Balanço Final - Liga NOS 18/ 19

A análise detalhada ao campeonato em que houve um antes e um depois de Bruno Lage. Em 2018/ 2019 houve Reconquista.

Prémios BPF Liga NOS 2018/ 19

Portugal viu um médio carregar sozinho o Sporting, assistiu ao nascer de um prodígio, ao renascer de um suiço, sagrando-se campeão quem teve um maestro e um velocista.

Balanço Final - Premier League 18/ 19

Na melhor Liga do mundo, foram 98 contra 97 pontos. Entre citizens e reds, entre Bernardo Silva e van Dijk, ninguém merecia perder.

Os Filmes mais Aguardados de 2019

Em 2019, Scorsese reúne a velha guarda toda, Brad Pitt será duplo de Leonardo DiCaprio, Greta Gerwig comanda um elenco feminino de luxo, Waititi será Hitler, e Joaquin Phoenix enlouquecerá debaixo da maquilhagem já usada por Nicholson ou Ledger.

21 Novas Séries a Não Perder em 2019

Renasce The Twilight Zone, Ryan Murphy muda-se para a Netflix, o Disney+ arranca com uma série Star Wars e há ainda projectos de topo na HBO e no FX.

12 de junho de 2023

Prémios BPF Premier League 2022/ 23

Na Premier League, hoje em dia são 11 contra 11 e no fim ganha o Manchester City. Pep Guardiola celebrou o tri (5º campeonato em seis anos) numa temporada muito longa, invariavelmente marcada pela interrupção para o mundo coroar Messi e pelo falecimento da Rainha Isabel II. O fantástico Arsenal de Mikel Arteta, equipa entusiasmante, atrevida mas ainda inexperiente na Hora H, esteve 248 dias na liderança, ocupando o 1.º lugar da tabela desde a jornada 3 até à jornada 33, tudo para acabar a 5 pontos do cada-vez-mais crónico campeão Manchester City.

    O mestre derrotou o aprendiz, e muita diferença fez contar com Erling Haaland, a grande figura desta Premier League 2022/ 23. O goleador norueguês trucidou recordes, fechando a sua época de estreia em Inglaterra com 36 golos nas 35 partidas que disputou, e a sua eficácia e perfeição robótica fotografam da melhor maneira a época, se ao dianteiro escandinavo acrescentarmos como contexto um conjunto de jogadores fortíssimos a criar oportunidades e um treinador que, ao abandonar o falso 9 e ao perder a ferramenta de jogar com os laterais (Cancelo e Zinchenko) muitas vezes como interiores, viu-se obrigado, uma vez mais, a reconfigurar a equipa, a tempo de a tornar uma nova versão de uma máquina imparável de futebol.

    Os azuis celeste de Manchester, agora também campeões europeus, teimam em não largar o topo do futebol inglês, mas para os gunners a época foi de aprendizagem, e se Arteta conseguir segurar nos próximos anos Odegaard, Saka e Martinelli (impressionante a mentalidade que o trio apresenta) voltar a sonhar será sempre possível. De resto, poucos acreditariam que o Newcastle queimaria tão rápido etapas, qualificando-se para a Champions League 23/ 24, algo que foi possível devido à assertividade defensiva dos pupilos de Eddie Howe e à brutal desilusão que foram as temporadas de Liverpool (Alisson amenizou estragos) e Chelsea, um 12.º classificado que gastou mais de 600 milhões em transferências.
    O Brighton encantou e conquistou os adeptos neutros, Unai Emery revelou-se um match perfeito para a dimensão do Aston Villa e, coisa rara, nenhuma das equipas promovidas (Fulham, Bournemouth e Nottingham Forest) desceu, acabando relegados Southampton, Leeds United e o Leicester City, de campeão em 2016 para equipa do Championship em 2023. In extremis salvou-se o Everton, que parecia condenado com Lampard mas ganhou vida suficiente com Sean Dyche.

     Individualmente, Erling Haaland foi um furacão de golos, tendo o nórdico desviado atenções da incrível época de Harry Kane. O inglês de 29 anos marcou 30 golos num Tottenham sem chama, e foi mesmo o jogador desta Premier League a marcar num maior número de jornadas diferentes. Odegaard e De Bruyne foram os criativos da prova, Rodri o equilibrista silencioso, desta vez coadjuvado pelo central adaptado a médio John Stones, e nos flancos Salah acabou forte, Rashford viveu um período em que muitos chegaram a considerá-lo um dos jogadores do mundo em melhor forma, mas Gabriel Martinelli e Saka foram quem maior consistência apresentou ao longo do tempo.
    Eddie Howe, De Zerbi, Trippier, Ivan Toney (suspenso até Janeiro devido às apostas que fez), João Palhinha, Caicedo, Partey, Xhaka ou Bruno Fernandes são alguns nomes que merecem ser referidos quando estamos prestes a dizer adeus a mais uma fantástica campanha no futebol britânico.

    Como todos os anos, é chegada a altura de indicarmos aqueles que foram para nós os melhores do ano: o nosso 11, o Jogador do Ano e o Jovem Jogador do Ano, o Treinador do Ano, e ainda algumas categorias complementares.



Guarda-Redes: Quando pensamos de uma forma geral, sem olhar para o rendimento específico numa só temporada, Alisson é o melhor guarda-redes do futebol inglês. Esta época, no entanto, o goleiro canarinho do Liverpool foi mais testado do que nunca (o quarteto defensivo, que o devia proteger, acumulou erros atrás de erros) e se os reds terminaram a apenas 4 pontos do Top-4, muito o devem ao seu número 1. Alisson Becker foi destaque quando o Liverpool ocupava o meio da tabela, e continuou a ser destaque quando a equipa melhorou e escalou a tabela no último terço do campeonato. Estatisticamente, nenhum guarda-redes evitou tantos golos como o titular do Brasil. Fez a diferença como mais nenhum, numa época que desejará não voltar a viver, tal o incaracterístico desnorte defensivo da turma de Klopp.
    Num quinteto que talvez deixe de fora de forma injusta Bernd Leno, preferimos realçar David Raya (brutal percentagem de remates defendidos de 77,7%, juntando-lhes ainda uma soma de 154 defesas), que certamente dará o "salto" neste Verão, e o impacto que Nick Pope (que "pechincha" por 11 milhões e meio de euros) teve na prestação defensiva do Newcastle.
    Aaron Ramsdale manchou o brilhantismo com um ou outro erro compreensíveis dada a sua idade, mas foram muitas as defesas impossíveis que acumulou (vem-nos à cabeça a monstruosa exibição em Anfield) e David De Gea nem sempre foi o mais consistente, aparecendo como noutras épocas em contraciclo com o momento da equipa, mas não podemos ignorar que foram suas as Luvas de Ouro com 17 clean sheets, mais três do que Pope, Alisson e Ramsdale.


Lateral Direito: Poucos foram os jogadores que apresentaram nesta edição da Premier League a regularidade de Kieran Trippier. O lateral direito de 32 anos, capitão do Newcastle, chegou a estar lançado para integrar o nosso Top-6 de jogadores do ano, mas uma segunda volta mais tímida acabou por afastá-lo dessa (improvável) nomeação. Influente nos dois lados do campo, fiável a todos os níveis, quer a recuperar, quer a criar.
    Ben White revelou-se uma feliz adaptação de Arteta, que assim pôde conjugar o defesa que nos tempos livres não acompanha/ gosta de futebol com Saliba e Gabriel. A versatilidade de White foi sempre parte importante da identidade de jogo do Arsenal, surpreendendo o seu contributo no último terço. Com 5 assistências, igualou por exemplo Martinelli e ficou a apenas duas de Odegaard.
    Não considerámos Kyle Walker pela sua intermitente utilização e porque o maior brilho do lateral (mais forte da atualidade a defender?) foi na Champions, pelo que Trent Alexander-Arnold, Pascal Groß e Kenny Tete completam o nosso leque deste ano. Groß andou por todo o campo, mas a forma mais fácil de o encaixar nestas 11 posições é aqui, Tete foi pouco falado mas muito competente, e Trent esteve defensivamente atroz, como toda a defesa do Liverpool, mas na reta final a sua estabilização a 80% no momento com bola na zona do meio-campo deixou ótimas indicações do que poderá ser um extraordinário 23/ 24 para um jogador único (na visão de jogo e qualidade a colocar bolas longas só perde para KDB nesta Premier).


Defesa Central: Rúben Dias, Botman, Saliba, Gabriel, Thiago Silva e Lisandro Martínez foram alguns dos nomes que se destacaram no coração das suas defesas nesta Premier League. John Stones, o homem de Barnsley com voz com algo semelhante a Cillian Murphy, foi lateral direito e impressionou no último terço do campeonato como médio defensivo ao lado de Rodri (uma inovação táctica que pode ter sido a chave para o título), mas muitas vezes foi também central, acabando por ser o defesa, entre os que pisaram terrenos centrais, mais importante desta Premier League. Um camaleão, homem de confiança de Pep e o melhor central inglês da atualidade.
    Do lado direito dos centrais, William Saliba foi imperial na defesa do Arsenal, e os adeptos dos gunners poderão questionar eternamente como teria sido o fim de campeonato se o francês não se tivesse lesionado frente ao Sporting (Liga Europa), Thiago Silva nunca se rendeu, acabando como o único jogador do Chelsea positivamente referido nestes Prémios BPF, Fabian Schär entendeu-se às mil maravilhas com o novo amigo Botman, e Ethan Pinnock, central mais à antiga mas muito certinho, anulou avançados como poucos.


Defesa Central: O Manchester City é a melhor equipa do mundo, um conjunto inteligente, maduro, em constante atualização, gerador de tendências e com ataque que enche o olho. Mas apenas se vê o melhor City quando Rúben Dias está lá atrás, fisicamente a 100%, a tranquilizar as hostes com a sua voz de comando e gosto em defender e acumular clean sheets. Pep gosta de rodar os centrais, mas já percebeu que, se a ficha de jogo começa em Rodri, o nome obrigatório na defesa é Rúben.
    Entre os centrais que ocuparam o lado esquerdo das parcerias, Sven Botman (apenas 23 anos) revelou-se um dos reforços do ano, Gabriel marcou 3 golitos e foi tantas vezes um muro intransponível, Lisandro Martínez calou Carragher e Neville, mostrando que a sua altura (1,75m) é um dado absolutamente secundário e irrelevante quando se defende com a garra e sagacidade que o argentino campeão do mundo apresenta, e Ben Mee voltou a mostrar-se um elemento seguro, provando que o Brentford fez bem ao resgatá-lo do então despromovido Burnley.



Lateral Esquerdo: À esquerda na defesa, um dos líderes do balneário do Arsenal. O ucraniano Oleksandr Zinchenko mudou-se de Manchester para Londres em busca de maior preponderância, e Arteta concedeu-lhe papel híbrido no esquema da equipa, flutuando entre o corredor e os terrenos centrais que tanto gosta de pisar. Nessa função de médio extra, Zinchenko provou ser um dos jogadores mais lutadores do Arsenal, contagiando os colegas e mantendo compostura (ADN Guardiola) em busca da "estrelinha" no final de várias partidas.
    Numa posição equilibrada entre os nomeados, Nathan Aké foi praticamente irrepreensível em todas as suas ações, ora como central do lado esquerdo ora como falso lateral esquerdo; Luke Shaw, que em tempos Mourinho acusou de não ter um bom cérebro futebolístico, esteve fantástico com ten Hag, chegando mesmo a brilhar quando adaptado a central. Adaptação em sentido inverso foi a de Dan Burn, que preservou o seu lugar no 11 comandado por Eddie Howe como inesperado defesa esquerdo. Homem de poucas aventuras, mas de muita solidez. Finalmente, Pervis Estupiñán fez esquecer Cucurella e levou-nos a achar que o seu 23-24 será ainda mais estonteante.


Médio Defensivo: Honestamente, não compreendemos como é que Rodri continua a ser esquecido e subvalorizado na hora de escolher o restrito leque de candidatos a Jogador do Ano. O médio defensivo espanhol, figura silenciosa mas absolutamente determinante no futebol do campeão Manchester City, será porventura o jogador mais difícil de substituir nos azuis de Manchester. Diz bastante da qualidade de Rodri o facto do ano ter sido recheado de destaques como médios defensivos, e mesmo assim Rodri estar a anos-luz da concorrência.
    Concorrência essa composta por Thomas Partey, incansável lutador, recuperador e transportador do esquema de Arteta, o brutal João Palhinha (nem nós, que assistimos às suas fantásticas temporadas no Braga e no Sporting, pensámos que brilharia tanto na Premier League) que dificilmente continuará no Fulham, e ainda Moisés Caicedo, um diamante que confirma a genial prospeção do Brighton e que augura um futuro sereno para o clube que por ele vier a pagar uma fortuna. Por fim, há que falar de Casemiro. O médio brasileiro ex-Real Madrid não tinha o crédito que merecia, ocultado pela eloquência de Modric e Kroos, mas - com mais cartões vermelhos diretos pelo caminho do que seria desejável - esta Premier 22/ 23 parece ter mostrado o impacto que o camisola 18 de ten Hag consegue ter em todos os jogadores à sua volta.


Médio Centro: Nesta Premier League, Martin Odegaard foi para nós o 2.º melhor jogador e, curiosamente, o 2.º melhor norueguês. Aos 24 anos, o capitão do Arsenal demonstrou mentalidade vencedora e foi por diversas vezes o farol ofensivo dos vice-campeões, somando 15 golos e 7 assistências (tem potencial para, sem grande esforço, somar o dobro de assistências em próximas edições da competição). No plano subjetivo, é um dos atletas que mais gozo nos dá ver jogar no futebol inglês. Cerebral, elegante e artista.
    Ao falar de médios é obrigatório falar de Bruno Guimarães, que sem ter sido o MVP deste Newcastle é seguramente o jogador dos magpies que mais facilmente jogaria em qualquer equipa do planeta, Alexis Mac Allister (ganhou muita cotação no Qatar e já foi apresentado como novo 10 do Liverpool) brilhou no sensacional Brighton, ora a dez ora uns metros atrás, Declan Rice despediu-se do seu West Ham com prestações de alto nível, tornando-se cada vez mais um médio multi-funções (não é um trinco, aproxima-se a cada época que passa do estilo combativo e de ligação que Roy Keane tinha nos seus melhores anos) e, claro, Ilkay Gündogan voltou a dizer presente nos momentos em que só os grandes jogadores aparecem. 


Médio Centro: O consenso em terras do Rei Carlos III é que o velho debate entre Gerrard, Scholes e Lampard é coisa do passado, tendo Kevin De Bruyne ultrapassado todos, reclamando o estatuto de melhor médio da História da Premier League. Com 5 campeonatos no seu palmarés, KDB viveu uma época algo irregular, mas confirmou o que qualquer adepto minimamente informado imaginaria: o seu casamento com Erling Haaland tinha tudo para resultar em muitos, muitos golos. O belga arrancou a Premier com um número avassalador de assistências, mas viveu depois uma fase de menor fulgor, acabando inclusive relegado para o banco em embates importantes. Porém, nos jogos cabeça-de-cartaz voltou a fazer a diferença (em casa do Arsenal, marcou e assistiu, e na recepção aos gunners realizou um jogo monstruoso com 2 golos e uma assistência para Haaland, o seu amor à primeira vista). Quando está bem, ninguém em Inglaterra chega ao seu patamar de excelência.
    Importa também elogiar o nosso Bruno Fernandes (evoluiu muito no capítulo da decisão, sendo frustrante testemunhar a falta de acompanhamento para o seu QI futebolístico de diversos colegas), que como era expectável disparou de rendimento com a saída de CR7, Granit Xhaka pode ter custado pontos com o seu feitio indomável, mas fartou-se de jogar à bola, James Maddison foi a única coisa de jeito num Leicester irreconhecível e Eberechi Eze (um verdadeiro craque) deixou água na boca para futuras edições, ficando a ideia que o seu registo de golos (10) pode passar para algo na casa dos 15-17.


Extremo Direito: É fácil o comum adepto esquecer-se, mas Bukayo Saka tem apenas 21 anos. O elétrico extremo do Arsenal, cheio de personalidade e irreverência desde o primeiro jogo em que pisou os relvados da Premier League, é um fenómeno. Camisola 7 nas costas, sorriso indestrutível no rosto, Saka foi inegável figura desta Premier League 22/ 23, e só a memória curta dos adeptos e a facilidade em privilegiar a última imagem que fica, e não a regularidade, o poderia afastar do 11 do ano. 14 golos, 11 assistências, e muitos mais virão nos próximos anos.
    Mohamed Salah terminou a época com números excelentes (19 golos e 12 assistências) mas apesar do egípcio ter realizado a melhor performance individual desta edição, quando transformou em ouro todos os lances em que tocou no Liverpool 7-0 Manchester United, não podemos ignorar que Mo esteve bastante apagado na 1.ª volta, apresentando o nível a que nos habituou somente a partir da jornada 25 em diante.
    Sem esquecer Miguel Almirón, que antes do Mundial estava endiabrado, incluímos também Solly March, Riyad Mahrez e Bryan Mbeumo. O extremo do Brighton foi um dos destaques da equipa de De Zerbi e podia ter outos números se muitas das oportunidades claras que criou tivessem sido concretizadas, Mahrez espalhou magia, abusou do requinte no primeiro toque e tornou-se o jogador africano com mais assistências de sempre na competição, ultrapassando Drogba. Mbeumo foi pouco exuberante, sempre naquele papel de fiel escudeiro de Ivan Toney, mas a brincar a brincar quase chegou aos double digits em golos e assistências.


Extremo Esquerdo: A Premier League não poupa na qualidade na hora de nos mostrar os seus melhores extremos esquerdos, uma das posições mais fortes esta temporada. Com Son Heung-Min muitos furos abaixo do expectável e na ressaca da saída de Sadio Mané para Munique, Kaoru Mitoma foi uma autêntica revelação, principalmente no segmento da prova após o Mundial, mostrando ao mundo do futebol o porquê de ter uma tese em drible. O seu antecessor no Brighton, Leandro Trossard, viveu a sua tarde mais feliz quando marcou um hat-trick em Anfield, festejando como é sua imagem de marca com os binóculos, e manteve a bitola no Arsenal, ficando a dúvida se os londrinos não pioraram quando, por força do peso de Gabriel Jesus, o belga se viu obrigado a sair do onze quando o ataque fluía bem.
    Tal como a pré-época deixava antever, Jack Grealish disparou de rendimento naquele que já é conhecido como "o segundo ano com Pep Guardiola", e Marcus Rashford (o melhor deste quinteto se considerarmos todas as competições e não a Premier em exclusivo) foi uma das figuras da Liga, e chegou mesmo em momentos pontuais a exibir-se como um dos melhores do mundo.
    No Barba Por Fazer privilegiamos sempre o factor regularidade, e é por isso que o subvalorizado Gabriel Martinelli merece ser considerado o melhor extremo esquerdo da Premier League em 22-23. Os 15 golos e 5 assistências do craque brasileiro de 21 anos não traduzem aquele que foi o seu real papel neste Arsenal, em que tanto desequilíbrio foi feito a partir da sua genialidade. Martinelli foi do trio maravilha do Arsenal talvez o que menos se escondeu nos momentos-chave, fez a cabeça em água aos defesas, finalizou com frieza e - muito importante, mas poucas vezes relevante para a opinião pública por não surgir nas estatísticas - contribuiu do ponto de vista defensivo com a sua capacidade de sacrifício e sagaz pressão.


Ponta de Lança: Que máquina. Quando o robô norueguês assinou pelo Manchester City, a lógica deixava prever um cenário violento para os adversários. Como parar um ataque fértil na criação de oportunidades, agora com o maior jovem goleador dos nossos tempos? Erling Haaland chegou a Inglaterra e, na sua temporada de estreia, estabeleceu um novo recorde da competição - 36 golos. O indiscutível MVP desta edição, jogador do qual é impossível não gostar, fez 4 hat-tricks, bisou por 5 vezes e deixou o planeta futebol rendido ao seu sentido posicional, eficácia e cada vez mais assustadora multiplicidade de recursos. Chegará aos 40 na próxima época?
    Na sombra do viking arrasador de loiro cabelo apanhado, Harry Kane acabou por passar despercebido com uma época incrível. O ponta de lança inglês carregou o Tottenham como nunca antes (43% dos golos da equipa foram dele), marcou 30 e foi mesmo o jogador desta Premier League a marcar num maior número de jornadas diferentes. Em 38 jornadas, picou o ponto em 26.
    Suspenso na sequência do escândalo de apostas, Ivan Toney foi talismã no Brentford, apontando 20 golos (em 21-22 tinha-se ficado pelos 12) e deixando claro que é jogador para patamares acima. Ollie Watkins e Callum Wilson garantem a sua presença entre os 5 melhores avançados graças a brutais sequências de jogos que ambos tiveram na segunda volta, mas não devem ser esquecidos Mitrovic, Gabriel Jesus e Awoniyi.




    Erling Braut Haaland é um fenómeno. Depois de marcar golos atrás de golos na Noruega, Áustria e Alemanha, o poderoso esquerdino norueguês regressou ao país que o viu nascer (nasceu em Leeds em Julho de 2000) para confirmar que será um potencial crónico nomeado nas próximas distinções dos melhores do mundo. O novo pesadelo dos defesas da Premier League, um Targaryen sedento de bater todos os recordes, foi o indiscutível Jogador do Ano em Inglaterra (52 golos em 53 jogos no conjunto de todas as competições).
    Igualmente norueguês, Martin Odegaard foi o maestro do 2.º classificado Arsenal, um capitão criativo, líder na elegância e na visão de jogo. Kevin De Bruyne, o novo melhor amigo de Haaland, voltou a passear a sua brutal qualidade, fazendo dos jogos mais difíceis o seu parque de diversões.
    Num tenebroso Tottenham e na sombra do ponta de lança da moda no futebol inglês, Harry Kane esteve extraordinário (marcou em mais jornadas do que qualquer outro jogador, e nenhum jogador marcou uma % tão elevada dos golos da sua equipa). Saka, Rashford, Stones e Trippier não seriam nomes descabidos para as duas últimas vagas, mas preferimos destacar o melhor extremo desta edição (Gabriel Martinelli) e a mestria silenciosa de Rodri, o escudeiro de futebol matemático que permite todos à sua frente brilhar.



    O sucessor de Foden, Mount, Alexander-Arnold, Sané, Dele Alli ou Kane só poderia ser Erling Haaland. O ponta de lança do Manchester City "limpa" tudo este ano, na sua temporada de estreia na Premier League, deixando de estar elegível de acordo com os critérios BPF (terá 23 anos no arranque da próxima temporada) em 23/ 24.
    O exercício de elencar os restantes nomeados para Jovem Jogador do Ano é um atestado à forma fantástica como uma equipa com média de idades tão baixa como o Arsenal conseguiu ombrear durante grande parte do campeonato com o City. Gabriel Martinelli, Bukayo Saka e William Saliba já são dos melhores do mundo nas suas posições, e todos têm entre 21 e 22 anos.
    Foden (nosso eleito na época passada), Evan Ferguson, Michael Olise e Brennan Johnson foram equacionados, Levi Colwill não somou os minutos necessários para ser incluído, pelo que o equatoriano Moisés Caicedo e o box-to-box Jacob Ramsey são os talentos a encerrar o nosso Top-6 deste ano.



Treinador do Ano: Falemos primeiro de quem não está e poderia estar. Gary O'Neil salvou o Bournemouth da descida, Marco Silva comandou um Fulham que esteve sempre tranquilo, Erik ten Hag corrigiu muita coisa em Manchester (retirar CR7 e Maguire do onze, medidas fundamentais, deixavam antever difícil missão) e Thomas Frank voltou a marcar pontos no Brentford.
    Unai Emery pegou num Aston Villa desaproveitado e descrente com Steven Gerrard, e do 13.º lugar a seis pontos da descida, os villans cresceram e cresceram até terminar o campeonato num sólido e europeu 7.º lugar a 10 pontos da Champions. Emery encontrou em Birmingham uma equipa à sua medida, e basta dizer que desde que assumiu o comando técnico em Novembro apenas Liverpool, Arsenal e os rivais de Manchester somaram mais pontos.
    Futebol bonito nesta Premier League foi o futebol do Brighton de Roberto De Zerbi. O italiano ex-Shakhtar e Sassuolo recebeu uma pesada herança de Potter, mas conseguiu suplantar o antecessor, colhendo elogios de Guardiola, apaixonando os adeptos neutros, impressionando na saída de bola criativa, confiante e com múltiplas soluções, desenvolvendo diversos ativos do plantel.
    Exceder expectativas e queimar etapas foi o que Eddie Howe conseguiu, uma vez mais, no Newcastle. O melhor treinador inglês da atualidade aproveitou as épocas desapontantes de Chelsea, Tottenham e Liverpool e colocou os magpies na Champions, acreditamos que mais cedo do que estava definido como objetivo interno.
    Mas o ano foi de mentor e aprendiz, Pep Guardiola e Mikel Arteta. O jovem técnico dos gunners fez o que ninguém esperava - no começo da época não seria totalmente insano apontar o Newcastle ao Top-4 ou apontar o Brighton à Europa, mas ninguém esperava que fosse o Arsenal a rivalizar pelo título com o Man City. Com uma lição para o futuro, muita juventude e uma visão clara, Arteta fez suar um génio. E só por isso poderia teria todo o cabimento ser eleito Treinador do Ano. 
    Mas Guardiola... Guardiola está uns quantos passos à frente de todos nós, comuns mortais apreciadores e semi-conhecedores de futebol. O melhor do mundo (1.º técnico da História a conquistar dois tripletes) voltou a sorrir no fim numa época com contratempos. Com cíclico e contagiante apetite de ganhar mais e fazer diferente, inovar e elevar a modalidade e os seus jogadores, Pep teve uma época de tentativa e erro, mas o resultado final (fantástica e inesperada estabilização naquele 3-2-4-1 / 3-2-2-3) fala por si.



Melhor Marcador: 1. Erling Haaland (Manchester City) - 36
2. Harry Kane (Tottenham) - 30
3. Ivan Toney (Brentford) - 20

Melhor Assistente: 1. Kevin De Bruyne (Manchester City) - 16
2. Mohamed Salah (Liverpool) - 12
3. Bukayo Saka (Arsenal) e Michael Olise (Crystal Palace) - 11

Clube-Sensação: Brighton
Desilusão: Chelsea
Most Improved Player: 1. João Palhinha, 2. Miguel Almirón, 3. Solly March
Reforço do Ano: Erling Haaland (Manchester City)
Flop do Ano: Richarlison (Tottenham)
Melhor Golo: Jacob Murphy ft. Alexander Isak (Everton 1 - 4 Newcastle) (Link)




Prémios BPF Liga Bwin 2022/ 23

E, muitas jornadas depois, um dos campeonatos percecionado como mais longo devido à existência do Mundial do Qatar a meio da viagem, chegou ao fim. Para os lados da Luz, grita-se que o campeão voltou e pede-se o 39. 2022/23 foi Benfica do princípio ao fim, embora com acidente de percurso em Abril, suficiente para acrescentar emoção e incerteza até à jornada final, mas insuficiente para contestar a inequívoca justiça do novo campeão.

    Numa época em que o Sporting se tornou apenas o 2.º melhor Sporting da tabela classificativa, águias e dragões terminaram com 87 e 85 pontos respetivamente, qualificando-se o super competente Braga para a 3ª pré-eliminatória da Champions e garantindo o Arouca, uma das equipas-sensação da prova a par de Desp. Chaves e Casa Pia, um lugar na Europa (Liga Conferência).
    Como sempre, houve muito barulho e muito desviar de atenções fora das quatro linhas, com a toxicidade do costume de Sérgio Conceição, mas o 38 fica indubitavelmente marcado pela serenidade confiante de Roger Schmidt que, por vezes teimoso, acabou no final com rasgado sorriso. O alemão marcou claramente um novo ciclo na Luz, e resistiu à perda de Enzo Fernández, craque que o campeonato perdeu após tremendo Mundial pela Argentina (melhor jogador jovem do torneio) e que vinha pautando o jogo dos encarnados, com impressionante maturidade para os seus então 21 anos.

    Sem existir um destaque individual máximo, a Liga Bwin 2022/ 23 viu "nascer" Enzo no futebol europeu, viu João Mário marcar como nunca, umas vezes à esquerda outras vezes à direita, viu Gonçalo Ramos confirmar-se como o próximo grande avançado do futebol português e Grimaldo despediu-se com lágrimas rumo à Bundesliga, rendimento soberbo e influência vincada. No Benfica, o menino António Silva agarrou a oportunidade no começo da prova, e João Neves foi amuleto na reta final. Mas talvez seja no norueguês Fredrik Aursnes que melhor fique representado este novo Benfica: um canivete suíço tático de futebol total, com QI futebolístico acima da média a interpretar o tempo e o espaço no retângulo de jogo.
    Além dos candidatos da águia a MVP, Otávio (se não fosse controverso nas suas atitudes seria considerado de forma quase unânime o melhor jogador a atuar em Portugal), Taremi e Pepê foram as máximas figuras dos azuis e brancos. Pedro Gonçalves carregou o Sporting tanto quanto pôde, Ricardo Horta reforçou o seu estatuto como lenda em Braga, o uruguaio De Arruabarrena fartou-se de defender e os espanhóis Iván Jaime e Fran Navarro confirmaram que merecem ambos outros voos.

    David Carmo e Draxler foram flops, Florentino acrescentou valências ao seu jogo, e muitos foram os jovens talentos a despontar (Tiago Santos, Tiago Gouveia, André Amaro, Pedro Malheiro, Tomás Araújo e Ibrahima Bamba servem de exemplo).

    São os jogadores que fazem aquilo que o futebol é, e por isso os prémios abaixo são, praticamente, só deles. Abaixo encontrarão o nosso 11 do Ano, Jogador e Jovem do Ano, Treinador do Ano e algumas categorias adicionais. Comecemos:



Guarda-Redes: Nas balizas portuguesas, é indiscutível que Diogo Costa é o guardião de maior qualidade a atuar na nossa Liga, mas o número 99 do FC Porto não foi desta vez o GR que se apresentou por mais ocasiões num nível mais elevado, acumulando ainda tremenda influência no percurso da sua equipa. O uruguaio Ignacio de Arruabarrena foi a máxima figura entre aqueles que calçaram luvas nesta edição, acumulando defesas impossíveis, 14 clean sheets (apenas Odysseas, Diogo Costa e Matheus estiveram melhor neste capítulo, fruto também da maior força dos coletivos que representam) e tornando-se uma semi-lenda a defender grandes penalidades - defendeu 5 penalties ao longo da prova, três deles em jogos consecutivos. Com uma módica cláusula de 3 milhões, é quase certa a sua transferência para outros voos.
    Sem esquecer as muitas defesas do nipónico Nakamura (um dos guarda-redes mais elásticos em Portugal), os muito promissores Luiz Júnior e Andrew, a grande 1.ª volta de Ricardo Batista, a taxa de 100% de penalties (3 em 3) defendidos por Jonathan e o "achado" que foi Fabijan Buntic a custo zero, as balizas nacionais, com a fasquia alta nesta edição, devem-se ter despedido do melhor GR português da atualidade, tendo Diogo Costa brilhado sobretudo na Liga dos Campeões e não tanto a nível interno, onde ainda assim fez a diferença em Clássicos; Matheus realizou a melhor época desde que é o número 1 do Braga; Paulo Vítor defendeu 81% dos remates que enfrentou (destaque absoluto nessa matéria); e Odysseas Vlachodimos evoluiu em vários aspetos, sendo também líder destacado nos jogos sem qualquer golo sofrido (21).


Lateral Direito: O polivalente Pepê Aquino andou pelo campo todo em 2022/ 23. Jogador de importância crucial para a ideia de jogo de Sérgio Conceição, tal como Otávio, o camisola 11 jogou a extremo direito, extremo esquerdo, nas costas do avançado e, por várias vezes, foi solução de recurso a lateral direito. Gostamos mais de ver Pepê a extremo, mas o seu caráter multifacetado vale-lhe, também aqui adaptado, uma justa presença no 11 da época.
    Entre os laterais direitos de origem, e numa posição em que tem faltado qualidade nas últimas épocas (tem sido quase sempre Porro e os outros), vários jogadores encheram o olho. Alexander Bah chegou à Luz e justificou a contratação. O dinamarquês fechou a prova com 1 golo e 4 assistências, números que pode e deve melhorar, mas sempre que perdeu a timidez e galgou metros, até arrancar um daqueles seus cruzamentos, a Luz levantou-se e aplaudiu.
    O axadrezado Pedro Malheiro foi garantidamente o lateral direito que se apresentou mais forte na vertente defensiva, Costinha foi uma locomotiva e um elemento primordial no sistema tático de Luís Freire no Rio Ave, e em relação a Tiago Santos, jogador já associado ao Benfica e Sporting, podemos dizer que de todos estes atletas é aquele cujo futuro mais nos entusiasma. Fisicamente impressionante, destemido, com personalidade, forte no 1 para 1 e com muito potencial para evoluir na forma como se envolve no ataque.


Defesa Central: No Verão passado, ninguém esperava que António Silva (hoje com 19 anos, mas quando foi lançado às feras no 11 tinha dezoito) viesse a tornar-se uma das figuras deste Benfica. O jovem natural de Penalva do Castelo esperava ir ao Marquês como adepto, os adeptos olhavam para ele como eventual 5.º central (e no pós-Youth League, Tomás Araújo até era o central mais cotado nos bastidores da Luz) mas uma sequência de lesões abriu-lhe as portas do onze, ao lado de Otamendi, e António Silva não mais saiu da base de eleição de Roger Schmidt, técnico que cedo viu que o menino de 1,87m tinha as características certas para ser um dos seus projetos.
    No polo oposto do espetro da idade, Pepe voltou a ser o "patrão" da defesa portista, impressionando com arrancadas miraculosas aos 40 anos. João Basso (jogador que já representou este Arouca em 3 diferentes patamares do futebol português) voltou a evidenciar que há poucos centrais com a sua qualidade no nosso país, Tomás Araújo aproveitou a "rodagem" em Barcelos para mostrar que merece uma oportunidade na pré-época encarnada em 23-24, e André Amaro afirmou-se como mais uma pérola defensiva saída da formação do Vitória.


Defesa Central: O campeão do mundo Nicolás Otamendi. Capitão benfiquista depois de outrora portista, Otamendi viveu o seu melhor período de 2022/ 23 no Qatar, onde fez parte de uma bonita página da História do futebol mundial como um dos centrais em destaque da competição da FIFA. Na liga portuguesa, Otamendi cometeu um ou outro erro, mas no geral foi a voz de comando das águias e um líder pelo exemplo.
    Sikou Niakaté dominou o jogo aéreo como poucos, e Iván Marcano tornou-se o defesa com mais golos na História do FC Porto, convencendo Conceição a depositar em si toda a confiança mesmo depois de avultado investimento em David Carmo. Entre os jogadores mais jovens, Ibrahima Bamba demonstrou uma maturidade muito acima da média, faltando por esta altura ainda perceber se vingará como médio defensivo ou central a 3, e Filipe Relvas dissipou quaisquer dúvidas que os mais céticos podiam ter quanto ao seu potencial, crescendo à esquerda numa experiência similar à que Eddie Howe fez com Dan Burn no Newcastle.


Lateral Esquerdo: O futebol português vai ter saudades de Álex Grimaldo. Antes de partir para Leverkusen, entregue a Xabi Alonso, o lateral espanhol do Benfica revelou-se um dos principais responsáveis pelo título encarnado, com a melhor prestação individual de sempre de águia ao peito (5 golos e 9 assistências no campeonato, 8 e 14 se considerarmos todas as competições). Um dos melhores marcadores de livres diretos no mundo, Grimaldo deixa uma herança e responsabilidade pesadas para o seu sucessor.
    Sem que o Porto tivesse um destaque assíduo, e com o Braga a dividir méritos entre Sequeira e Borja, no Sporting foi Nuno Santos quem mais brilhou na ala, marcando vários golos candidatos a melhor do ano. Bruno Langa foi o lateral esquerdo mais competente a defender nesta Liga Bwin, Leonardo Lelo abriu o apetite com a sua subtileza a criar, fazendo por merecer a atenção dos principais emblemas portugueses, e Mateus Quaresma foi sinónimo de regularidade.


Médio Defensivo: Na arte mecânica de saber ler o jogo e ser o pêndulo da equipa houve, ironicamente, grande equilíbrio entre dois nomes - Manuel Ugarte e Al Musrati. O médio uruguaio, um dos 2 representantes leoninos neste 11 do Ano, acumulou desarmes e interceções valorizando-se no plano individual num coletivo irregular. Cedo deu para perceber que Ugarte duraria pouco tempo em Portugal. Poderemos segui-lo agora em Paris. Em relação a Al Musrati, o líbio - é desta que o Braga realiza significativo encaixe financeiro com ele? - terá sido até mais consistente do que Ugarte, exibindo-se porém menos vezes num pico tão alto. Mérito do Braga, com plantel bem planeado, a equipa ter acusado menos a sua ausência do que o Sporting, desequilibrado sem o seu jovem leão.
    Na posição há ainda a destacar Florentino, cuja candidatura a escolha de topo nesta eleição caiu no decorrer da segunda volta, algo que não apaga a sua brutal evolução, sobretudo na sua participação proativa no jogo, passando a pressionar em terrenos mais adiantados e contribuindo com mais passes verticais a quebrar linhas. Matheus Uribe despediu-se dos relvados portugueses num nível abaixo do que mostrou no passado, e Vítor Carvalho cresceu bastante em Barcelos com Daniel Sousa, numa época que já lhe valeu transferência para Braga.


Médio Centro: Até partir para Londres para o Chelsea, Enzo Fernández foi uma das grandes figuras, talvez mesmo a principal, do Benfica e do futebol português. Soa a injusto não incorporar o argentino (vendido por 121 milhões de euros) no 11 do Ano, mas também seria injusto esse onze não conter 1 entre Aursnes, Pote, João Mário e Otávio. O melhor Benfica foi o Benfica com Enzo, mas Fredrik Aursnes é um dos jogadores que melhor personifica o campeão nacional versão Roger Schmidt. Adquirido ao Feyenoord, jogou a médio esquerdo, a médio direito, nas costas do avançado, foi médio centro de pressionar mais a saída do adversário, foi médio centro mais a conter e orquestrar a partir de trás, e até foi lateral direito. O canivete suíço norueguês, tão adorado pelos benfiquistas quanto bacalhau numa consoada lusitana, deu jogo após jogo uma masterclass do que é tomar sempre a melhor decisão. Esteja onde estiver no campo, a bola está-lhe bem entregue. Um futuro capitão.
    Podíamos ter chamado à discussão Makouta, mas os restantes nomes para debate foram Guga (não ficaremos surpreendidos se assinar por um grande), Hidemasa Morita, elemento super completo e que talvez venha a ter maior preponderância na próxima temporada, e Santiago Colombatto, argentino que teve os holofotes sobre si na sequência da polémica com Pepe mas que já vinha justificando todos os olhares face ao seu diferenciado pé esquerdo. 


Médio Ofensivo: Com 15 golos e 11 assistências (apenas Taremi esteve diretamente envolvido em mais golos), Pedro Gonçalves, ou Pote se preferirem, foi um dos principais destaques individuais da Liga Bwin 2022/ 23. Num Sporting que desiludiu, é certo que faltou ao número 28 dizer presente doutra maneira nos "jogos grandes", e o seu capítulo mais inolvidável até foi vivido em Londres com um golo a 40 metros, mas mesmo na Liga o Sporting foi sempre Pote + 10. Sempre em alta rotação, foi o jogador mais rematador da Liga, quem mais assistências somou e, a par de Grimaldo, um dos dois jogadores que mais oportunidades criou (74).
    Alguns furos abaixo de Pedro Gonçalves esteve Rafa. O velocista do Benfica, desta vez incumbido de ocupar terrenos centrais (que máquina seria este Benfica se Rafa tivesse outro critério a decidir e uma superior visão 360º do jogo), voltou a cair de rendimento na 2.ª volta depois de arrancar a todo o gás. Oito golos e 4 assistências são números muito modestos para um jogador tão privilegiado na dinâmica encarnada.
    Gostámos muito da revelação que foi o guineense Morlaye Sylla (podia ser um jogador útil para o plantel em qualquer equipa de topo em Portugal) num Arouca onde também Alan Ruiz, peça mais central do que Sylla que andou por todo o lado, brilhou e acrescentou perfume a espaços. Menção ainda para Ivo Rodrigues, que de extremo de diagonais venenosas e drible insistente passou a um criador mais maduro, mais influente e mais focado no coletivo.


Extremo Direito: Temos poucas dúvidas que, se Otávio fosse um jogador menos controverso e com outra postura, seria considerado de forma quase unânime o melhor atleta a jogar em Portugal. O médio do FC Porto foi o jogador que vimos apresentar um nível mais elevado num maior número de jogos esta temporada, impressionando a conjugação de duelos ganhos com oportunidades criadas e decisões acertadas. Não contribui para um futebol português menos tóxico, mas é um jogador especial que podia facilmente encaixar num Liverpool, Nápoles ou Atlético desta vida. Continua no Dragão, os adeptos agradecem, os adversários não podem com ele.
    Depois da festa do título ganha contornos especiais colocar Otávio e David Neres na mesma frase, claro. O extremo brasileiro do Benfica, de penteados variados, olhar semi cerrado, drible desconcertante e pé esquerdo fulminante, foi um dos elementos mais decisivos no arranque e no fecho da prova. Pelo meio, faltou outra consistência.
    Há ainda que elogiar a forte época de Iuri Medeiros (apresentou melhores números em 21-22 e mesmo quando representou o Moreirense, mas desta vez mostrou-se sempre mais jogador no geral), o por vezes endiabrado Marcus Edwards, e Tiago Gouveia, uma jovem promessa que seguramente fará pela vida na próxima pré-época do Benfica.


Extremo Esquerdo: Aos 30 anos, João Mário explodiu. Com 23 golos no conjunto de todas as competições, guarnecidos com 13 assistências, JM marcou basicamente mais numa só temporada do que no somatória das 7 temporadas anteriores. É certo que as grandes penalidades ajudaram, mas o camisola 20 foi sempre um dos jogadores-chave de Schmidt, e até parecia a dada altura estar lançado para MVP da época, reconhecimento beliscado por uma reta final em que o seu rendimento caiu a pique.
    Ricardo Horta (6.º melhor marcador, 4.º jogador com mais assistências e 3.º no total de oportunidades criadas) voltou a carregar o Sporting de Braga, melhor acompanhado desta vez num conjunto menos Hortadependente, e Iván Jaime terá deixado os "grandes" loucos. O espanhol de 22 anos, dez nas costas da camisola famalicense, acrescentou o que lhe faltava (números e regularidade) perspetivando-se o mais do que certo salto para um grande ou para La Liga.
    Trincão, quando esteve em dia sim, foi um dos melhores, mas teve muitos dias não e longos períodos de pouca inspiração depois de um jogo incrível, e Galeno não fez esquecer Luis Díaz, naturalmente, e podia ter tido outro rendimento (Janeiro deixava perspetivas de um 2023 superior do extremo brasileiro) mas, ainda assim, cresceu muito do ponto de vista sem bola.


Avançado: Gonçalo Ramos vs Mehdi Taremi. O ponta de lança iraniano do FC Porto foi o máximo goleador da Liga, com 22 golos, mas tudo somado o "88" dos encarnados realizou uma temporada superior. Os números nem sempre dizem tudo. Com uma disponibilidade e entrega inexcedíveis, indo ao choque e pressionando, sacrificando-se para outros colegas seus estarem mais "soltos", Ramos chegou aos 19 golos sem apontar qualquer grande penalidade do Benfica. Diz a matemática que, com penalties, o rapaz de Olhão teria ficado perto dos 30 golos.
    Taremi assaltou a Bota de Prata nas jornadas finais, com um decisivo póker em Famalicão, numa corrida que durante algum tempo pareceu entre Gonçalo e João Mário, mas é injusto reduzir Taremi ao que marca. O goleador azul e branco não batalhou tanto como o avançado dos novos campeões nacionais mas, enquanto avançado criador e hábil no último passe, não há melhor que ele em Portugal.
    Fran Navarro apontou 17 golos ao serviço do Gil Vicente, embora tenha sido também o jogador que desperdiçou mais ocasiões flagrantes desta Liga; Abel Ruiz contribuiu para o bom futebol do Braga, acrescentando uma fluidez diferente do mais posicional Banza, e Yusupha merece a última vaga, que não estaria mal entregue a Mújica.



    If you love football, you love Fredrik Aursnes. Ao contrário de outros anos, em que Jonas ou Bruno Fernandes foram destaques individuais com larga vantagem sobre os restantes colegas de profissão, 2022/ 23 foi um ano de muito equilíbrio e muitas flutuações nos momentos de forma.
    Até se sagrar campeão do mundo e fazer as malas para o Chelsea, Enzo Fernández estava a ser provavelmente o melhor jogador em Portugal. Pedro Gonçalves e Ricardo Horta fizeram por merecer um lugar neste Top-6, mas nos instantes finais não fomos capazes de riscar nenhum destes seis.
    João Mário foi o Most Improved Player do ano, marcou numa só época tanto como tinha marcado nas 7 anteriores, afirmou-se na hierarquia de capitães do Benfica e, só mesmo uma reta final medíocre o afastou de uma (a dado momento) anunciada distinção como MVP. Mehdi Taremi foi o melhor marcador da prova (22 golos) e o jogador com participação direta em mais golos, mas contrariamente a JM foi o seu brilhante último quarto de campeonato que ajudou a mudar a perceção global duma época oscilante.
    Gonçalo Ramos foi o melhor avançado da Liga Bwin. Chegou aos 19 golos, deixando todas as grandes penalidades para o colega João Mário, fartou-se de correr para auxiliar sem bola e desbloquear linhas de passe, tornando-se o clássico avançado completo. Se o critério de escolha assentar nos jogadores que durante mais tempo estiveram a um nível mais alto, então Otávio e Álex Grimaldo seriam as escolhas naturais. O lateral espanhol deixa saudades na Luz, e o médio portista continua a ser uma brutalidade de jogador, vendo o seu carácter (ou falta dele) prejudicar a justa avaliação dos seus predicados técnicos e da sua impressionante versatilidade tática.
    Assim, Fredrik Aursnes é o nosso Jogador do Ano da Liga Bwin 2022/ 23. O médio norueguês, camaleão tático de fabuloso QI futebolístico será talvez quem melhor personifica este Benfica de Roger Schmidt. À falta de um óbvio MVP, a escolha acaba por recair num elemento polivalente que nos deslumbrou e convenceu a cada toque, deixando o futebol feliz como bacalhau numa consoada de Natal.



    E o sucessor de Vitinha, Pote, João Félix, Rúben Dias, Renato Sanches ou William Carvalho, para nomear alguns dos anteriores distinguidos pelo BPF, é Gonçalo Ramos.
    O Jovem Jogador do Ano, avançado de trabalho incansável, confirmou quem acreditava que poderia estar no 88 o próximo grande dianteiro do futebol português. Ramos, tal como António Silva e Enzo Fernández, deu corpo a um Benfica entusiasmante, um viveiro de juventude no qual despontou ainda João Neves (com apenas 600 minutos na Liga, tem que ficar adiada a sua presença neste Top para a próxima temporada).
    Pedro Malheiro, Tomás Araújo, Ibrahima Bamba e André Amaro foram equacionados, mas o leque fica completo com o uruguaio Manuel Ugarte, o mágico espanhol Iván Jaime e a locomotiva à direita do Estoril, Tiago Santos.



Treinador do Ano: Roger Schmidt revolucionou o Benfica. Em menos de 12 meses, o técnico alemão foi a principal figura do "38" pela forma como reconquistou os adeptos, desenvolveu jogadores (João Mário, Gonçalo Ramos, Chiquinho e Florentino tiveram todos dedo de treinador), apostou na prata da casa (em circunstâncias idênticas, muitos treinadores não confiariam em António Silva e João Neves) e tudo isto com um futebol cativante, com personalidade nos palcos europeus. A sua serenidade, de mãos nos bolsos confiante no trabalho de casa e no valor dos seus pupilos, e o sorriso rasgado no capítulo final servem de boas fotografias da Liga Bwin 2022/ 23.
    Além de Schmidt, importa valorizar novo trabalho de excelência de Sérgio Conceição, a conseguir manter a sua equipa intensa e focada numa perseguição que adiou o título encarnado até à última jornada, e Artur Jorge, o homem que bateu o recorde de pontos no Sporting de Braga, colocando os arsenalistas com hipóteses de chegar à fase de grupos da próxima Champions.
    Para Rúben Amorim foi um ano de aprendizagem, Vítor Campelos e Filipe Martins seriam escolhas sensatas para este Top-5, mas optámos por Armando Evangelista e Moreno. O técnico do sensacional Arouca convenceu-nos com um futebol de processos muito bem assimilados, enquanto que no Vitória, Moreno fez muito com pouco, orientando uma equipa forte a defender e com muitos jogadores da formação vimaranense a despontar.



Melhor Marcador: 1. Mehdi Taremi (Porto) - 22
2. Gonçalo Ramos (Benfica) - 19
3. João Mário (Benfica) e Fran Navarro (Gil Vicente) - 17

Melhor Assistente: 1. Pedro Gonçalves (Sporting) - 11
2. Álex Grimaldo (Benfica) - 9
3. David Neres (Benfica) e Ricardo Horta (Braga) - 8

Clube-Sensação: Arouca
Desilusão: Sporting
Most Improved Player: 1. João Mário, 2. Florentino, 3. Andrew
Reforço do Ano: Enzo Fernández (Benfica)
Flop do Ano: David Carmo (Porto)
Melhor Golo: Nuno Santos (Sporting 3 - 0 Boavista) (Link)




11 de janeiro de 2023

As Melhores Séries de 2022

 Avaliados os melhores episódios e as melhores novidades, despedimo-nos do melhor da Televisão em 2022 com a categoria suprema: as Melhores Séries do ano.

    Há um ano atrás, este Top-20 incluía, para nomear alguns destaques, Succession, Dave, For All Mankind, Ted Lasso e séries estreadas nesse ano como Arcane, Station Eleven ou Squid Game. Uma volta ao Sol depois, são 4 as séries que fizeram por merecer presença repetida: Reservation Dogs, The White Lotus, Hacks e For All Mankind.
    Num ano sem a dramédia da família Roy, nada nos marcou mais do que o final de Better Call Saul, dividido em duas partes (ou três, se considerarmos o epílogo a preto e branco uma espécie de pós-BCS), tendo 2022 significado igualmente o fim de Atlanta, com a 3.ª temporada a ser emitida em Março-Abril-Maio e a 4.ª em Setembro-Outubro-Novembro. The Bear foi a surpresa do Verão, Severance (brilhante conceito) um novo puzzle com muitas teorias para alimentar nos próximos anos, e felizmente House of the Dragon trouxe de volta aquele quentinho perdido desde o término de Game of Thrones.
    Oito novidades e 12 séries consolidadas compõem a nossa Lista, com dois pormenores raros - fraca presença Netflix (apenas Stranger Things e Love, Death & Robots, caindo para metade a representatividade do gigante do streaming nas nossas escolhas) e uma só mini-série (We Own This City), algo bem diferente da edição de 2021, que só no Top-10 teve 4 mini-séries.

    Apresentam-se então as 20 Melhores Séries de 2022:


1. Better Call Saul (AMC)criado por Vince Gilligan e Peter Gould

(94) - E no fim, agora com o devido distanciamento e com a moldura completa podemos dizer: Better Call Saul foi muito diferente de Breaking Bad, mas também foi (tangencialmente) melhor.
     O fim da linha para Jimmy McGill foi o remate perfeito de Gilligan e Gould para um universo de personagens nascido no ecrã em Janeiro de 2008. Saul dividiu-se em duas partes, mantendo a cores a adrenalina do engano e a justiça moral de chico-espertos imorais toldados pela diversão do golpe, e tingiu a preto e branco um epílogo romântico de arrependimento, fato platinado em tribunal e revólveres fictícios prontos a disparar pela última vez.
    Rhea Seehorn como Kim Wexler é o melhor desempenho de todos os tempos de uma atriz numa série televisiva. 

2. The Bear (FX on Hulu)criado por Christopher Storer

(90) Yes, Chef! Eis a melhor série estreada em 2022 para o Barba Por Fazer. The Bear é uma panela sob pressão, é uma cozinha stressada ao som de jazz, é água bebida de um tupperware e uma constante procura por respostas, apenas disponíveis em polpa de tomate.
    The Bear é uma família de colegas de trabalho, é um irmão em luto, é Pearl Jam, Sufjan Stevens e, por fim, Radiohead. Com muita simplicidade na receita, e um incrível Jeremy Allen White como Carmy, a série de Verão de Christopher Storer preencheu-nos como nenhuma outra das novidades do ano.

3. Severance (Apple TV+)criado por Dan Erickson

(88) No papel, a ideia de Dan Erickson tinha tudo para resultar em algo genial: Mark (Adam Scott) e os seus colegas de trabalho desempenham funções numa empresa misteriosa, sujeitando-se a um procedimento cirúrgico capaz de separar por completo o seu "eu" privado e profissional. Quando estão no trabalho, não têm memórias da sua vida exterior; quando estão fora do trabalho, desconhecem em absoluto o que fizeram no horário de expediente.
    Na prática e no ecrã, a ideia de Dan Erickson saiu ainda melhor do que as mais confiantes previsões. Com Ben Stiller a realizar 6 dos 9 episódios, Severance (demora uns episódios a agarrar, mas compensa com a intriga progressiva, num puzzle inteligente que abre uma porta com um novo ponto de interrogação à medida que fecha outra) tornou-se a nova jóia da coroa da Apple TV+, superando For All Mankind e Ted Lasso, e acreditamos que durante as próximas temporadas, Severance se torne uma das séries mais respeitadas no mundo, quer pela crítica quer pelo grande público.
    O nono "The We We Are", impróprio para cardíacos, foi o grande episódio de 2022.

4. My Brilliant Friend (HBO, Rai 1)criado por Saverio Costanzo

(86) - A adaptação dos contos napolitanos de Elena Ferrante continua a cimentar-se como uma das séries mais conhecedoras do ser humano, seja como fotografia da amizade, da inveja, do desejo ou do que é ser mulher.
    A passagem de testemunho, através de um espelho, de Margherita Mazzucco para Alba Rohrwacher foi uma das mais geniais revelações de novo casting de que temos memória.

5. Reservation Dogs (FX on Hulu)criado por Sterling Harjo e Taika Waititi

(85) - Herdeiro espiritual de Atlanta. Os Rez Dogs voltaram com a mesma sensibilidade, fazendo de um abraço entre quatro (e, por instantes, cinco) amigos à beira-mar um dos momentos mais emotivos da Televisão em 2022.

6. Barry (HBO)criado por Alec Berg e Bill Hader

(85) - Barry foi mais do que o exemplarmente bem executado e, convenhamos, inevitável twist do oitavo "starting now". A comédia sobre um assassino contratado torna-se, a cada episodio que passa, um drama mais e mais pesado; mas continuamos a ter perseguições à la GTA, um sábio conselheiro numa loja de beignets ou, como sempre, NoHo Hank.

7. Andor (Disney+)criado por Tony Gilroy

(84) Honestamente, quando Andor foi anunciado pensámos que se trataria de apenas mais uma série Star Wars. Depois do sucesso de The Mandalorian e do relativo insucesso de Obi-Wan Kenobi, Tony Gilroy edificou o novo tesouro do Disney+ e a melhor criação SW desde a trilogia original.
    O começo da jornada de Cassian Andor (Diego Luna) de ladrão e mercenário até revolucionário colocou a cereja no topo do bolo do ano televisivo de 2022, com personagens tridimensionais e bem trabalhadas, uma maturidade temática, visuais estonteantes e novas camadas de política e espionagem a acordar um universo que, sem precisar de Skywalkers, Yodas ou sabres de luz, parece agora mais vivo e relevante do que nunca.

8. House of the Dragon (HBO)criado por Ryan J. Condal e George R. R. Martin

(83) Já sentíamos falta daquela sensação de perigo constante ao fazer scroll na Internet à segunda-feira, podendo a cada esquina espreitar um spoilerGame of Thrones, a série mais mediática dos últimos anos, saiu pela porta pequena, e também por isso não tínhamos grandes expectativas para o herdeiro House of the Dragon.
    A prequela foi uma das belas surpresas de 2022, brilhando no mais importante (o enredo) e dando uma lição na arte de construir e apresentar um novo universo de personagens. Tivemos dificuldade em não revirar os olhos perante alguma incoerência na disparidade de envelhecimento entre as personagens, mas foi com gosto que corremos a estudar a árvore genealógica Targaryen, matando saudades de episódios pouco iluminados mas épicos, de crianças que lutam até uma perder o olho ou dos céus cruzados por um dragãozinho e um dragãozão.

9. Stranger Things (Netflix)criado por The Duffer Brothers

(82) - Confessamos: desde a temporada 1 (2016) até à 3 (2019), Stranger Things foi-se tornando progressivamente menos apelativa e cada vez mais uma obrigação, colocando-se num frágil limbo à beira da jarra das séries de que desistimos a meio da viagem.
    E de repente, o conteúdo porta-estandarte da Netflix deu-nos à 4.ª vez a sua melhor temporada até à data. Com um novo fan favourite (Joseph Quinn como Eddie Munson) e uma total responsabilidade no renascimento da "Running Up That Hill" de Kate Bush no Spotify, Stranger Things fez tudo bem: voltou a revelar eficácia e bom gosto ao separar as personagens em diferentes grupos para os juntar no fim, montou com mestria as revelações sobre Vecna e o paciente 1, e até a opção de estrear 7 episódios em Maio, deixando os capítulos 8 e 9 para Julho foi uma decisão acertada.

10. The Rehearsal (HBO)criado por Nathan Fielder

(82) Nathan Fielder é um dos autores mais fora da caixa dos nossos dias. Depois do sucesso de Nathan For You, da Comedy Central, o ator e humorista canadiano convenceu a HBO a apoiar as suas ideias com uma super-produção.
    The Rehearsal teve a sua origem num conceito simples: uma comédia/ documentário em que os participantes podem ensaiar ou preparar-se para determinados momentos da sua vida, não deixando nada ao acaso num mundo imprevisível. Quando parecia que este ensaio seria uma espécie de série de procedimento repetitiva, Fielder tirou-nos o tapete com uma matriosca existencialista, uma profunda reflexão sobre parentalidade.

11. Atlanta (FX)criado por Donald Glover

(81) - É um exercício complexo falar sobre o que foi Atlanta em 2022. Eleita Série do Ano pelo Barba Por Fazer no cada vez mais longínquo ano de 2018, a criação de Donald Glover voltou 4 (!) anos depois, e despediu-se em definitivo ao colocar na ar num só ano as temporadas 3 e 4.
    A comédia absurda, profundamente autoconsciente, original e satírica, apostou num compêndio de contos urbanos, marcantes embora algo desligados entre si.
    Despediu-se na interpretação do olhar de Darius (LaKeith Stanfield) tendo antes brilhado, bem ao seu estilo, numa paródia documental sobre "Pateta: O Filme".

12. The White Lotus (HBO)criado por Mike White

(80) - Em 2021, o Hawai; em 2022, a Sicília. A antologia de Mike White fez as malas para uma nova estância turística com histórias paralelas e novo casting privilegiado (F. Murray Abraham, Michael Imperioli, Aubrey Plaza, Haley Lu Richardson e Theo James) e a personagem Tanya (Jennifer Coolidge) como ponte entre as duas temporadas.
    Com White, o tradicional whodunit começa a ser substituído por um simples whodied, e mal podemos esperar pelo terceiro capítulo, à partida na Ásia, sucedâneo das semanas de férias sobre desigualdade de classes e infidelidade.

13. Hacks (HBO Max)criado por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky

(80) - Com a HBO Max a apostar numa disponibilização de 2 episódios por semana (boa opção face às características, duração e tom da série), Hacks manteve toda a sua habilidade no desenvolvimento da relação pessoal e profissional de Ava (Hannah Einbinder) e Deborah Vance (Jean Smart).
    Deu gosto ver a série na estrada, e aquele derradeiro "The One, The Only" - bem emotivo, no seu clímax - serviria igualmente bem como season finale ou series finale. Mas ainda bem que vamos ter 3.ª temporada.

14. Winning Time: The Rise of the Lakers Dinasty (HBO), criado por Max Borenstein e Jim Hecht

(79) Entre as novas séries inspiradas por eventos reais, Winning Time merece a medalha de ouro. Adam McKay (realizador do episódio-piloto) introduziu uma distinta impressão digital em termos de estilo, com a alternância no "grão" da imagem, e o arranque da dinastia dos anos 80 dos LA Lakers contou com uma hábil forma de filmar desporto e uma astuta capacidade de colocar no ecrã o entusiasmo gerado pela revolução táctica.
    É magnífico ver Adrien Brody a emergir em segundo plano como Pat Riley, ajudou certamente a HBO encontrar um Kareem Abdul-Jabbar 99% igual ao verdadeiro e o primeiro sinal de que a série tinha tudo para correr bem deu-se logo no primeiro sorriso e na primeira transpiração de carisma de Quincy Isaiah como Magic Johnson. 
    Uma palavra final para John C. Reilly, que já merecia encabeçar um projecto desta dimensão.

15. We Own This City (HBO), criado por George Pelecanos e David Simon

(79) As séries de David Simon são, de certa forma, séries de nicho. Numa sociedade sedenta por estímulos e cliffhangers que nos façam dormir menos e devorar mais, o génio responsável por The Wire trabalha ao seu ritmo, com um realismo que nos leva para as ruas das suas histórias, mas que se recusa a recorrer a bandas sonoras influenciadoras.
    Simon e Pelecanos respeitam a audiência, são mestres do Show, don't tell e em We Own This City - 5 horas e 57 minutos dividos em seis partes - voltaram a trabalhar na mesma fasquia alta de sempre.
    A corrupção da polícia de Baltimore vacilou apenas na forma algo confusa como por vezes viajou no tempo (talvez numa segunda visualização o encadeamento seja mais intuitivo) e vincou Jon Bernthal como um dos principais nomes do meio televisivo na atualidade.

16. Pachinko (Apple TV+), criado por Soo Hugh

(78) Com potencial para se tornar uma das grandes séries dos próximos anos, Pachinko afirmou-se como o drama familiar do ano. Bebendo da magistral realização de Kogonada (ColumbusAfter Yang) a jornada de uma família coreana imigrante encantou-nos à primeira vista, e rebentou a escala ao sétimo capítulo, com o Japão e 1923 como pano de fundo.

17. Euphoria (HBO), criado por Sam Levinson

(77) - A obra-prima de Sam Levinson não nos oferecia uma temporada completa desde 2019 (em Dezembro de 2020 e Janeiro de 2021 houve apenas dois especiais focados em Rue e Jules) e o muito aguardado regresso ficou marcado pela forma desequilibrada/ com falta de linha condutora com que os acontecimentos se sucederam. A ação avançou pouco e algumas personagens caíram para segundo plano (Jules) enquanto outras dispararam de relevância (Sydney Sweeney, como Cassie, aproveitou para mostrar a boa atriz que é).
    Em todo o caso, bastava aquela descida aos infernos em "Stand Still Like a Hummingbird" para Euphoria figurar aqui. Quando pensávamos que Zendaya não poderia superar-se, ela conseguiu-o.

18. Industry (HBO, BBC Two), criado por Mickey Down e Konrad Kay

(77) - Uma das boas surpresas de 2020, que até só descobrimos em 2021, regressou à grelha da HBO tomando a opção de assumir a realidade e os efeitos da pandemia na própria narrativa do programa. Foi bom rever Harper (Myha'la Herrold é uma estrela em ascensão), Yasmin, Robert e Gus e, após vícios, solidão, acções a cair a pique, traições pelas costas e negociatas noite dentro, aquele twist com Eric Tao no final "Jerusalem" foi um dos melhores murros no estômago de 2022.

19. For All Mankind (Apple TV+), criado por Ronald D. Moore, Ben Nedivi e Matt Wolpert

(75) - Muitos críticos consideram a 2.ª temporada a mais difícil para muitas séries. É nesse Ano 2 que a série fideliza o seu público ou o perde para novos conteúdos virais. Talvez por isso, muitas séries que passam com distinção a avaliação da segunda temporada, atingem depois o seu pico de rendimento no 3.º ensaio. Este não foi o caso de For All Mankind, a ambiciosa produção espacial da Apple TV+.
    Sexto lugar nas nossas Melhores Séries de 2021, a série que continua a ser um projecto desconhecido para muita gente desiludiu-nos na ida a Marte, culpa talvez do patamar de excelência imposto pelo inesquecível "The Grey (episódio final da segunda temporada), do excesso de Danny Stevens e porventura dos prazos cumpridos na produção. Não é comum uma série com estes valores de produção ser emitida em anos consecutivos e, por vezes, a pressa é inimiga da perfeição. 

20. Love, Death & Robots (Netflix), criado por Tim Miller

(75) - Uma das duas representantes do catálogo Netflix no nosso Top-20 voltou ao seu melhor nível, apresentado na estreia em 2019, conseguindo uma certa redenção depois de virar fiasco irreconhecível em 2021. Com o regresso dos três robôs como anfitriões da temporada e David Fincher como realizador do fantástico "Bad Travelling", Love, Death & Robots voltou a experimentar diferentes estilos de animação, capazes de servir contos, ora mais leves ora mais profundos e ambiciosos. "Jibaro" é incrível.