sung Jin
Elenco: Steven Yeun, Ali Wong, Joseph Lee, Young Mazino, David Choe
IMDb: 8.0 | Rotten Tomatoes: 98% | Metascore: 86

    Já todos sabemos como é. Quase todos os anos uma série Netflix (seja Squid Game ou The Hunting of Hill House) emerge súbita e instantemente, protagonizando sucessivos tópicos do Reddit, tornando-se a série que todos os amigos nos recomendam e quase obrigando a que a devoremos em três tempos.
    Beef foi o fenómeno da Netflix em 2023. Estilisticamente rica e com ótimos papéis de Steven Yeun (nunca desilude) e Ali Wong (boa surpresa neste registo), a rixa ou desaguisado entre dois condutores de classes sociais bem diferentes, escalada imparável de competição e vingança, foi uma excelente fotografia de uma sociedade em panela de pressão, de ambição sem propósito e infelicidade reprimida. Danny e Amy desafiaram o espectador a empatizar com os dois lados, e num buzinão desmedido agitaram a televisão em 2023.
    Não faz sentido a Netflix renovar Beef, exceto se optar por transformá-la numa série de antologia.

4. The Curse (Showtime)
Criado por: Nathan Fielder, Benny Safdie
Elenco: Emma Stone, Nathan Fielder, Benny Safdie, Barkhad Abdi
IMDb: 7.1 | Rotten Tomatoes: 94% | Metascore: 76

    Uma parceria de Nathan Fielder (The Rehearsal, uma das séries que destacámos em 2022) e Benny Safdie (Good Time, Uncut Gems) ter-nos-ia sempre como ávidos espectadores em primeira fila, mais ainda com Emma Stone no papel principal. E correspondeu às expectativas.
    A série com o final mais surreal de 2023 apostou no realismo, nos silêncios desconfortáveis e nos contrastes da sociedade para mergulhar no mundo dos bastidores da Reality TV, iludindo com uma ideia de paródia para ir bem mais além, em ousadia e altitude.
    The Curse é uma série de nicho, para um público paciente e que não precisa de estímulos constantes; é das que pede digestão entre episódios, ora descarada ora subtil, diferente de tudo o que há e porventura influenciadora para próximas gerações.
    Que Fielder e Safdie voltem a colaborar, e que Emma Stone abrace mais projetos televisivos.

5. Swarm (Amazon Prime Video)
Criado por: Janine Nabers, Donald Glover 
Elenco: Dominique Fishback, Chloe Bailey, Damson Idris, Billie Eilish, Rory Culkin
IMDb: 7.2 | Rotten Tomatoes: 87% | Metascore: 66

    Com o sempre brilhante Donald Glover a apoiar a visão de Janine Babers (produtora de Atlanta ou Watchmen), Swarm é uma daquelas mini-séries que pode envelhecer como série de culto. Com um tema interessante - a obsessão de uma fã com uma estrela pop, numa evidente alusão aos fãs de Beyoncé - e uma abordagem psicadélica e gore, Swarm provou que Dominique Fishback é uma atriz destinada aos mais altos voos, mostrando ainda a versatilidade artística de Billie Eilish.

6. Jury Duty (Amazon Freevee)
Criado por: Lee Eisenberg, Gene Stupnitsky
Elenco: Ronald Gladden, James Marsden, Cassandra Blair, Trisha LaFache, Kirk Fox, Mekki Leeper
IMDb: 8.2 | Rotten Tomatoes: 82% | Metascore: 51

    Jury Duty terá sido a série genuinamente mais cómica de 2023. Simples e absurda, executou o seu conceito com o espectador como cúmplice num julgamento de fachada - a série da Amazon acompanhou um caso falso, sempre levado ao limite, com 12 jurados a deliberar, sendo 11 deles atores contratados (e sim, um deles James Marsden, de X-Men ou Westworld) e 1 um inocente participante (foco a 100% da série) que pensa que tudo é real.

7. Shrinking (Apple TV+)
Criado por: Bill Lawrence, Jason Segel, Brett Goldstein
Elenco: Jason Segel, Jessica Williams, Harrison Ford, Luke Tennie, Lukita Maxwell, Christa Miller
IMDb: 8.0 | Rotten Tomatoes: 91% | Metascore: 68

    No ano do aparente Adeus de Ted Lasso, Bill Lawrence e Brett Goldstein (hoje em dia mais conhecido como Roy Kent) transferiram-se para o escritório de um psicólogo a fazer o seu luto e que decide começar a dizer a todos os seus pacientes tudo aquilo que realmente pensa. Com Jason Segel como o protagonista perfeito para esta amálgama de humor, sofrimento contido e imprevisibilidade leve, Shrinking revelou-se um adequado herdeiro de Ted Lasso na capacidade de oferecer 30 minutos semanais reconfortantes, sem se levar demasiado a sério. E sim, Harrison Ford roubou todas as cenas em que entrou.

8. Vai Correr Tudo Bem (Youtube)
Criado por: Guilherme Geirinhas
Elenco: Guilherme Geirinhas, Sofia Vilar, Diogo Batáguas
IMDb: 8.1 | Rotten Tomatoes: -- | Metascore: --

    2024 já tem Matilha, spin-off de Sul na RTP 1, mas em 2023 a melhor e mais criativa produção nacional morou no Youtube. Em Novembro e Dezembro (o quinto e último episódio, "Um Conto de Natal", foi disponibilizado a 25/12), o humorista e autor Guilherme Geirinhas desabafou em 5 capítulos o que lhe vai na alma, numa desconstrução hiperconsciente - a tal "auto-referencialidade e meta-ficção" - da fina linha entre o sujeito e o seu objeto, o eu público e o eu privado, a pressão das redes sociais e a descompressão de criar com uma voz original.
    Geirinhas (não Duarte nem Fonseca) "matou" Ricardo Araújo Pereira, numa série pontuada com participações especiais inesperadas e que confirma que todos os membros originais dos Bumerangue têm coisas para deitar cá para fora, com bom gosto na forma e no conteúdo.

9. Strange Planet (Apple TV+)
Criado por: Nathan W. Pyle, Dan Harmon
Elenco: Tunde Adebimpe, Demi Adejuyigbe, Hannah Einbinder, Danny Pudi
IMDb: 6.4 | Rotten Tomatoes: 81% | Metascore: 68

    As deliciosas vinhetas de Strange Planet, super populares no Instagram, ganharam vida no pequeno ecrã este ano, com o autor Nathan W. Pyle a colaborar com Dan Harmon (Rick and Morty). Captar a essência da BD e o carácter enigmático e existencialista dos educados seres azuis não era fácil, e a série da Apple TV+ não foi brilhante nem de consumo obrigatório, mas foi um bom analgésico, sorridente e sempre de copo meio cheio, num mundo tantas vezes cinzento.

10. The Idol (HBO)
Criado por: Sam Levinson, Abel Tesfaye, Reza Fahim
Elenco: Lily-Rose Depp, The Weeknd, Suzanna Son, Troye Sivan, Rachel Sennott, Moses Sumney, Da'Vine Joy Randolph, Hank Azaria
IMDb: 4.4 | Rotten Tomatoes: 19% | Metascore: 27

    O que é que faz uma das séries com pior avaliação de 2023 no nosso Top 10 de Novas Séries?! Vamos por partes. The Idol foi efetivamente uma desprezível plataforma para Sam Levinson e The Weeknd explorarem as suas fantasias pessoais numa mega-produção; foi uma das séries mais cringe do ano com uma das piores performances dos últimos anos (The Weeknd) e é fácil perceber o porquê de ter virado chacota do público, originando apreciações destrutivas da Crítica e levando muitos espectadores a saltarem do barco a meio.
    No entanto, a série de Verão da HBO deixou marcas (banda sonora eficaz, fotografia cuidada e um incrível desempenho de Lily-Rose Depp no meio do caos), custando assistir a tanto potencial frustrado e desperdiçado. The Weeknd devia ter-se cingido à sua especialidade, não sujando uma boa premissa com o seu input tóxico e autocentrado, Sam Levinson devia ter inibido o seu ego machista e percebido que a série pedia uma realizadora, e nada foi mais nojento e desrespeitoso nas séries em 2023 do que assistir no fim de "Jocelyn Forever" ao nome de Abel Tesfaye a surgir no créditos primeiro do que Lily-Rose Depp.
    Numa realidade paralela, The Idol podia ter sido sem esforço uma das 3 séries do ano, caso abraçasse um verdadeiro arco de libertação para a protagonista ou explorasse melhor o subplot do trauma de uma estrela pop "espremida" e condicionada desde criança. Na realidade que temos, foi uma série muitas vezes ridícula e quase sempre desconfortável, (quase) salva pelo brilho de uma atriz a transcender-se.


25 de janeiro de 2024

Os Melhores Episódios de Séries em 2023

Antes de destacarmos as Melhores Novas Séries e as Melhores Séries, o nosso olhar sobre a televisão em 2023 inicia-se, como habitualmente, com os Melhores Episódios.

    Porque somos proporcionalmente malucos, organizados e devotos a enaltecer aquilo que melhor se faz em Televisão, apontámos ao longo do último ano os capítulos mais marcantes das séries às quais assistimos. 2023 ficou marcado pelas greves e movimentos sindicalistas por parte de argumentistas e atores, uma realidade que acabou por congelar muitas produções e adiar conteúdos para 2024. Também em consequência disso, da média de 50 séries que costumamos consumir por ano, em 2023 vimos pouco mais de 30, e optámos por, em conformidade, "emagrecer" também o número de episódios (40 para 25), novas séries e séries (17 e 20 respetivamente para 10 em ambos os casos) em destaque.

    Em 2023, o pico mediático audiovisual foi o final de Succession. Além da tragicomédia da HBO de Jesse Armstrong, também nos despedimos de Barry, Reservation Dogs e Ted Lasso. Uma adaptação de um popular videojogo e uma série de animação com tudo para transformar-se em série de culto deram os seus primeiros passos, e The Bear amadureceu, oferecendo uma super-temporada logo no ano seguinte à estreia. 
    Se compararmos os 10 melhores episódios deste ano com os 10 que destacámos em 2022, apenas The Bear é repetente. Nos 25 capítulos que selecionámos, estão representadas 14 séries diferentes. O fim de Succession (4 dos 10 episódios da temporada final estão aqui) lidera nas presenças, seguido por The Bear, The Last Of Us e Reservation Dogs (3), bisando Scavengers Reign e Black Mirror.  

    Profunda originalidade, um clímax de topo, um adeus que ficará na memória para sempre ou a fotografia perfeita da essência ou tom de uma série são alguns dos motivos por trás destas 25 escolhas.

    De 2023 guardaremos a ternura e melancolia do envelhecer de Bill e Frank numa pandemia, uma participação especial de Brad Pitt num episódio criativo, hilariante e tenso, os dramáticos abusos sofridos por indígenas nas escolas norte-americanas, o surrealismo da gravidade zero de Nathan Fielder em dia de parto, e a beleza em 2 minutos da evolução do universo numa obra-prima de animação. E mais que tudo, o encontrar de um propósito ao som de Taylor Swift, um jantar de Natal enervante mas delicioso, os vários elogios fúnebres a Logan Roy, um abraço a três depois do luto de uma morte em altitude e relatada por telefone, e a infantilidade da eterna juventude de quem tem um irmão ou uma irmã, culminada numa caminhada solitária, mas acompanhada por um Andante Risoluto nas suas notas finais, um segurança como fantasma do erro e do falhanço, e a água, sempre a água, mesmo ali.

    Em 2023 agradecemos a estes 25 episódios:


1. Succession - 4.03 - Connor's Wedding
Realizado por: Mark Mylod, Escrito por: Jesse Armstrong

2. The Bear - 2.07 - Forks
Realizado por: Christopher Storer, Escrito por: Alex Russell

3. Succession - 4.10 - With Open Eyes
Realizado por: Mark Mylod, Escrito por: Jesse Armstrong

4. The Bear - 2.06 - Fishes
Realizado por: Christopher Storer, Escrito por: Christopher Storer, Joanna Calo

5. The Last Of Us - 1.03 - Long, Long Time
Realizado por: Peter Hoar, Escrito por: Craig Mazin

6. Succession - 4.09 - Church and State
Realizado por: Mark Mylod, Escrito por: Jesse Armstrong

7. The Curse - 1.10 - Green Queen
Realizado por: Nathan Fielder, Escrito por: Nathan Fielder, Benny Safdie
*episódio emitido a 12 de Janeiro de 2024, mas que incluímos no último ano uma vez que 8 dos 10 episódios de The Curse foram para o ar nesse ano

8. Scavengers Reign - 1.12 - The Reunion
Realizado por: Vincent Tsui, Benjy Brooke, Escrito por: Sean Buckelew

9. Dave - 3.10 - Looking for Love
Realizado por: Kitao Sakurai, Escrito por: Dave Burd

10. Reservation Dogs - 3.03 - Deer Lady
Realizado por: Danis Goulet, Escrito por: Sterlin Harjo

11. The Bear - 2.10 - The Bear
Realizado por: Christopher Storer, Escrito por: Kelly Galuska

12. Black Mirror - 6.03 - Beyond the Sea
Realizado por: John Crowley, Escrito por: Charlie Brooker

13. Succession - 4.08 - America Decides
Realizado por: Andrij Parekh, Escrito por: Jesse Armstrong

14. Reservation Dogs - 3.09 - Elora's Dad
Realizado por: Sterlin Harjo, Escrito por: Devery Jacobs

15. Beef - 1.09 - The Great Fabricator
Realizado por: Jake Schreier, Escrito por: Lee Sung Jin

16. Swarm - 1.04 - Running Scared
Realizado por: Ibra Ake, Escrito por: Ibra Ake, Stephen Glover

17. Barry - 4.08 - wow
Realizado por: Bill Hader, Escrito por: Bill Hader

18. The Last Of Us - 1.08 - When We Are In Need
Realizado por: Ali Abbasi, Escrito por: Craig Mazin

19. Black Mirror - 6.02 - Loch Henry
Realizado por: Sam Miller, Escrito por: Charlie Brooker

20. The Last Of Us - 1.09 - Look for the Light
Realizado por: Ali Abbasi, Escrito por: Neil Druckmann, Craig Mazin

21. Ted Lasso - 3.12 - So Long, Farewell
Realizado por: Declan Lowney, Escrito por: Jason Sudeikis, Brendan Hunt, Joe Kelly

22. Invincible - 2.04 - It's Been a While
Realizado por: Jason Zurek, Dan Duncan, Escrito por: Helen Leigh

23. Reservation Dogs - 3.10 - Dig
Realizado por: Sterlin Harjo, Escrito por: Sterlin Harjo, Chad Charlie

24. Vai Correr Tudo Bem - 1.04 - RIP RAP
Realizado por: Gonçalo Miranda, Guilherme Geirinhas, Escrito por: Guilherme Geirinhas, Rogério Casanova

25. Scavengers Reign - 1.06 - The Fall
Realizado por: Diego Porral, Benjy Brooke, Escrito por: James Merrill







11 de janeiro de 2023

As Melhores Séries de 2022

 Avaliados os melhores episódios e as melhores novidades, despedimo-nos do melhor da Televisão em 2022 com a categoria suprema: as Melhores Séries do ano.

    Há um ano atrás, este Top-20 incluía, para nomear alguns destaques, Succession, Dave, For All Mankind, Ted Lasso e séries estreadas nesse ano como Arcane, Station Eleven ou Squid Game. Uma volta ao Sol depois, são 4 as séries que fizeram por merecer presença repetida: Reservation Dogs, The White Lotus, Hacks e For All Mankind.
    Num ano sem a dramédia da família Roy, nada nos marcou mais do que o final de Better Call Saul, dividido em duas partes (ou três, se considerarmos o epílogo a preto e branco uma espécie de pós-BCS), tendo 2022 significado igualmente o fim de Atlanta, com a 3.ª temporada a ser emitida em Março-Abril-Maio e a 4.ª em Setembro-Outubro-Novembro. The Bear foi a surpresa do Verão, Severance (brilhante conceito) um novo puzzle com muitas teorias para alimentar nos próximos anos, e felizmente House of the Dragon trouxe de volta aquele quentinho perdido desde o término de Game of Thrones.
    Oito novidades e 12 séries consolidadas compõem a nossa Lista, com dois pormenores raros - fraca presença Netflix (apenas Stranger Things e Love, Death & Robots, caindo para metade a representatividade do gigante do streaming nas nossas escolhas) e uma só mini-série (We Own This City), algo bem diferente da edição de 2021, que só no Top-10 teve 4 mini-séries.

    Apresentam-se então as 20 Melhores Séries de 2022:


1. Better Call Saul (AMC), criado por Vince Gilligan e Peter Gould

(94) - E no fim, agora com o devido distanciamento e com a moldura completa podemos dizer: Better Call Saul foi muito diferente de Breaking Bad, mas também foi (tangencialmente) melhor.
     O fim da linha para Jimmy McGill foi o remate perfeito de Gilligan e Gould para um universo de personagens nascido no ecrã em Janeiro de 2008. Saul dividiu-se em duas partes, mantendo a cores a adrenalina do engano e a justiça moral de chico-espertos imorais toldados pela diversão do golpe, e tingiu a preto e branco um epílogo romântico de arrependimento, fato platinado em tribunal e revólveres fictícios prontos a disparar pela última vez.
    Rhea Seehorn como Kim Wexler é o melhor desempenho de todos os tempos de uma atriz numa série televisiva. 

2. The Bear (FX on Hulu), criado por Christopher Storer

(90) - Yes, Chef! Eis a melhor série estreada em 2022 para o Barba Por Fazer. The Bear é uma panela sob pressão, é uma cozinha stressada ao som de jazz, é água bebida de um tupperware e uma constante procura por respostas, apenas disponíveis em polpa de tomate.
    The Bear é uma família de colegas de trabalho, é um irmão em luto, é Pearl Jam, Sufjan Stevens e, por fim, Radiohead. Com muita simplicidade na receita, e um incrível Jeremy Allen White como Carmy, a série de Verão de Christopher Storer preencheu-nos como nenhuma outra das novidades do ano.

3. Severance (Apple TV+), criado por Dan Erickson

(88) - No papel, a ideia de Dan Erickson tinha tudo para resultar em algo genial: Mark (Adam Scott) e os seus colegas de trabalho desempenham funções numa empresa misteriosa, sujeitando-se a um procedimento cirúrgico capaz de separar por completo o seu "eu" privado e profissional. Quando estão no trabalho, não têm memórias da sua vida exterior; quando estão fora do trabalho, desconhecem em absoluto o que fizeram no horário de expediente.
    Na prática e no ecrã, a ideia de Dan Erickson saiu ainda melhor do que as mais confiantes previsões. Com Ben Stiller a realizar 6 dos 9 episódios, Severance (demora uns episódios a agarrar, mas compensa com a intriga progressiva, num puzzle inteligente que abre uma porta com um novo ponto de interrogação à medida que fecha outra) tornou-se a nova jóia da coroa da Apple TV+, superando For All Mankind e Ted Lasso, e acreditamos que durante as próximas temporadas, Severance se torne uma das séries mais respeitadas no mundo, quer pela crítica quer pelo grande público.
    O nono "The We We Are", impróprio para cardíacos, foi o grande episódio de 2022.

4. My Brilliant Friend (HBO, Rai 1), criado por Saverio Costanzo

(86) - A adaptação dos contos napolitanos de Elena Ferrante continua a cimentar-se como uma das séries mais conhecedoras do ser humano, seja como fotografia da amizade, da inveja, do desejo ou do que é ser mulher.
    A passagem de testemunho, através de um espelho, de Margherita Mazzucco para Alba Rohrwacher foi uma das mais geniais revelações de novo casting de que temos memória.

5. Reservation Dogs (FX on Hulu), criado por Sterling Harjo e Taika Waititi

(85) - Herdeiro espiritual de Atlanta. Os Rez Dogs voltaram com a mesma sensibilidade, fazendo de um abraço entre quatro (e, por instantes, cinco) amigos à beira-mar um dos momentos mais emotivos da Televisão em 2022.

6. Barry (HBO), criado por Alec Berg e Bill Hader

(85) - Barry foi mais do que o exemplarmente bem executado e, convenhamos, inevitável twist do oitavo "starting now". A comédia sobre um assassino contratado torna-se, a cada episodio que passa, um drama mais e mais pesado; mas continuamos a ter perseguições à la GTA, um sábio conselheiro numa loja de beignets ou, como sempre, NoHo Hank.

7. Andor (Disney+), criado por Tony Gilroy

(84) - Honestamente, quando Andor foi anunciado pensámos que se trataria de apenas mais uma série Star Wars. Depois do sucesso de The Mandalorian e do relativo insucesso de Obi-Wan Kenobi, Tony Gilroy edificou o novo tesouro do Disney+ e a melhor criação SW desde a trilogia original.
    O começo da jornada de Cassian Andor (Diego Luna) de ladrão e mercenário até revolucionário colocou a cereja no topo do bolo do ano televisivo de 2022, com personagens tridimensionais e bem trabalhadas, uma maturidade temática, visuais estonteantes e novas camadas de política e espionagem a acordar um universo que, sem precisar de Skywalkers, Yodas ou sabres de luz, parece agora mais vivo e relevante do que nunca.

8. House of the Dragon (HBO), criado por Ryan J. Condal e George R. R. Martin

(83) - Já sentíamos falta daquela sensação de perigo constante ao fazer scroll na Internet à segunda-feira, podendo a cada esquina espreitar um spoiler. Game of Thrones, a série mais mediática dos últimos anos, saiu pela porta pequena, e também por isso não tínhamos grandes expectativas para o herdeiro House of the Dragon.
    A prequela foi uma das belas surpresas de 2022, brilhando no mais importante (o enredo) e dando uma lição na arte de construir e apresentar um novo universo de personagens. Tivemos dificuldade em não revirar os olhos perante alguma incoerência na disparidade de envelhecimento entre as personagens, mas foi com gosto que corremos a estudar a árvore genealógica Targaryen, matando saudades de episódios pouco iluminados mas épicos, de crianças que lutam até uma perder o olho ou dos céus cruzados por um dragãozinho e um dragãozão.

9. Stranger Things (Netflix), criado por The Duffer Brothers

(82) - Confessamos: desde a temporada 1 (2016) até à 3 (2019), Stranger Things foi-se tornando progressivamente menos apelativa e cada vez mais uma obrigação, colocando-se num frágil limbo à beira da jarra das séries de que desistimos a meio da viagem.
    E de repente, o conteúdo porta-estandarte da Netflix deu-nos à 4.ª vez a sua melhor temporada até à data. Com um novo fan favourite (Joseph Quinn como Eddie Munson) e uma total responsabilidade no renascimento da "Running Up That Hill" de Kate Bush no Spotify, Stranger Things fez tudo bem: voltou a revelar eficácia e bom gosto ao separar as personagens em diferentes grupos para os juntar no fim, montou com mestria as revelações sobre Vecna e o paciente 1, e até a opção de estrear 7 episódios em Maio, deixando os capítulos 8 e 9 para Julho foi uma decisão acertada.

10. The Rehearsal (HBO), criado por Nathan Fielder

(82) - Nathan Fielder é um dos autores mais fora da caixa dos nossos dias. Depois do sucesso de Nathan For You, da Comedy Central, o ator e humorista canadiano convenceu a HBO a apoiar as suas ideias com uma super-produção.
    The Rehearsal teve a sua origem num conceito simples: uma comédia/ documentário em que os participantes podem ensaiar ou preparar-se para determinados momentos da sua vida, não deixando nada ao acaso num mundo imprevisível. Quando parecia que este ensaio seria uma espécie de série de procedimento repetitiva, Fielder tirou-nos o tapete com uma matriosca existencialista, uma profunda reflexão sobre parentalidade.

11. Atlanta (FX), criado por Donald Glover

(81) - É um exercício complexo falar sobre o que foi Atlanta em 2022. Eleita Série do Ano pelo Barba Por Fazer no cada vez mais longínquo ano de 2018, a criação de Donald Glover voltou 4 (!) anos depois, e despediu-se em definitivo ao colocar na ar num só ano as temporadas 3 e 4.
    A comédia absurda, profundamente autoconsciente, original e satírica, apostou num compêndio de contos urbanos, marcantes embora algo desligados entre si.
    Despediu-se na interpretação do olhar de Darius (LaKeith Stanfield) tendo antes brilhado, bem ao seu estilo, numa paródia documental sobre "Pateta: O Filme".

12. The White Lotus (HBO), criado por Mike White

(80) - Em 2021, o Hawai; em 2022, a Sicília. A antologia de Mike White fez as malas para uma nova estância turística com histórias paralelas e novo casting privilegiado (F. Murray Abraham, Michael Imperioli, Aubrey Plaza, Haley Lu Richardson e Theo James) e a personagem Tanya (Jennifer Coolidge) como ponte entre as duas temporadas.
    Com White, o tradicional whodunit começa a ser substituído por um simples whodied, e mal podemos esperar pelo terceiro capítulo, à partida na Ásia, sucedâneo das semanas de férias sobre desigualdade de classes e infidelidade.

13. Hacks (HBO Max), criado por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky

(80) - Com a HBO Max a apostar numa disponibilização de 2 episódios por semana (boa opção face às características, duração e tom da série), Hacks manteve toda a sua habilidade no desenvolvimento da relação pessoal e profissional de Ava (Hannah Einbinder) e Deborah Vance (Jean Smart).
    Deu gosto ver a série na estrada, e aquele derradeiro "The One, The Only" - bem emotivo, no seu clímax - serviria igualmente bem como season finale ou series finale. Mas ainda bem que vamos ter 3.ª temporada.

14. Winning Time: The Rise of the Lakers Dinasty (HBO), criado por Max Borenstein e Jim Hecht

(79) - Entre as novas séries inspiradas por eventos reais, Winning Time merece a medalha de ouro. Adam McKay (realizador do episódio-piloto) introduziu uma distinta impressão digital em termos de estilo, com a alternância no "grão" da imagem, e o arranque da dinastia dos anos 80 dos LA Lakers contou com uma hábil forma de filmar desporto e uma astuta capacidade de colocar no ecrã o entusiasmo gerado pela revolução táctica.
    É magnífico ver Adrien Brody a emergir em segundo plano como Pat Riley, ajudou certamente a HBO encontrar um Kareem Abdul-Jabbar 99% igual ao verdadeiro e o primeiro sinal de que a série tinha tudo para correr bem deu-se logo no primeiro sorriso e na primeira transpiração de carisma de Quincy Isaiah como Magic Johnson. 
    Uma palavra final para John C. Reilly, que já merecia encabeçar um projecto desta dimensão.

15. We Own This City (HBO), criado por George Pelecanos e David Simon

(79) - As séries de David Simon são, de certa forma, séries de nicho. Numa sociedade sedenta por estímulos e cliffhangers que nos façam dormir menos e devorar mais, o génio responsável por The Wire trabalha ao seu ritmo, com um realismo que nos leva para as ruas das suas histórias, mas que se recusa a recorrer a bandas sonoras influenciadoras.
    Simon e Pelecanos respeitam a audiência, são mestres do Show, don't tell e em We Own This City - 5 horas e 57 minutos dividos em seis partes - voltaram a trabalhar na mesma fasquia alta de sempre.
    A corrupção da polícia de Baltimore vacilou apenas na forma algo confusa como por vezes viajou no tempo (talvez numa segunda visualização o encadeamento seja mais intuitivo) e vincou Jon Bernthal como um dos principais nomes do meio televisivo na atualidade.

16. Pachinko (Apple TV+), criado por Soo Hugh

(78) - Com potencial para se tornar uma das grandes séries dos próximos anos, Pachinko afirmou-se como o drama familiar do ano. Bebendo da magistral realização de Kogonada (Columbus, After Yang) a jornada de uma família coreana imigrante encantou-nos à primeira vista, e rebentou a escala ao sétimo capítulo, com o Japão e 1923 como pano de fundo.

17. Euphoria (HBO), criado por Sam Levinson

(77) - A obra-prima de Sam Levinson não nos oferecia uma temporada completa desde 2019 (em Dezembro de 2020 e Janeiro de 2021 houve apenas dois especiais focados em Rue e Jules) e o muito aguardado regresso ficou marcado pela forma desequilibrada/ com falta de linha condutora com que os acontecimentos se sucederam. A ação avançou pouco e algumas personagens caíram para segundo plano (Jules) enquanto outras dispararam de relevância (Sydney Sweeney, como Cassie, aproveitou para mostrar a boa atriz que é).
    Em todo o caso, bastava aquela descida aos infernos em "Stand Still Like a Hummingbird" para Euphoria figurar aqui. Quando pensávamos que Zendaya não poderia superar-se, ela conseguiu-o.

18. Industry (HBO, BBC Two), criado por Mickey Down e Konrad Kay

(77) - Uma das boas surpresas de 2020, que até só descobrimos em 2021, regressou à grelha da HBO tomando a opção de assumir a realidade e os efeitos da pandemia na própria narrativa do programa. Foi bom rever Harper (Myha'la Herrold é uma estrela em ascensão), Yasmin, Robert e Gus e, após vícios, solidão, acções a cair a pique, traições pelas costas e negociatas noite dentro, aquele twist com Eric Tao no final "Jerusalem" foi um dos melhores murros no estômago de 2022.

19. For All Mankind (Apple TV+), criado por Ronald D. Moore, Ben Nedivi e Matt Wolpert

(75) - Muitos críticos consideram a 2.ª temporada a mais difícil para muitas séries. É nesse Ano 2 que a série fideliza o seu público ou o perde para novos conteúdos virais. Talvez por isso, muitas séries que passam com distinção a avaliação da segunda temporada, atingem depois o seu pico de rendimento no 3.º ensaio. Este não foi o caso de For All Mankind, a ambiciosa produção espacial da Apple TV+.
    Sexto lugar nas nossas Melhores Séries de 2021, a série que continua a ser um projecto desconhecido para muita gente desiludiu-nos na ida a Marte, culpa talvez do patamar de excelência imposto pelo inesquecível "The Grey (episódio final da segunda temporada), do excesso de Danny Stevens e porventura dos prazos cumpridos na produção. Não é comum uma série com estes valores de produção ser emitida em anos consecutivos e, por vezes, a pressa é inimiga da perfeição. 

20. Love, Death & Robots (Netflix), criado por Tim Miller

(75) - Uma das duas representantes do catálogo Netflix no nosso Top-20 voltou ao seu melhor nível, apresentado na estreia em 2019, conseguindo uma certa redenção depois de virar fiasco irreconhecível em 2021. Com o regresso dos três robôs como anfitriões da temporada e David Fincher como realizador do fantástico "Bad Travelling", Love, Death & Robots voltou a experimentar diferentes estilos de animação, capazes de servir contos, ora mais leves ora mais profundos e ambiciosos. "Jibaro" é incrível.